julho 19, 2007

Estatuto: solidário


O nome lembra um batalhão de guerreiros e faz justiça ao seu trabalho. Vivem essencialmente da determinação dos voluntários, operacionais e dadores que, em conjunto com os elementos da instituição, formam uma verdadeira Legião da Boa Vontade. Eles foram os primeiros a fazer trabalho de rua, directamente com os sem-abrigo

Segunda-feira, 20:30. Os termómetros marcam 6º e a humidade é da que se entranha na roupa. Aquele sector da rua está sem electricidade. É à luz tímida de duas velas que o grupo de voluntários se atarefa a transpor a sopa, cozinhada pelo turno de dia, das enormes panelas para os recipientes térmicos. Os sacos com os lanches, como habitualmente, erguem-se em pilha sobre as arcas frigoríficas. Ao contrário do que é usual, e prevendo pouca colaboração dos céus, que ameaçam chuva, esta noite os iogurtes e a fruta serão distribuídos pelos sacos antes de a viagem começar. São os preparativos para mais uma noite de Ronda da Caridade na Legião da Boa Vontade (LBV).
A azáfama é grande e não é uma noite tipicamente invernosa que consegue diminuir o labor dos participantes que ultrapassam em pouco a meia dúzia. Este número corresponde a uma ínfima parte dos 220 voluntários que trabalham com a organização, apenas em Lisboa.
A Ronda é talvez, em Portugal, a face mais visível da actuação desta instituição. Através da acção deste programa são atendidas por noite, e apenas na capital, cerca de 180 das 1000 pessoas que vivem na rua, números dos censos elaborados pela Câmara Municipal de Lisboa (CML), em 2004. Três noites por semana, a equipa sai à rua. Na carga, levam alimentos para distribuir e uma poderosa ferramenta de trabalho: a capacidade de escutar quem lhes queira confiar os seus problemas, além da tentativa de resolução das situações mais prementes de exclusão social.
O itinerário está antecipadamente definido, embora exista uma notória ausência de coordenação entre as várias organizações que prestam serviços semelhantes. Esta falta de projecto comum origina habitualmente a sobreposição dos percursos efectuados pelas instituições. Além desta aparente impossibilidade de conjugação de esforços, a Câmara Municipal de Lisboa (CML) também parece não estar desperta para intuir que um maior planeamento, através dos seus serviços, distribuiria de forma mais equitativa as capacidades de cada instituição. Contudo, essas são questões institucionais que em nada perturbam a actuação dos voluntários que se predispõem a trabalhar com a LBV.
Não é fácil traçar o retrato-tipo dos voluntários. Em cada Ronda, composta habitualmente por sete elementos, convivem pessoas de todas as idades e profissões. Vanda tem 36 anos e é empregada de escritório. Uma noite por mês deixa os filhos entregues ao marido ou à mãe para participar na Ronda. Vive em Palmela e nessa noite pouco descansa mas os seus motivos quase podem ser considerados terapêuticos: ”isto é como um recarregar de baterias para o nosso dia-a-dia. Faz-nos ver que muitas das coisas que consideramos problemas não são nada quando comparados com dificuldades efectivas que encontramos”. Ana Maria, 57 anos e reformada da banca, concorda: “lidar com certas questões faz-nos reequacionar as nossas próprias aspirações. Muitas vezes aborrecemo-nos porque não conseguimos ter a casa que desejamos, o carro que gostaríamos. Ao depararmo-nos com pessoas que não têm nada e não fazem disso um drama temos um exemplo de dignidade.”
Já Pedro tem 31 anos e é funcionário na área das telecomunicações. “Foi através da minha empresa que tomei contacto com o voluntariado”, conta. “As empresas têm acordos com instituições de solidariedade social e, se quisermos experimentar o trabalho de voluntários, um dia por ano, esse dia não nos é descontado no ordenado”. Pedro experimentou e fez-se voluntário efectivo acabando por transmitir o seu entusiasmo à mulher e a alguns dos amigos. A sua motivação é, também ela, muito simples: “é uma forma eficaz de ajudar quem realmente necessita e ainda de me sentir útil”.

Uma ronda por Lisboa

Vinte e uma e trinta, o grito corta o sossego da Rua Mouzinho da Silveira, em Lisboa: “carrinha!” Da sombra dos edifícios nascem vultos humanos. No meio da estrada, algumas pessoas tentam orientar a manobra da carrinha, facilitar a inversão de marcha, estar nos primeiros lugares da fila, quando o veículo estacionar. Carlos (nome fictício), mais antigo nestas lides, com um sorriso e um “boa noite” rasgados, abre cortesmente as portas aos voluntários. Espreita, para reconhecimento dos elementos da equipa que já vão ocupando lugar na retaguarda,
Luís (nome fictício) tem pouco mais de 20 anos. É educado e parece indiferente a todos os que o rodeiam. Da sua boca as palavras saem secas, com um ligeiro travo a ironia. Em voz baixa, conta que após a refeição voltará para casa, “se é que àquilo se pode chamar casa”, o olhar directo, como que a auscultar a reacção. Baixa a cabeça e continua a comer. Aparentemente, criou uma defesa em relação à sociedade que passa pelo silêncio. Perto dele está Maria (nome fictício), também ela mulher de poucas palavras e nenhumas fotografias: “tenho família, e não quero que eles saibam que ando aqui”. Maria trabalha mas o ordenado não lhe permite fazer face a todas as despesas mensais e os alimentos ou roupas obtidos junto das instituições de solidariedade social constituem uma preciosa ajuda ao seu orçamento. Como ela, muitos outros têm vergonha de se verem reconhecidos por familiares, antigos vizinhos ou colegas. A ideia que têm de dignidade não passa por esperarem pelo fim do dia para mitigar a fome com um prato de sopa ou um lanche oferecidos por uma instituição.
Com o intuito de ajudar a ultrapassar as dificuldades emergentes deste tipo de situações, da equipa da LBV fazem parte dois psicólogos e uma assistente social. Contudo, “trabalhar com uma população com este nível de carências não se torna simples.” É Miguel Arede, um dos psicólogos, quem o afirma, continuando: “a maior parte dos problemas que nos surgem têm a ver com situações de privação material que nós não conseguimos resolver no imediato”. Apesar deste grupo de trabalho procurar incessantemente a melhor forma de interagir com os sem-abrigo: “como psicólogos, a abordagem feita no âmbito da Ronda pode ser benéfica porque passamos a ser olhados com maior confiança, mas a nossa actuação não consegue ser terapêutica e torna-se muito pouco interventiva”. Além do mais, “sendo as principais necessidades destas pessoas materiais e urgentes, dificilmente conseguimos que reconheçam os seus problemas psíquicos, se desloquem às nossas instalações para falar deles e, consequentemente, tentemos ajudá-los a sair da situação de debilidade em que se encontram.” A isto acresce ainda o facto de ser “uma população bastante oscilante, a quem se torna difícil acompanhar e auxiliar”.
A oscilação a que se refere Miguel Arede é sentida quando, noite após noite, mudam as caras ou os locais dos que recorrem aos serviços prestados pela equipa de rua da LBV. Se há muitos que se tornam familiares às equipas, de quem já sabem o nome e com quem conseguem continuar a conversa mantida da última vez, outros mudam de local ou desaparecem por longos períodos.
Há contudo lugares onde a população se mantém praticamente inalterável, habitualmente locais onde a presença das caixas de cartão, transformadas em colchões, denotam algum sedentarismo. A estas pessoas mistura-se também muita gente que, apesar de ter habitação, espera pela carrinha para ir buscar os alimentos. Não são raros os casos em que cinco e seis sopas são servidas à mesma pessoa que as consome com a ansiedade de quem, notoriamente, está a comer a primeira refeição do dia. Se em muitas destes indivíduos é evidente a dependência do álcool e de estupefacientes, a eles junta-se gente com reduzidos recursos de sobrevivência: idosos com parcas reformas e desempregados, imigrantes ou nacionais, desmotivados com as dificuldades com que se deparam. Essencialmente quem está em situação de desemprego involuntário, procura em cada equipa alguém com quem falar das suas contrariedades e a quem transmitir os seus pequenos sucessos.
Nely Oliveira é uma das responsáveis pela sucursal da instituição em Lisboa. Brasileira, está em Portugal há cerca de 10 anos, altura em que foi convidada para desenvolver no nosso país um trabalho similar ao já incrementado no Brasil. Para ela é também nesta partilha de experiências que reside uma das mais valias da LBV: “a nossa intenção não é apenas distribuir comida mas também um pouco de ânimo para enfrentar as dificuldades diárias. É importante o trabalho que os voluntários fazem nesse sentido”. Essa importância fica patente quando algum dos utentes da Ronda oferece um ramo de flores ou bombons para um ou todos os elementos da equipa: “estes pequenos gestos são animadores. Afinal são pessoas que, apesar das suas dificuldades, procuram uma forma de nos demonstrar afecto”, diz Manuela, uma das voluntárias, que remata: “e isto acontece algumas vezes”.

Outras valências, os mesmos princípios

Além do programa especificamente dedicado aos sem-abrigo, a LBV desenvolve em Portugal outros projectos, sempre orientados para pessoas carenciadas. Entre eles encontra-se o programa Sorriso Feliz que, em Lisboa, se desenvolve num autocarro doado pela Carris e posteriormente transformado em ludoteca com o apoio de empresas e dadores particulares. Por Lisboa e arredores, este autocarro propõe-se a desenvolver um trabalho de chamada de atenção junto das escolas. Aí, entre actividades lúdicas, são transmitidos aos miúdos conhecimentos básicos sobre a constituição da sua boca, a estrutura dos dentes e os cuidados a ter com eles. Pequenos kits infantis de limpeza são distribuídos pelas crianças, ao mesmo tempo que lhes é feito um exame oral, cujo diagnóstico é registado e enviado aos pais com o intuito serem tratados pequenos problemas que eventualmente existam. Através desta valência, a LBV procura chamar a atenção para a importância da higiene oral na sanidade global do corpo, assim como prevenir situações que, já na idade adulta, possam vir a degenerar em dificuldades de integração social e essencialmente no mercado de trabalho por questões que se prendam com a aparência geral da pessoa.
Vocacionado para agregados familiares com sérias dificuldades de integração e de sobrevivência, a instituição tem vindo a desenvolver um outro programa denominado Um Passo em Frente. Como explica Nely, através desta valência, e “mediante inscrição de famílias ou de pessoas que habitam sozinhas, são diagnosticados os principais problemas existentes e procurada a forma de ajudar o agregado a ultrapassá-los, a dar «Um Passo em Frente»”. Nestes casos, além dos apoios institucional e psicológico, são também facultados alguns meios materiais de sobrevivência. Mensalmente são distribuídos cabazes com bens alimentares básicos e, quando necessárias, roupas que são entregues às famílias referenciadas.
Dulmira C. é uma das pessoas registadas neste programa. Com 81 anos, vive sozinha numa habitação cujas condições estão muito longe das ideais. Quando a equipa da LBV a visita, a comida que tem em casa resume-se a alguns ovos, açúcar, azeite e pouco mais: “é aqui que faço o meu comer”, diz, apontando uma resistência em cima de um grelhador, sobre a mesa de uma salinha. Logo de seguida pergunta com orgulho “já viu a minha cozinha?”: o frigorífico desligado, aberto e vazio, os recipientes que deveriam conter comida dispostos como bibelots, o fogão, sem fornecimento de gás, fechado e coberto por um naperon. Nely chama a atenção para o facto de não existir sequer uma banheira ou um duche: “isto não são condições para um ser humano viver”, diz em voz baixa enquanto dispõe a fruta na fruteira.
Tão graves como a situação daqueles que não têm um tecto são as condições de carência escondidas atrás de uma porta e, afirma Nely, “há muitos casos semelhantes”. Com o intuito de abranger as situações mais diversas possíveis, e ombreando com todas as outras valências, a LBV tem também uma creche para acolhimento dos mais pequenos que aí recebem cuidados e alimentação durante o período de trabalho dos pais, além de desenvolver um programa similar adaptado à terceira idade cuja finalidade, é fazer com que estas pessoas “se sintam menos sozinhas e, em simultâneo, úteis”, explica ainda Nely Oliveira.
Combate à exclusão social, à carência material e à solidão, talvez se possa assim definir a acção da Legião da Boa Vontade. Os meios que dispõem para esta luta dependem quase exclusivamente da sociedade civil e é essencialmente com ela que contam. Sejam bens perecíveis ou não - roupas, cobertores, brinquedos, electrodomésticos ou outras utilidades domésticas - a instituição aceita tudo o que lhes queiram dar porque há sempre alguém que necessita daquilo que os outros não precisam.


Um pouco de história

Entidade ecuménica, fundada há 56 anos no Brasil por Alziro Zarur, a LBV chega a Portugal através da influência do jornalista Penalva Rocha que, conhecedor do trabalho da instituição no outro lado do Atlântico, entendeu ser possível e útil desenvolver um serviço similar no nosso país. Em 1989 o convite efectuado para abertura de um centro de atendimento em Portugal é aceite pela LBV. Dezassete anos depois a sua acção no nosso país estende-se a três cidades: Lisboa, Porto e Coimbra.
Pioneira em Portugal no trabalho directo com os sem-abrigo, a experiência adquirida no Brasil e países limítrofes permitiu que a LBV se movimentasse de uma forma ágil e segura em território nacional. Através de contactos estabelecidos com empresas e particulares obtêm as doações, em numerário e géneros, que lhes permitem o desenvolvimento das suas várias valências. Porém, o carácter esporádico de muitas destas colaborações obriga a um trabalho de procura exaustiva para colmatar falhas e assegurar o funcionamento eficaz dos programas. Só em termos de alimentos doados, referimo-nos a 112.000 quilos anuais movimentados pela instituição e distribuídos por apenas três das suas valências (Um Passo em Frente, Semente da Boa Vontade e Ronda da Caridade), segundo os números de 2004. A quantidade de atendimentos efectuados, também anual, situa-se na ordem das 151.000 pessoas e famílias, todas elas carenciadas, um dos pressupostos para a actuação da LBV que pretende com o seu trabalho melhorar a qualidade de vida de todos aqueles que se encontram em situação de privação social extrema
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Magazine Grande Informação #18 - Julho/Agosto 2007

1 comentário:

Caesar disse...

Uma miserável realidade de um país miserável.
Um país que não gera mecanismos para acabar com a necessidade de seres humanos terem de recorrer a este tipo de assistência.
Como seria bom que um dia, alguém afirmasse;
‘Acabamos com as associações de caridade’, era sinal que não havia miséria.