Novembro 08, 2009

Nós, Humoristas

Dá pelo nome artístico de Pantufa Negra mas só responde ao chamamento por Rita. Gata e preta, avisou no primeiro cartoon: “a minha tira cómica vai enriquecer-me! Terei tanta popularidade que grandes companhias irão bater-se por patrocinar o meu blog. Vou reformar-me antes dos quatro!” Tinha dois anos quando o escreveu. Entretanto, passaram quase três. Excepção feita a algum robustecimento desde a primeira tira, não se lhe conhecem sinais exteriores de riqueza. Falhou na idade da reforma mas quem não o falha, nos tempos que correm? Talvez não tenha grandes companhias em luta renhida para lhe patrocinarem o blog mas rapidamente passou da individualidade do seu simples T0 cibernético, situado num enorme (con)domínio blogspot, para uma suite cedida pelo Expresso online ,no seu servidor. A popularidade, essa já cresceu ao ponto de ser convidada sair dos monitores para a edição em papel do semanário. De simples gata doméstica para a ribalta do caderno de economia do Expresso, poder-se-ia dizer.
Luís Faustino é o dono e manager de Rita, autor da Pantufa Negra e das coisas que “até uma gata preta percebe”. Formado em Engenharia Electrotécnica, foi sempre muito mais dedicado a outras áreas Fotógrafo freelance, afirma que fotografa tudo, “até a relva a crescer”. Terá sido eventualmente nessa ferocidade do disparo que apanhou a felina pelo caminho: vulgar mas expressiva, o arquétipo de todos os gatos. Foi a conjugação perfeita para quem “queria fazer uma certa crítica e sátira”. Tentou transformar a gata em desenho, porém, os conhecimentos técnicos eram escassos. “Em vez de caçar com cão, cacei com gata”. O que também podemos ler como: foi à caça da gata. A 2 de Fevereiro de 2007 é lançada na rede a tira zero da Pantufa Negra. A intenção é fazer uma tira diária, “uma crónica de costumes”. Faustino procurou a melhor forma de a lhe dar voz e expressividade. Como fonte de inesgotável inspiração, os noticiários que “são o melhor programa de humor de toda a televisão”. Mais do que isso, apenas ao espaço noticioso concede total assiduidade como telespectador: “acho piada aos golpes palacianos dos políticos”. Senhor de um humor cáustico, de si próprio diz ter dificuldade em ser entendido sem ironia. “Se digo que gosto de uma coisa, as pessoas pensam que estou a gozar”.
As regras apreendidas reforçam a qualidade da pantufada dada pela gata, que se mantém atenta à actualidade, que diz o inusitado, dificilmente transponível para as linhas corridas da prosa. A expressividade física aliada às frases curtas, calculadas e improváveis levam-nos a um nível de humor cáustico, mordente, muito diferente do que Portugal conhecia por safra sua. Luís Faustino faz por isso: “quero evitar a piada fácil, o que já está feito, mesmo que saiba que pode resultar”. Não poupa a portugalidade, o europeísmo, o deslize deste ou daquele colunável. O idiotismo não passa em branco pelo cérebro de Pantufa, gata moderna e informada, que mete conversa com a televisão, os jornais, o portátil, e boceja finalmente uma opinião. Quando a convidaram a arejar semanalmente, na edição em papel do Expresso, foi porque alguém notou os dotes específicos da felina em matéria de economia. Instalaram-na então comodamente no caderno próprio. Contudo, Faustino sentiu necessidade de fazer qualquer coisa de diferente para a versão em papel. Pantufa Negra evolui a caminho do estrelato e “apresenta: conversas com as criaturas”. O nonsense mantém-se, resistente. É ele que nos faz rir. É a ausência de sentido que levamos connosco na memória do enroscanço de uma gata que se deitou sobre uma opinião final. É a dela. Podia ser a nossa, se fossemos mais inventivos. É, seguramente, aquele nosso lado irónico, que combate o nacional-cinzentismo.
Quando aprimorar a técnica do traço, Luís investirá com maior empenho noutro projecto em que se envolveu e que “pretende ser mais venenoso”, a Batata Frita Digital. Por agora, um homem, uma gata, uma máquina fotográfica, um caderno do Rato Mickey e um computador. Já merecíamos um cartoon assim.
Nós #27 de 07 de Novembro 2009

Outubro 24, 2009

Nós, resistentes



Se cada comerciante do Chiado é um resistente, que dizer de quem ousa abrir uma loja numa rua esconsa e pouco movimentada, com artigos que, durante décadas, Portugal quis esquecer? Chiado abaixo, entre esplanadas, lojas ainda originais e as tomadas pelo franchising, atingimos a livraria Bertrand, seguimos as suas montras, pela rua Anchieta. Quando estas terminam, na secção infantil, tem início um maravilhoso mundo reanimado. No número 11 ficavam os armazéns da perfumaria David e David e foi precisamente aí que Catarina Portas decidiu dar existência ao seu projecto de “A Vida Portuguesa”.
Quando lhe perguntamos quem é, Catarina examina-nos bem de frente, olha a seguir para o lado. Matutamos sobre o que estará a pensar. Refazemos a pergunta para nós mesmos, equacionamo-la. Sim, era mesmo aquilo que queríamos saber. Facilitaria imenso o trabalho se a própria se definisse de forma detalhada. Mas Catarina é objectiva, ponderada e económica nas palavras. A resposta vem finalmente mas de forma sucinta, mesmo que sujeita a interpretações: “sou uma lisboeta irrequieta”.
Vamos ter de esgravatar. Essencialmente, queremos saber mais do que já lemos; ouvir de fonte fidedigna o que ainda não sabemos. Não nos chega a história da adolescente que queria aprender a confeccionar chapéus porque, sendo uma profissão em vias de extinção, a ela nunca faltaria trabalho e forma de subsistência. Também não nos basta saber que esteve na Índia por várias vezes, que escreveu um livro sobre Goa, outro sobre os Olivais, que começou por ser jornalista no Independente, continuando na Marie Claire, no Diário de Notícias e na televisão. Também nós gostaríamos de ser resistentes, ou talvez apenas mais persistentes, mas Catarina não desarma.
Lisboeta irrequieta fica. “Estrangeirada” também. Viajou desde muito cedo, viveu em Inglaterra aos cinco anos, em França aos oito. “Tinha consciência de que era portuguesa, mas alguma coisa há-de ter ficado dessa época”. Estudou no Liceu Francês e foi nos dois últimos anos que quis ser chapeleira. Emancipou-se da casa materna aos dezassete anos, pelo que “é natural que seja uma pessoa independente”. A forma como viveu durante os dois anos que medeiam a mudança de lar até ao primeiro dinheiro ganho como jornalista não vem aqui ao caso. Basta que acreditem em nós: Catarina é resistente e, tem razão, é irrequieta. Por isso andou pelas Índias. De lá trouxe outro olhar para com Portugal: “conhecia mal o meu próprio país e passei a olhar para ele como se fosse exótico”. Experimentou olhar para Portugal “de forma diferente, sem preconceitos”.
Continuava a ser jornalista. Efectuava uma pesquisa para uma revista de moda quando percebeu que alguns produtos, em cerca de 10 anos, quase tinham desaparecido. Por outro lado, preocupava-a “que houvesse uma espécie de blackout em relação ao passado”. As novas gerações não têm a noção de como se vivia há cerca de cinquenta anos, desconhecem objectos que fazem parte da história do povo português, da vida dos seus próprios pais. “Não acho que seja necessário estar continuamente a inventar coisas novas”, afirma Catarina. Cada época tem coisas boas e más. “Se estes produtos resistiram até aqui é porque têm qualidade”. Nessas circunstâncias, porque não dar visibilidade ao que tem carácter e perdura no tempo? Irrequieta, sempre a irrequietude, decide fazer documentários. É nessa altura que aprofunda as suas pesquisas, sabe da história dos artigos, quem ainda os produz. Procura fábricas e artesãos. Encontra terreno fértil para a sua ideia e começa a sementeira.
Ainda sem espaço comercial, é a partir da sua própria casa que se lança no desafio. Desenhou caixas, colocou-lhes dentro produtos tradicionais portugueses. Sabonetes, pasta de dentes, latas de azeite, artesanato. Tudo o que fosse genuinamente português lhe alimentava a inspiração. Ao lado dos produtos, a sua história porque: “a história de um produto é um argumento de venda importantíssimo”. Pegou no mostruário, levou-o à estranja. O problema maior residia em corresponder aos pedidos. Fabricar os artigos não dependia dela. Recorda o dia em que chegou da Maisons et Objects com uma encomenda de seiscentas andorinhas tradicionais portuguesas e a dificuldade que foi arranjar quem lhas produzisse. “Telefonava para as fábricas, estávamos na época do Natal, e respondiam-me que estavam a fazer presépios. Andorinhas só na Primavera”. Sugeria que empregassem mais pessoas para aquele fluxo menos vulgar de trabalho, defendia que eram peças de molde, sem necessidade de um oleiro especializado mas os argumentos enterravam-se em terreno absorvente. Teve de levar a voz mais longe, directamente a Joana Garrido, à altura vereadora para o artesanato da Câmara Municipal de Barcelos e, curiosamente, foi um oleiro dedicado a peças de autor, Carlos Baraça, o único que se disponibilizou a satisfazer-lhe a encomenda.
Irrequieta, sim, irrequieta. Jogou e ganhou. Apostou numa loja. “Fiz a loja contra a visão típica do país, muito limitada”. Estamos aqui para o comprovar. Um espaço dinâmico, com recordações do passado, o respeito do presente pela história do espaço. As épocas não têm de colidir, bastando que se integrem e foi o que Catarina fez quando recuperou o armazém da loja de perfumes David & David. Manteve armários, frascos, balcões, o pequeno escritório, com guichet para caixa e expediente. Portas pesadas, bem próprias de armazém, montras pequenas, supostamente pequenas demais para um espaço comercial. Ledo engano. A montra da loja é o próprio espaço, nos armários originais, abertos de par em par. Por secções, consoante a idade, é feito o convite a recordar ou a conhecer a história do quotidiano de uma casa portuguesa. Aliás, foi esse o primeiro nome do projecto: “A Casa Portuguesa”, ao que diz Catarina, por motivos um pouco provocatórios, pela evocação de outros tempos, bem antes de 1974. Só não apreciou de sobremaneira quando uma cliente quis estabelecer paralelos com o Estado Novo. Quando a oportunidade surgiu, a designação mudou para “A Vida Portuguesa”.
No currículo da loja constam marcas tão diversificadas como a Ach Brito, a pasta de dentes “que anda na boca de toda a gente”, de nome Couto, o restaurador Olex, os sabonetes Confiança, os lápis Viarco, os cadernos Serrote, produtos Coração, as andorinhas da Bordalo e mais uma imensidão de marcas, além de objectos anónimos, porém tão próximos da vida portuguesa.
Para Catarina, na altura em que se lançou no projecto, ”havia um momento de crise eminente. A globalização que entrara em Portugal deixava-nos desconfiados em relação ao que fazemos”. Perguntamos se acredita ter auxiliado a que algumas fábricas mantivessem a laboração. Responde rápida: “não tenho dimensão para impedir uma fábrica de fechar”. Contudo, o objectivo inicial foi cumprido “fazer com que os produtos vendessem mais, para não desaparecerem”. Tanto foi que em breve abrirá um novo espaço, nos Clérigos, no Porto. Em andamento está também o projecto da loja online, absolutamente adaptado às necessidades da vida moderna, piscando o olho a quem, gostando dos produtos, não tem tempo ou paciência para se embrenhar pelo centro da cidade. Em parceria com Alexandra Melo, da “Feitoria”, dividiram o catálogo, dispondo de um carrinho comum para as duas lojas. Até ao fim do ano tencionam disponibilizar cerca de mil produtos diferentes, na loja virtual.
Mulher com uma gaveta de projectos, no início do ano tirou mais do rectângulo, que acreditamos ser de madeira, para o atirar para a praça. Mais precisamente, para as praças: do Camões, do Príncipe Real e das Flores.
Aproveitando o lançamento dos concursos de concessão, por parte da Câmara Municipal de Lisboa, para os tradicionais quiosques, em parceria com João Regal, da DeliDelux, Catarina Portas cria uma rede de quiosques onde nos podemos viciar, e não é engano na utilização da palavra, porque o termo é exactamente esse, nos refrescos tradicionais portugueses. É o espaço “Quiosque de Refresco”. Limonada Chic, Mazagran, Leite Perfumado, Orchata, Groselha, Capilé, Chá Gelado, as sandes alfacinhas, mais as queijadas de Sintra, também em versão miniatura, estão ao nosso inteiro dispor. Ser lisboeta e não ter ainda provado, não é resistência, é pecado.
Venha, vamos fazer um tour. Primeiro passamos pelo 11 da rua Anchieta, compramos um caderno de apontamentos da Emílio Braga, um lápis da Viarco, um licor de Singeverga para a noite, uma caixa de chocolates da Arcadia, para passar o tempo. Atravessamos o largo do D. Carlos, subimos as escadas até ao Chiado. Camões espreita-nos do alto. Cumprimentamo-lo, reverenciosos e atingimos finalmente o Quiosque de Refresco mais próximo. Uma Orchata cai bem em qualquer hora do dia. Sentamo-nos, fechamos os olhos, pensamos em Eça de Queiroz e numa Lisboa de charme. Abrimos o saco que trouxemos d’”A Vida Portuguesa”, lemos a história do que comprámos e começamos a criar, em lápis sobre papel. Só a imaginação nos limita.
Viver ou fazer viver é resistir. Ao tempo, às dificuldades, ao esquecimento. Há quem tenha a alma talhada para resistir e fazer resistir. É Catarina Portas uma resistente? Acreditamos que sim.


Nós #25 de 24 Outubro 2009

Outubro 04, 2009

Nós, Voluntários



Bárbara Coelho - LBV

Durante dezasseis anos, o sol alentejano curtiu-lhe a pele. Foi quando entrou na camioneta da carreira e virou costas a Mértola. Não olhou para trás nem disse adeus. Fome e trabalho excessivo não merecem mais considerações.
Bárbara, Coelho de apelido, reside num corpo delicado mas cheio de vida Desenrascanço próprio de quem teve mais enrascanços na vida do que a vida de uma pessoa parece poder suportar. O voluntariado assenta arraiais naquele feitio irrequieto quando lhe surge a vontade de praticar reiki. O dinheiro falha. Edite, a professora, quer oferecer-lhe o curso do primeiro nível, mas a candidata a aluna sente-se mal com estas coisas do usufruto sem pagar. “Pense”, diz-lhe Edite. “Se me quiser encontrar, aos sábados estou nesta morada”. Dá-lhe um papel para as mãos. Calculamos que o embrulhou, juntamente com o desejo de praticar reiki, sempre ali, à mão de semear. Até ao sábado em que, com a arte milenar a alfinetar-lhe o desejo, põe pés ao caminho, rumo à morada. À espera de encontrar uma aula, depara-se com a Legião da Boa Vontade (LBV), uma Instituição Particular de Solidariedade Social.
A pergunta não tardou: quer ser voluntária? Cozinheira de profissão, ali ao Parque Eduardo VII, a madrugada vê-a passar ao encontro do fogão e dos tachos que a esperam no hotel. Tempo não tem muito, mas nunca foi mulher dar costas a experiências novas e o projecto parece-lhe válido: distribuir refeições pelos sem-abrigo de Lisboa. Trata a cozinha por tu, é por aí que começa. Rapidamente acrescentou nova tarefa à sua agenda: participar na Ronda, conhecer fisicamente aqueles para quem prepara a sopa e enche os sacos com alimentos. A quantidade de sopa e de sacos substitui o relógio no ditar da hora de regresso: “enquanto há sopa, encontra-se sempre alguém com fome”.
Vem a reforma mas não o descanso por que tantos almejam. Desconfiamos que aquele corpo franzino, de setenta e dois anos, não foi feito para estar parado. Mais dias na cozinha da LBV, que as Rondas são três por semana, as cozinheiras poucas e a sopa não se faz sozinha. Uma Ronda por mês? Porque não duas? A LBV sugere, Bárbara acede. No entretanto, tem família, meditação, yoga, reiki, livros para ler e um dia elástico. Ajuda a preparar as festas da instituição, participa na recepção aos utentes, vai a hospitais. Deixa a cozinha e parte para o apoio telefónico. Essencialmente ouve, fiel depositária de confissões e queixumes alheios, numa espécie de linha de apoio que a LBV proporciona aos seus utentes e a que Bárbara dá voz e sentimento. Encaminha as questões, ajuda a ultrapassar problemas e, como parece que não lhe chega, sobrando Bárbara para dar, aceitou participar numa outra valência da instituição, o programa “Viva Mais”, destinado a pessoas que se encontram em grande isolamento social. Semanalmente vai da Pontinha a Campo de Ourique, em visita matinal. Para dar, no saco leva comida; nos gestos e nas palavras, afecto.
Mulher dos sete voluntariados, que não serão sete mas assenta bem no texto que assim se escreva: Bárbara, Coelho de apelido.


Adelaide Marques - Hospital D. Estefânia


Adelaidinha é título social, que isto de ser minhota, nascida em 1926, não deu oportunidades de fuga à passagem pela pia baptismal, confirmação perante Deus do registo grafado a tinta permanente. Adelaide Marques é o nome oficial, o que ostenta nos documentos mas que quase esquece no prazer de ser tratada pelo diminutivo que traz afecto à mistura. É talvez a sensação de menina. A menina que sobrevive nas fotografias, ainda coloridas à mão, penteados elaboradíssimos, óculos à moda, que Adelaidinha nunca deve ter sido moça simplória, mesmo que narre parecer a Maria Papoila quando chegou à grande cidade. Olhando-a hoje, optamos pela versão da menina cuja graça no porte e a cor da bata de voluntária do Hospital D. Estefânia lhe valeram, provavelmente de médico mais galanteador, o epíteto de Pombinha Amarela.
Ser primogénita de um rancho de catorze irmãos por terras de Valença do Minho, foi passaporte mais que seguro para chegar a Lisboa. Menos uma boca a sustentar, primeira a fazer pela vida. Ainda antes de ser Pombinha Amarela, foi empregada de casas finas, acompanhante de crianças, pensamento arredado dessas coisas de voluntariado. Até porque a prioridade era viver.
De emprego em emprego, com um quarto para pagar, a catraia lá se vai amanhando em limpezas de salões de cabeleireiro. Faltava o comer mas, irmã de treze bocas, não está habituada grandes atestos de estômago. Encontrou o emprego perfeito. Limpava o salão e tratava do almoço do patrão. Do patrão e do dela, que a moçoila arranjou forma de comprar uma marmitinha e dividir parcimoniosamente o cozinhado. Escondia-a no cesto dos cabelos varridos. Ali ninguém ia descobrir. Comia à vontade, longe de olhares inquiridores.
Aprendiz, diziam eles, “mas como é que eu aprendia se não me deixavam ver?”, reflecte ela. Ficava atrás das portas, a ver como se fazia. De tanto espreitar aprendeu mesmo. Depositária das chaves do salão, aproveitava os domingos vazios para trabalho por conta própria, até um penteado seu ter ganho concurso bairrista. Pronto, estava descoberta a marosca, lá se ia o ganho, mais o almoço. Mas a coisa funcionou ao contrário e Adelaidinha ascendeu na profissão.
Nos meandros da história, que paramos por aqui, Adelaidinha casou e enviuvou sem que do casamento ficasse prole. E logo ela, que alimentava o sonho de ver nascer crianças. Alguém a chamou: “venha fazer voluntariado no Hospital D. Estefânia”. Foi. Viu e ouviu os primeiros sinais dos que acabam de chegar ao mundo. Lembra as seis crianças, paridas de uma assentada; a outra que a encontrou na rua, correu, abraçou-a e disse: “olha, a senhora que me dá bolachas”. Ficou-lhe na memória a criança cujo pai dizia que não iria comer e que, das mãos da Pombinha Amarela, merendou sofregamente.
Tomou-lhe o gosto. Acrescentou visitas a hospitais, lares de terceira idade. Ligou-se a pessoas, assistindo-as nos últimos momentos. Os filhos de alguns, telefonam-lhe todos os dias, visitam-na ao fim-de-semana. Voluntária foste, atendida serás. É assim uma permuta quase divina, feita pela mão do Homem.

Nós #22 de 03 Outubro 2009

Setembro 20, 2009

Jogar com a diferença

São nomes que podíamos desfiar pelas letras desta página, alinhados em qualquer disposição. Podíamos ordená-los e desordená-los, virar para um lado e para o outro, que teriam sempre algo em comum: momentos de lazer para pessoas com necessidades especiais. Proporcioná-los e usufruir deles.

A luz de Outono recorta as árvores folha a folha e define cada detalhe do Mosteiro dos Jerónimos. Junto aos autocarros de turismo, chega uma carrinha branca, logótipo verde e azul da Acessible Portugal. Pedro Brandão sai do lugar de motorista, dirige-se à traseira do veículo, acciona o elevador. Não é uma carrinha qualquer esta, nem turistas vulgares que nela se deslocam. Tão pouco Pedro é uma pessoa banal. Licenciado em História, trocou as voltas à vida ao abraçar o projecto que se lhe oferecia: guia turístico de pessoas com necessidades especiais. Um a um, faz descer acompanhantes e turistas em cadeiras de rodas.
Raymond conduz a a mulher, Angela. “Viajamos bastante, normalmente de avião”, diz. Mas “muitos locais não estão preparados e há falta de acessibilidades”. Estão a fazer um cruzeiro por vários portos europeus, integrados num grupo de ingleses onde cerca de metade tem necessidades especiais.
Ligeiramente afastados, Allan e Jane embalam-se em carícias. Jurista ele, ela com dificuldades de locomoção. Para ambos, “este é o terceiro cruzeiro e é a primeira vez que podemos fazer excursões num veículo especialmente adaptado para pessoas com deficiência”. Afirma Allan, “quando estivemos na Noruega, havia excursões todos os dias a partir do barco mas quem estivesse numa cadeira de rodas não podia ir a quase nenhuma”.
Foi com uma realidade semelhante que Joana Prates e Luís Varela, os sócios co-fundadores da Acessible Portugal se depararam quando resolveram criar uma agência de viagens para um nicho de mercado especial, o das pessoas com mobilidade reduzida. Como faz notar Pedro Brandão, “em Portugal, raramente vemos pessoas em cadeira de rodas na rua".
Explica Ana Garcia, também sócia da Acessible Portugal, “há falta de acessibilidades, e muitos dísticos mal colocados, o que leva a uma cultura em que as pessoas evitam sair porque as dificuldades com que se deparam são muitas”.
Durante os três primeiros anos de existência, a Acessible Portugal “funcionou essencialmente como animação turística para os estrangeiros”, diz Ana Garcia. Os sócios da agência de viagens acreditam que, “quem não tem o hábito de viajar, deve experimentar fazê-lo primeiro em Portugal, para conhecer as dificuldades que há numa viagem”. Estará então preparado para fazer um safari na África do Sul, visitar as pirâmides do Egipto, ou viajar até à Terra Santa. “Coisas que pensamos serem impossíveis para pessoas em cadeiras de rodas e não é, é perfeitamente possível”, conclui Ana.

Sentados à proa

Também para Carlos Caetano a palavra “impossibilidade” é tida como expressão a riscar do léxico de pessoas com necessidades especiais. Para o responsável do Náutico Clube Boa Esperança, não há obstáculos que sejam inultrapassáveis. Veleja há largos anos e afirma que “este desporto está dirigido a todas as pessoas que queiram ter no rio a possibilidade de sentir o prazer da vela, sem excluir rigorosamente ninguém”.
Abrem-se cais e passadiços, vêm cadeiras de rodas, cegos e bengalas, paralisias cerebrais, síndromes disto e daquilo, porque ninguém fica em terra. Coletes vermelhos contra o verde do rio e o azul do céu, em embarcações específicas para o assunto. Não viram e permitem que os tripulantes se sentem à proa. “Uma pessoa com necessidade de cadeira de rodas não pode sentar-se na borda de uma embarcação”, explica Carlos.
Seguimos viagem com Filipe Patrício e Miguel Machado. Os rapazes, acertam a idade pelas duas dezenas e são ambos cegos. Filipe é estudante. A cegueira, foi consequência de um tumor cerebral aos 10 anos, faz agora outros tantos. Passou metade da vida às escuras, mas rasga a cara num sorriso. “Comecei a velejar por influência de um primo”, diz. É a segunda vez que se faz ao rio, naquilo que afirma ser “uma experiência boa e muito agradável”. Característica dos invisuais, nas artes de marear, não tendo a percepção da linha do horizonte, não têm noção do equilíbrio e consequentemente, não enjoam.
Carlos faz com que Miguel sinta a direcção do sopro de ar na própria mão. O estudante angolano percepcionou e em breve saberá o que fazer para pôr a vela a jeito. Esta é a primeira aventura em veleiro do rapaz a quem, aos nove anos, problemas de retina retiraram a visão. A penumbra acompanha-lhe os passos há mais ou menos 14 anos, mas não é por isso que deixa de ser amante do desporto e acção. "Quero experimentar tudo o que puder", afirma.
Vantagens de um deficiente praticar vela? Carlos Caetano começa a desfiá-las: “aumenta os reflexos e a relação de equilíbrio. A relação sensorial aumenta imenso, a auto-confiança e a auto-estima que, por exemplo, para uma paralisia cerebral é essencial”. E afinal, o que parece impossível nem o é: “eles podem andar sem instrutor”. Como? – inquirimos. “Se um tem maior facilidade motora para regular a abertura de uma das velas, vamos usar isso. Se outro só tem capacidades para o uso do leme, fazemos todos os esforços para que exista uma equipa que consiga ser construída com autonomia, complementando-se”.

Na senda de Molière

Paragens mais calmas, mas nem sempre menos oscilantes. Andamos de um ginásio para o outro sem saber bem por onde pára o Grupo de Teatro da Crinabel. É o que faz não ter acesso a um espaço próprio, usar locais cedidos por este ou por aquele, retirados de vez em quando. Rodrigo Duque, o terapeuta da fala, leva-nos ao sítio certo, onde estão os “miúdos”. Pessoas de 20, 30, 40 anos, a quem Milou dirige, servindo de ponto para as deixas esquecidas.
“Dá-me a tua mão!”, pede Joana Cruz quando contracena com Rui Fonseca. Rui estende-lha, responde-lhe com aquela força que vem de dentro, só visível nos que gostam muito do que fazem. Sente-se o nervosismo de Joana, quando faz de boneca tímida que, diz, “é o que eu sou, e tenho medo de falhar”.
“Eles entregam-se a trabalhar com toda a alma e coração, com todas as suas potências, com tudo o que sabem e podem, com uma disponibilidade extraordinária”, diz Francisco Brás, o responsável pelo grupo. “Portanto, só posso olhar para eles com respeito, como seres humanos. E foi isso que sempre pautou o nosso trabalho”.
Francisco é um pioneiro. Estávamos em 1986, quando foi convidado a dar aulas de expressão dramática na Crinabel. Os alunos eram jovens, portadores de trissomia 21. Palavra dada ao director da companhia: “no final de um ano comecei a perceber que havia material humano muito rico para evoluir”. Investiu neles. Em 2001, Marco Paiva juntou-se-lhe, na organização do projecto que é provavelmente a face mais mediática da instituição. Representam Franz Kafka, Bertold Brecht, Almada Negreiros. Elementos do grupo participaram em séries de televisão, telenovelas, projectos musicais e Tomás Almeida foi distinguido, ex-aequo, com o prémio de melhor actor no Festival de Montreal, para a interpretação no filme “A Outra Margem”. Como se conseguem estas participações? É Marco quem responde: “as pessoas escrevem para uma personagem com estas características, sabem que nós trabalhamos com esta população e contactam-nos directamente”.
“Nós não utilizamos o teatro como terapia, mas como um objectivo de vida para estas pessoas”, afirma Francisco a quem perguntam muitas vezes como é possível que alguns dos actores, que não lêem, decorem papéis. Para ambos os responsáveis, “o processo é natural, é o processo da criação”. Inicialmente uma abordagem à temática, seguida de um estudo da personagem, fase em que “já há um domínio da situação, e uma série de coisas que favorecem. Por exemplo, se eu vou abrir a janela, o próprio movimento já os leva a decorar o texto”.

É tempo de usar a cor

A monitora, Luísa Henriques, abre a porta. Largueza, luz. Pincéis e frascos, tintas e água, cavaletes e telas. O som dos sapatos no soalho de madeira clara, sem mácula de pintor menos cuidadoso.
Junto à janela vive Maria Papoila, a galinha. No canto oposto, o trono sem rei. O imponente galináceo tem milho reciclado e água fresca, mudada todos os dias. O trono espera por quem nele se sente. “A intenção é criar a estas pessoas uma realidade paralela, em que saibam verificar o que é de faz-de-conta, mas que pode existir se eles quiserem”, explica Luísa
Luís esmera-se a explicar como fazem a esmaltagem. Saltam frascos dos armários, acena mãos em explicações nem sempre simples. Chama a tesoura de corte, o alicate para revirar e procura algo: Um par de brincos que acaba por vender ali mesmo. Presta contas a quem de direito e vira-se para a tela onde um enorme peixe azul paira no ar, escamas bem torneadas, cuidadosamente coloridas, numa nova modalidade de peixe anfíbio.
Elsa passeia-se pela sala, pára a cabeça no ombro de Luísa que a afaga, enquanto conta do livro para o qual fizeram capa, dos concursos participados, das obras vencedoras. Licínio Reino, o director, ciranda pelo espaço. Conversa aqui, palavra ali. Paula concentra-se, também ela, num escamudo peixe verde, enquanto Pedro solta pinceladas vermelhas, transformadas em pétalas de flores que crescem na tela. Mais afastado, João preenche a amarelo o desenho, traçado a encarnado, que cheira a África, nas ramagens verdes. “O João tem um traço muito interessante e característico. Mas temos ainda algumas dificuldades em que o passe do papel à tela”, afirma Luísa. São todos utentes da Crinabel. Homens e mulheres que para ali entraram, há mais ou menos tempo, mas onde dão largas à imaginação, em Centros de Actividades Ocupacionais (CAO’s) como o que Luísa conduz. Pintura, reciclagem, costura, cozinha, uma imensidade, num mundo que parece transportado de um livro de contos na inventividade demonstrada. O intuito é proporcionar momentos lúdicos a gente com necessidades especiais. Pessoas que, em casa, estariam confinadas a um espaço reduzido, com menos contacto humano, mais longe do idealismo.
Síndromas de Down, misturados com paralisias cerebrais e questões mentais várias. Comportamentos fracturantes numa unidade liberta de preconceitos, a fazer obra visível.
São felizes na arte da criação. Trabalham para isso, labutam com gosto. Criam ao seu ritmo, num equilíbrio entre o mundo dito normal e o deles próprios, tão rico e exequível como o de qualquer outro.



Notícias Magazine #904 20 Setembro 2009

Novembro 23, 2007

Lenine Rodrigues



É homem claro, directo, de sorriso tímido e simples. Fotografias não são muito com ele. Trabalho sim. Só aí se solta e se esquece da máquina fotográfica. Maquetista Naval, Lenine Rodrigues é um homem de artes. Usa o cinzel como usa o formão, o berbequim, como o pincel. O que for não importa. É arte, ele faz.

A sua relação com o Tejo vem desde que nasceu, numa travessa virada para o rio, há 62 anos, entre o casario do Barreiro. Desde cedo se habituou a ver passar fragatas, faluas, bateiras e catraios e desde pequeno se apaixonou por barcos à vela. “Ainda hoje, sou incapaz de ver passar um barco à vela e não parar, para o observar”, afirma Lenine Rodrigues, maquetista naval. Desde a madeira a metais nobres como a prata, este homem dedica-se a fazer réplicas dos barcos que sempre o encantaram. Teimosia, é uma das palavras que mais utiliza para definir a forma como consegue a perfeição dos seus trabalhos. Nós substituímo-la por persistência deste homem que fez o seu primeiro barco à vela ainda miúdo, de cascalheira, a casca castanha do pinheiro bravo, raspado sobre o cimento até lhe dar a forma que gostou de ver. Um pau e uma vela de papel, e corre a experimentar pô-lo a navegar na bacia de lavar as mãos. Foi com tristeza que viu o barquito adornar. Hoje sabe o motivo, que na altura não sabia: o mastro era excessivamente grande para o tamanho do barco. E foram precisamente os barcos à vela que se dedicou a reproduzir, à escala exacta, escolhida por si ou pelo cliente.

Entre França e Portugal

Em 1957 o pai imigra para França. Dois anos depois Lenine segue o mesmo caminho com a mãe. Se em Portugal já se tinha tornado aprendiz de carpinteiro, em França aprende o ofício de torneiro mecânico, trabalhando com “os três tornos: o vertical, o paralelo e o suspenso”. Chegou ao mais alto nível deste ofício, “era requisitado para trabalhar na França toda, inclusive na aeronáutica”. Entretanto, ao mesmo tempo, frequentava a escola ABC de Paris, uma “escola de artistas plásticos: desenho, pintura, desenho publicitário, tudo o que dizia respeito à arte”. Para onde ia levava o papel e os lápis. Fez o curso pelo amor que desde miúdo sentia pelas artes plásticas mas também porque lhe prometeram emprego no fim do estudo. A falência da firma que o empregaria veio a impossibilitar esse sonho e Lenine manteve o hobby a par com o seu ofício. Por motivos particulares, Lenine Rodrigues regressa a Portugal em 1976. Continua a ser torneiro mecânico e não tem dificuldades em obter trabalho mas a doença surge-lhe pela frente e viu-se impossibilitado de trabalhar durante 2 meses. Um pneumotorax impedia-o de fazer força. Disse para a mulher “é agora ou nunca”, referindo-se ao que até aí havia sido o seu hobby.

De auto didacta a maquetista naval

No início era um ilustre desconhecido que trabalhava para si mesmo. A oficina era dividida em duas partes, uma onde trabalhava como serralheiro, a outra onde dava azo à sua veia artística. Pintura, gravura, escultura, maquetismo, tudo lhe servia para se entreter. Um dia o seu hobby foi descoberto por dois amigos, um deles jornalista. Na semana seguinte um jornal do Barreiro falava de Lenine Rodrigues e do seu trabalho. Surgiram as primeiras encomendas para o núcleo naval do Museu de Almada e não parou mais.
A tal persistência e perfeição no que faz levam-no a não descurar qualquer pormenor e até os que não se vêem depois de acabada a peça, estão lá. Quando lhe perguntam porquê, se no fim não são visíveis, ele responde “mas vejo eu!”. É assim que cada barco tem beliches e toda a minúcia que lhes compete e cada modelo que faz é construído no tipo de madeira utilizado no original.

Um desafio vencido

Em 1998 Lenine Rodrigues aceita o desafio que lhe é colocado pela Joalharia Torres: fazer 13 miniaturas em prata. Trabalhar em prata é totalmente diferente de trabalhar madeira. Habituado a fazer os seus modelos em cavername, tal qual eles são construídos em tamanho natural e também através da prática que na gíria se chama o “pão com manteiga”, técnica que não perde valor, a prata obriga-o a martelar e moldar sobre um cepo: acerta de um lado, foge do outro. Mas “venci o desafio”, diz. As treze peças foram entregues e posteriormente expostas no Centro Comercial Colombo.
Afinal, o que é preciso para se ser um bom maquetista naval? “Para já, tem de se gostar daquilo que se faz. Tem de saber minimamente ler desenho naval e depois é cumprir à regra tudo aquilo que vem nos desenhos”. Dito assim parece simples, ao contrário de quando se olha para uma peça ainda em construção. Outra coisa de que Lenine Rodrigues sente necessidade é de se informar sobre a história do barco que está a construir. Autodidacta, os conhecimentos de carpintaria e de torneiro mecânico foram-lhe sempre úteis. “Para se poder ser torneiro mecânico temos de saber ler desenho, embora seja desenho mecânico. Quando se sabe é fácil compreender o desenho naval”, diz rematando: “e depois fui-me informando”.
Pintura, escultura, modelos em prata ou madeira, ourivesaria, gravação em básculas de espingardas, a tudo ele se dedica, desde que possa dar azo à sua imaginação e à sua habilidade manual.
Modesto, o facto de ter peças espalhadas por vários locais públicos e colecções particulares, entre as quais se contam a do rei Juan Carlos de Espanha, em nada lhe mudou a maneira de ser. “Não posso dizer que não sinto orgulho, mas continuo a ser a mesma pessoa que era quando me iniciei”.

Vega Mar & Aventuras #29 - Outubro/Novembro 2007

Agosto 30, 2007

Desporto para todos



Esgrima, basquetebol ou ténis em cadeira de rodas, são modalidades que permitem a um deficiente motor praticar desporto como qualquer outra pessoa. O problema está na ainda pouca visibilidade de que usufruem. Quem as experimenta diz que tudo têm de positivo.

Para o Mestre Eugénio Roque, a História da esgrima confunde-se com a do ser humano: “a primeira vez que o homem pegou num osso ou num pau, para se defender ou para caçar, começou a esgrimir”. Sonhador e combativo, Eugénio Roque trouxe a esgrima artística para Portugal. Entre outros projectos, ainda no segredo dos deuses, faltava-lhe lançar a esgrima em cadeira de rodas no nosso país.
Já há muitos anos, quando Eugénio Roque era director da Federação Portuguesa de Esgrima (FPE), “tinha havido o desejo de criar a esgrima em cadeira de rodas. Acabou por não ser possível”. Porém, não desistiu: “um dia, consegui os apoios da Câmara Municipal de Cascais para comprar o equipamento necessário para fazer um curso de formação de monitores. Aí, fui ter outra vez com a FPE e com a Federação Portuguesa de Desporto para Deficientes (FPDD) e disse: meus senhores, tenho estes meios e vamos fazer isto”. Em 2005 foi então possível reunir esforços e fazer o primeiro curso para treinadores e classificadores de esgrima em cadeira de rodas. Como resultado deste curso, neste momento Portugal tem 24 técnicos aptos a preparar esgrimistas em cadeiras de rodas, apesar de, por falta de atletas, ainda só ser praticado no Estoril, Quarteira e Amadora. Vila Nova de Gaia e Madeira serão provavelmente os próximos locais onde a esgrima em cadeira de rodas poderá vir a ser uma realidade.
“Uma coisa que eu lamento é haver poucos participantes”, queixa-se Henrique Ventura, de 46 anos, ex-campeão de motocross, hoje praticante de esgrima. Um acidente de viação deixou-o numa cadeira de rodas há 13 anos. “Se fôssemos mais, a competição seria maior”. Apesar disso, Henrique afirma: ”quando estamos a praticar esgrima, é como se estivéssemos normais. Naquela altura damos o nosso melhor. Não pensamos que estamos numa cadeira de rodas, que estamos limitados”.
Eugénio Roque confirma: “a esgrima é um desporto fabuloso para o atleta em cadeira de rodas. Está sentado numa cadeira igual, está à mesma distância e está a fazer os mesmos gestos que o outro. Depois é uma questão de perícia, de inteligência, de capacidade. Isso depende deles. Mas é extremamente interessante, porque eles não ficam nada diminuídos por não terem pernas. São iguais a qualquer outro ou melhores”.
Para Eugénio Roque, o mais importante é “ver como um atleta com deficiências motoras consegue superar-se a si próprio, ampliar os seus movimentos. Conseguem ganhar confiança. Porque afinal o braço ou a mão deles, apesar dos defeitos que todos têm, vai ganhando precisão de movimentos. Ver como eles se sentem evoluir e como sentem que afinal não são tão limitados, é muito gratificante”.
Josimario Varela corrobora desta afirmação de Eugénio Roque. Pratica esgrima há um ano e diz que “adquiri outra maneira de pensar em termos das minhas próprias capacidades. Muitas vezes até sinto que sou capaz de fazer melhor do que os outros, mesmo que eles não tenham problemas”. Josimário tem 18 anos e uma paralisia cerebral afecta-lhe o seu lado esquerdo. Não é por isso, porém, que deixa de treinar duas vezes por semana com Adelino Batista, de 22 anos, a quem um cancro numa perna aos 6 anos reduziu a mobilidade.
Por tudo isto, o entusiasmo de Eugénio Roque não esmorece. Segundo o mestre, quase todo o tipo de deficiências permitem que se pratique esgrima: “Até há esgrima deitado. Existe esgrima acamado. Imagina o que é uma pessoa deitada numa cama, acamada, fazer esgrima? E isso existe. Está regulamentado. Ainda não consegui esgrima para cegos, gostava de ter conseguido este ano, mas para o ano, se eu cá estiver e se as coisas puderem continuar, gostava de pôr os cegos também a fazer esgrima”.
Até lá, temos pelo menos um esgrimista cujo sonho é “ir aos paraolímpicos. E, para isso, tenho de participar em 4 ou 5 provas”. Hélder Farroba tem 35 anos e é algarvio. Há 20 anos viu-se amputado das duas pernas na sequência de um acidente de comboio: “tinha 15 anos. Ao princípio custou muito. Depois com o tempo a pessoa esquece. Passou e caminha-se para a frente”. Caminhou até ao ponto de há cerca de três anos praticar desporto para deficientes. Pratica basquetebol e esgrima, em Quarteira. Na esgrima, já foi “ao campeonato do Mundo em Valência, Espanha, e agora convidaram-me para em Julho, se conseguir arranjar verbas, ir a Varsóvia, ao campeonato Europeu”.

Basquetebol, desporto de veteranos

Embora com muitos mais praticantes, também os jogadores para o basquetebol são difíceis de atrair. Quem o afirma é Jorge Almeida, de 45 anos, a quem uma poliomielite aos 17 meses deixou sequelas irreversíveis. No seu dia-a-dia, como chefe de segurança no Hospital de Santa Maria, Jorge Almeida desloca-se com o auxílio de canadianas e em cada turno faz duas voltas completas ao hospital. Actividade não lhe falta, mas a sua paixão pelo desporto levou-o desde muito novo a praticar natação, ténis e basquetebol. Com o tempo, e pela dificuldade de conjugação das três modalidades, optou pela última, tornando-se também treinador da equipa da Associação Portuguesa de Deficientes (APD) de Lisboa.
Homem determinado, o exemplo de um quadriamputado a jogar basquetebol ficou-lhe para sempre na memória e dá-o frequentemente aos seus jogadores: “não há limites para nada, desde que nós queiramos, desde que trabalhemos para esse fim, conseguimos atingi-lo”, afirma. “Não é o facto de termos qualquer tipo de deficiência, que nos faz ser diferentes. Somos pessoas que, se nos criarem as condições ideais, e nós temos de lutar por elas, atingimos tudo como outra pessoa qualquer. Daí eu achar que a deficiência não nos pode proibir nem prejudicar em nada”. Esta forma de pensar adquiriu-a desde muito novo. Diz ter tido o privilégio de nascer num bairro com fracos recursos económicos e nunca ter sido posto de parte pelos seus colegas: “enquanto eles jogavam à bola com os pés, eu jogava com as mãos. E era das primeiras pessoas a ser escolhidas para as equipas deles. Isso fez de mim uma pessoa diferente e extremamente positiva como acho que sou hoje”.
Quanto ao basquetebol, vive-o com intensidade e lamenta não conseguir atrair mais atletas para a sua prática. Delegações da APD que tenham equipas de basquetebol são cinco: Lisboa, Sintra, Braga, Leiria e Porto. “Apesar de termos outras que pretendiam formar equipa. Temos uma na Amadora que anda há uns anos a tentar. Tem material mas não consegue arranjar gente suficiente para fazer a equipa”, avança Jorge Almeida. Nem o programa “Bicas na Escola”, que tem como intenção divulgar a modalidade e obter gente para a sua prática se tem mostrado eficaz. “Eu acho que existem milhares de deficientes a estudar. Possivelmente nós ainda não conseguimos encontrar as escolas certas”, afirma Jorge perante a dificuldade de explicar os motivos do insucesso. “Por este andar, se não conseguirmos trazer gente para a prática, isto tem tendência para acabar”.
Data de 1946 o primeiro registo de basquetebol em cadeira de rodas quando, após a II Guerra Mundial surgiu um grande número de deficientes motores e nos hospitais dos Paralyzed Veterans of América (Veteranos Paralisados da América) se começaram a desenvolver actividades desportivas. “Um médico, achou que tinha de encontrar uma forma de entreter os deficientes de guerra”, conta Jorge Almeida. O basquetebol foi uma das formas de entretenimento encontradas até ao ponto “de hoje haverem Jogos Olímpicos, Campeonato do Mundo, Campeonato da Europa, Taça dos Campeões. Todas as provas que existem dos ditos normais, existem para as pessoas com deficiência”, diz. Para Portugal foram os Deficientes das Forças Armadas que trouxeram a modalidade, fazendo torneios para a sua divulgação.
Actualmente existem no nosso país 10 equipas de basquetebol. “Infelizmente não podemos participar regularmente nas provas europeias devido a falta de apoios, mas em Portugal fazemos campeonatos regulares”, afirma o treinador da equipa de Lisboa. Contudo, também a falta de meios obrigou a “dividir o campeonato em parte norte e parte sul”.
A diferença em relação ao panorama europeu é grande. “Eles têm excelentes condições que nós não temos. Logo aqui ao lado, em Espanha, têm uma liga onde os jogadores são profissionais”, afirma ainda Jorge Almeida que continua: “a nível de selecção é muito difícil obter resultados porque não temos condições. Faltam-nos pavilhões para termos diariamente treinos. Nós temos aqui 2 treinos e a muito custo, porque o estádio não nos cobra. Mas há equipas que sabemos que têm de pagar o aluguer do treino”. Também não existem meios para frequentar os ginásios para musculação, o que faz com que exista “grande diferença na massa muscular nas equipas estrangeiras em relação às nacionais”. Tudo isso origina que seja muito difícil a selecção nacional chegar aos paraolímpicos.
Aparte todas estas questões, para Jorge Almeida, a simples prática da modalidade é positiva: “uma pessoa com canadianas ou de cadeira de rodas tem dificuldades, no seu dia-a-dia, para se deslocar na cidade. Com a prática desportiva, ela adquire uma preparação física que lhe permite mais facilmente ultrapassar as barreiras arquitectónicas”, continua o atleta, concluindo: “dá-nos uma grande mobilidade, cria-nos uma auto-estima excelente, acreditamos muito mais nas nossas potencialidades e, de facto, passamos a ser pessoas diferentes”.

Ténis, uma modalidade à procura de adeptos

Pouco falta para as 16:00 quando a carrinha do Centro de Medicina e Reabilitação Física de Alcoitão chega ao Clube de Ténis do Estoril (CTE). Entre as duas instituições foi firmado um protocolo que visa permitir aos pacientes do centro hospitalar a prática de ténis em cadeira de rodas. O Clube oferece, além dos campos, as cadeiras de rodas e um professor para dar as aulas.
Modalidade praticada há décadas no estrangeiro, é ainda pouco conhecida em Portugal. Trazida para o nosso país há cerca de 10 anos por um holandês, Fred Marx, entretanto regressado à Holanda, o ténis em cadeira de rodas tem-se vindo a desenvolver muito lentamente e Portugal conta neste momento com apenas 9 atletas de competição.
É Filipe Marques, de 34 anos, quem sai da carrinha. Amante de motos e de velocidades, um acidente de viação deixou-o paraplégico há 13 anos: “foi muito difícil no início, depois a pessoa habitua-se”, diz, a propósito das suas circunstâncias. Filipe Marques iniciou-se no ténis há pouco mais de um mês quando, regressado a Alcoitão para a vigilância de rotina, lhe foi proposto praticar a modalidade. “Aceitei vir experimentar, e estou a gostar”, afirma.
Pedro Silva é o professor responsável pelo ténis em cadeira de rodas no CTE e sente, pela quantidade de alunos que lhe passam pelas mãos, que a modalidade ainda não fideliza adeptos: “aquilo que me apercebo é que as pessoas estão em Alcoitão durante algum tempo a tentar fazer a recuperação. Umas ficam um bocadinho mais, outras menos, mas depois têm alta e vão-se embora”.
Desconhecimento da existência da modalidade, dificuldades de transporte e o facto de serem ainda muito poucas as escolas que proporcionam a prática do ténis em cadeira de rodas, não serão concerteza factores alheios a esta falta de adesão por parte de muitos dos deficientes. Além de S. Miguel, nos Açores, a modalidade ainda só pode ser praticada no Estoril, em Pombal, no Porto e em Setúbal, apesar de, como diz Joaquim Nunes, coordenador nacional do ténis em cadeira de rodas,” para o praticar não seja necessário mais do que os clubes de ténis disponibilizem um técnico e que tenham condições de acessibilidade a nível de barreiras arquitectónicas”. Filipe Marques, por exemplo, gostaria de continuar a praticar a modalidade mas tal implicaria um acordo com a empresa que o emprega, devido ao horário das aulas.
O que tem de positivo o ténis em cadeira de rodas? Para Filipe Marques, esta modalidade “faz bem aos braços, à cabeça, faz bem a tudo”. Pedro Silva complementa: “Aquilo que tenho sentido é que, para além de aprenderem algo mais, para este universo de pessoas é importante a prática de uma actividade física. Pelo facto de ser benéfico para a sua própria recuperação e também por uma questão mental, para não caírem numa rotina e fazerem algo de diferente”.
Apesar da existência em Portugal de grandes tenistas em cadeira de rodas como Paulo Espírito Santo, não está por enquanto nos horizontes de Pedro Silva vir a ter alunos desse calibre porque, “o universo que nós temos aqui são pessoas que nunca pegaram numa raquete e o nível é mesmo de iniciação”, apesar de surgir gente “com muito talento, que aprende com muita facilidade”.
Tabu #48 - 11 de Agosto de 2007

Julho 19, 2007

Estatuto: solidário


O nome lembra um batalhão de guerreiros e faz justiça ao seu trabalho. Vivem essencialmente da determinação dos voluntários, operacionais e dadores que, em conjunto com os elementos da instituição, formam uma verdadeira Legião da Boa Vontade. Eles foram os primeiros a fazer trabalho de rua, directamente com os sem-abrigo

Segunda-feira, 20:30. Os termómetros marcam 6º e a humidade é da que se entranha na roupa. Aquele sector da rua está sem electricidade. É à luz tímida de duas velas que o grupo de voluntários se atarefa a transpor a sopa, cozinhada pelo turno de dia, das enormes panelas para os recipientes térmicos. Os sacos com os lanches, como habitualmente, erguem-se em pilha sobre as arcas frigoríficas. Ao contrário do que é usual, e prevendo pouca colaboração dos céus, que ameaçam chuva, esta noite os iogurtes e a fruta serão distribuídos pelos sacos antes de a viagem começar. São os preparativos para mais uma noite de Ronda da Caridade na Legião da Boa Vontade (LBV).
A azáfama é grande e não é uma noite tipicamente invernosa que consegue diminuir o labor dos participantes que ultrapassam em pouco a meia dúzia. Este número corresponde a uma ínfima parte dos 220 voluntários que trabalham com a organização, apenas em Lisboa.
A Ronda é talvez, em Portugal, a face mais visível da actuação desta instituição. Através da acção deste programa são atendidas por noite, e apenas na capital, cerca de 180 das 1000 pessoas que vivem na rua, números dos censos elaborados pela Câmara Municipal de Lisboa (CML), em 2004. Três noites por semana, a equipa sai à rua. Na carga, levam alimentos para distribuir e uma poderosa ferramenta de trabalho: a capacidade de escutar quem lhes queira confiar os seus problemas, além da tentativa de resolução das situações mais prementes de exclusão social.
O itinerário está antecipadamente definido, embora exista uma notória ausência de coordenação entre as várias organizações que prestam serviços semelhantes. Esta falta de projecto comum origina habitualmente a sobreposição dos percursos efectuados pelas instituições. Além desta aparente impossibilidade de conjugação de esforços, a Câmara Municipal de Lisboa (CML) também parece não estar desperta para intuir que um maior planeamento, através dos seus serviços, distribuiria de forma mais equitativa as capacidades de cada instituição. Contudo, essas são questões institucionais que em nada perturbam a actuação dos voluntários que se predispõem a trabalhar com a LBV.
Não é fácil traçar o retrato-tipo dos voluntários. Em cada Ronda, composta habitualmente por sete elementos, convivem pessoas de todas as idades e profissões. Vanda tem 36 anos e é empregada de escritório. Uma noite por mês deixa os filhos entregues ao marido ou à mãe para participar na Ronda. Vive em Palmela e nessa noite pouco descansa mas os seus motivos quase podem ser considerados terapêuticos: ”isto é como um recarregar de baterias para o nosso dia-a-dia. Faz-nos ver que muitas das coisas que consideramos problemas não são nada quando comparados com dificuldades efectivas que encontramos”. Ana Maria, 57 anos e reformada da banca, concorda: “lidar com certas questões faz-nos reequacionar as nossas próprias aspirações. Muitas vezes aborrecemo-nos porque não conseguimos ter a casa que desejamos, o carro que gostaríamos. Ao depararmo-nos com pessoas que não têm nada e não fazem disso um drama temos um exemplo de dignidade.”
Já Pedro tem 31 anos e é funcionário na área das telecomunicações. “Foi através da minha empresa que tomei contacto com o voluntariado”, conta. “As empresas têm acordos com instituições de solidariedade social e, se quisermos experimentar o trabalho de voluntários, um dia por ano, esse dia não nos é descontado no ordenado”. Pedro experimentou e fez-se voluntário efectivo acabando por transmitir o seu entusiasmo à mulher e a alguns dos amigos. A sua motivação é, também ela, muito simples: “é uma forma eficaz de ajudar quem realmente necessita e ainda de me sentir útil”.

Uma ronda por Lisboa

Vinte e uma e trinta, o grito corta o sossego da Rua Mouzinho da Silveira, em Lisboa: “carrinha!” Da sombra dos edifícios nascem vultos humanos. No meio da estrada, algumas pessoas tentam orientar a manobra da carrinha, facilitar a inversão de marcha, estar nos primeiros lugares da fila, quando o veículo estacionar. Carlos (nome fictício), mais antigo nestas lides, com um sorriso e um “boa noite” rasgados, abre cortesmente as portas aos voluntários. Espreita, para reconhecimento dos elementos da equipa que já vão ocupando lugar na retaguarda,
Luís (nome fictício) tem pouco mais de 20 anos. É educado e parece indiferente a todos os que o rodeiam. Da sua boca as palavras saem secas, com um ligeiro travo a ironia. Em voz baixa, conta que após a refeição voltará para casa, “se é que àquilo se pode chamar casa”, o olhar directo, como que a auscultar a reacção. Baixa a cabeça e continua a comer. Aparentemente, criou uma defesa em relação à sociedade que passa pelo silêncio. Perto dele está Maria (nome fictício), também ela mulher de poucas palavras e nenhumas fotografias: “tenho família, e não quero que eles saibam que ando aqui”. Maria trabalha mas o ordenado não lhe permite fazer face a todas as despesas mensais e os alimentos ou roupas obtidos junto das instituições de solidariedade social constituem uma preciosa ajuda ao seu orçamento. Como ela, muitos outros têm vergonha de se verem reconhecidos por familiares, antigos vizinhos ou colegas. A ideia que têm de dignidade não passa por esperarem pelo fim do dia para mitigar a fome com um prato de sopa ou um lanche oferecidos por uma instituição.
Com o intuito de ajudar a ultrapassar as dificuldades emergentes deste tipo de situações, da equipa da LBV fazem parte dois psicólogos e uma assistente social. Contudo, “trabalhar com uma população com este nível de carências não se torna simples.” É Miguel Arede, um dos psicólogos, quem o afirma, continuando: “a maior parte dos problemas que nos surgem têm a ver com situações de privação material que nós não conseguimos resolver no imediato”. Apesar deste grupo de trabalho procurar incessantemente a melhor forma de interagir com os sem-abrigo: “como psicólogos, a abordagem feita no âmbito da Ronda pode ser benéfica porque passamos a ser olhados com maior confiança, mas a nossa actuação não consegue ser terapêutica e torna-se muito pouco interventiva”. Além do mais, “sendo as principais necessidades destas pessoas materiais e urgentes, dificilmente conseguimos que reconheçam os seus problemas psíquicos, se desloquem às nossas instalações para falar deles e, consequentemente, tentemos ajudá-los a sair da situação de debilidade em que se encontram.” A isto acresce ainda o facto de ser “uma população bastante oscilante, a quem se torna difícil acompanhar e auxiliar”.
A oscilação a que se refere Miguel Arede é sentida quando, noite após noite, mudam as caras ou os locais dos que recorrem aos serviços prestados pela equipa de rua da LBV. Se há muitos que se tornam familiares às equipas, de quem já sabem o nome e com quem conseguem continuar a conversa mantida da última vez, outros mudam de local ou desaparecem por longos períodos.
Há contudo lugares onde a população se mantém praticamente inalterável, habitualmente locais onde a presença das caixas de cartão, transformadas em colchões, denotam algum sedentarismo. A estas pessoas mistura-se também muita gente que, apesar de ter habitação, espera pela carrinha para ir buscar os alimentos. Não são raros os casos em que cinco e seis sopas são servidas à mesma pessoa que as consome com a ansiedade de quem, notoriamente, está a comer a primeira refeição do dia. Se em muitas destes indivíduos é evidente a dependência do álcool e de estupefacientes, a eles junta-se gente com reduzidos recursos de sobrevivência: idosos com parcas reformas e desempregados, imigrantes ou nacionais, desmotivados com as dificuldades com que se deparam. Essencialmente quem está em situação de desemprego involuntário, procura em cada equipa alguém com quem falar das suas contrariedades e a quem transmitir os seus pequenos sucessos.
Nely Oliveira é uma das responsáveis pela sucursal da instituição em Lisboa. Brasileira, está em Portugal há cerca de 10 anos, altura em que foi convidada para desenvolver no nosso país um trabalho similar ao já incrementado no Brasil. Para ela é também nesta partilha de experiências que reside uma das mais valias da LBV: “a nossa intenção não é apenas distribuir comida mas também um pouco de ânimo para enfrentar as dificuldades diárias. É importante o trabalho que os voluntários fazem nesse sentido”. Essa importância fica patente quando algum dos utentes da Ronda oferece um ramo de flores ou bombons para um ou todos os elementos da equipa: “estes pequenos gestos são animadores. Afinal são pessoas que, apesar das suas dificuldades, procuram uma forma de nos demonstrar afecto”, diz Manuela, uma das voluntárias, que remata: “e isto acontece algumas vezes”.

Outras valências, os mesmos princípios

Além do programa especificamente dedicado aos sem-abrigo, a LBV desenvolve em Portugal outros projectos, sempre orientados para pessoas carenciadas. Entre eles encontra-se o programa Sorriso Feliz que, em Lisboa, se desenvolve num autocarro doado pela Carris e posteriormente transformado em ludoteca com o apoio de empresas e dadores particulares. Por Lisboa e arredores, este autocarro propõe-se a desenvolver um trabalho de chamada de atenção junto das escolas. Aí, entre actividades lúdicas, são transmitidos aos miúdos conhecimentos básicos sobre a constituição da sua boca, a estrutura dos dentes e os cuidados a ter com eles. Pequenos kits infantis de limpeza são distribuídos pelas crianças, ao mesmo tempo que lhes é feito um exame oral, cujo diagnóstico é registado e enviado aos pais com o intuito serem tratados pequenos problemas que eventualmente existam. Através desta valência, a LBV procura chamar a atenção para a importância da higiene oral na sanidade global do corpo, assim como prevenir situações que, já na idade adulta, possam vir a degenerar em dificuldades de integração social e essencialmente no mercado de trabalho por questões que se prendam com a aparência geral da pessoa.
Vocacionado para agregados familiares com sérias dificuldades de integração e de sobrevivência, a instituição tem vindo a desenvolver um outro programa denominado Um Passo em Frente. Como explica Nely, através desta valência, e “mediante inscrição de famílias ou de pessoas que habitam sozinhas, são diagnosticados os principais problemas existentes e procurada a forma de ajudar o agregado a ultrapassá-los, a dar «Um Passo em Frente»”. Nestes casos, além dos apoios institucional e psicológico, são também facultados alguns meios materiais de sobrevivência. Mensalmente são distribuídos cabazes com bens alimentares básicos e, quando necessárias, roupas que são entregues às famílias referenciadas.
Dulmira C. é uma das pessoas registadas neste programa. Com 81 anos, vive sozinha numa habitação cujas condições estão muito longe das ideais. Quando a equipa da LBV a visita, a comida que tem em casa resume-se a alguns ovos, açúcar, azeite e pouco mais: “é aqui que faço o meu comer”, diz, apontando uma resistência em cima de um grelhador, sobre a mesa de uma salinha. Logo de seguida pergunta com orgulho “já viu a minha cozinha?”: o frigorífico desligado, aberto e vazio, os recipientes que deveriam conter comida dispostos como bibelots, o fogão, sem fornecimento de gás, fechado e coberto por um naperon. Nely chama a atenção para o facto de não existir sequer uma banheira ou um duche: “isto não são condições para um ser humano viver”, diz em voz baixa enquanto dispõe a fruta na fruteira.
Tão graves como a situação daqueles que não têm um tecto são as condições de carência escondidas atrás de uma porta e, afirma Nely, “há muitos casos semelhantes”. Com o intuito de abranger as situações mais diversas possíveis, e ombreando com todas as outras valências, a LBV tem também uma creche para acolhimento dos mais pequenos que aí recebem cuidados e alimentação durante o período de trabalho dos pais, além de desenvolver um programa similar adaptado à terceira idade cuja finalidade, é fazer com que estas pessoas “se sintam menos sozinhas e, em simultâneo, úteis”, explica ainda Nely Oliveira.
Combate à exclusão social, à carência material e à solidão, talvez se possa assim definir a acção da Legião da Boa Vontade. Os meios que dispõem para esta luta dependem quase exclusivamente da sociedade civil e é essencialmente com ela que contam. Sejam bens perecíveis ou não - roupas, cobertores, brinquedos, electrodomésticos ou outras utilidades domésticas - a instituição aceita tudo o que lhes queiram dar porque há sempre alguém que necessita daquilo que os outros não precisam.


Um pouco de história

Entidade ecuménica, fundada há 56 anos no Brasil por Alziro Zarur, a LBV chega a Portugal através da influência do jornalista Penalva Rocha que, conhecedor do trabalho da instituição no outro lado do Atlântico, entendeu ser possível e útil desenvolver um serviço similar no nosso país. Em 1989 o convite efectuado para abertura de um centro de atendimento em Portugal é aceite pela LBV. Dezassete anos depois a sua acção no nosso país estende-se a três cidades: Lisboa, Porto e Coimbra.
Pioneira em Portugal no trabalho directo com os sem-abrigo, a experiência adquirida no Brasil e países limítrofes permitiu que a LBV se movimentasse de uma forma ágil e segura em território nacional. Através de contactos estabelecidos com empresas e particulares obtêm as doações, em numerário e géneros, que lhes permitem o desenvolvimento das suas várias valências. Porém, o carácter esporádico de muitas destas colaborações obriga a um trabalho de procura exaustiva para colmatar falhas e assegurar o funcionamento eficaz dos programas. Só em termos de alimentos doados, referimo-nos a 112.000 quilos anuais movimentados pela instituição e distribuídos por apenas três das suas valências (Um Passo em Frente, Semente da Boa Vontade e Ronda da Caridade), segundo os números de 2004. A quantidade de atendimentos efectuados, também anual, situa-se na ordem das 151.000 pessoas e famílias, todas elas carenciadas, um dos pressupostos para a actuação da LBV que pretende com o seu trabalho melhorar a qualidade de vida de todos aqueles que se encontram em situação de privação social extrema
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Magazine Grande Informação #18 - Julho/Agosto 2007

Maio 20, 2007

Choque tecnológico à portuguesa


Bell, Marconi, Diesel ou Edison, são nomes que nos trazem à ideia produtos de uso comum, inventos que simplificaram e melhoraram a nossa vida. Porém, a individualidade, que distinguiu a invenção até ao início do século XX, deu lugar a outros princípios.

Nos tempos modernos, a criatividade é caracterizada pela multidisciplinaridade, passou a desenvolver-se em empresas, universidades e pólos tecnológicos. Cada invento é essencialmente anónimo, resultante não do trabalho de uma pessoa mas de uma comunidade.
Terá o inventor independente perdido lugar na sociedade? Camilo Rodrigues, presidente da Associação Portuguesa de Criatividade (APC), acredita “continuar a haver espaço para os inventores independentes”. E isto, “como resolução das situações práticas do dia-a-dia, mas também para soluções tecnológicas mais avançadas”. Para o responsável pela APC, a independência do inventor facilita que este explore o caminho menos provável, aquele que vai contra as leis aceites e estabelecidas. E talvez seja aqui que começam os problemas dos criadores independentes em Portugal. É o caso de Jesuvino Moleirinho, reformado da Lisnave, neste momento a braços com a tentativa de encontrar quem ceda em lhe fazer os testes à sua novíssima turbina eólica. As pás desta turbina, colocadas na horizontal, aparentam produzir o quádruplo da energia fornecida pelos geradores tradicionais. Do INETI, organismo onde se dirigiu e por nós contactado, a resposta veio clara, de quem preferiu manter o anonimato: “até podemos dar um parecer positivo, mas dificilmente o senhor Moleirinho conseguirá ir contra as ideias instituídas”.
Dias antes, já Camilo Rodrigues, previra atitude semelhante ao afirmar a propósito: “quando uma coisa destas cai num instituto ou numa universidade, o inventor é olhado como o palerma que põe a hélice na horizontal quando todos os fabricantes estão a fazer doutra maneira.” Contudo, “está ali a pequena centelha que o inventor que o inventor independente ainda pode dar. Pode ser essa pequena mudança a originar que uma coisa daquelas se torne ainda muito mais rentável do que já é”.
A hipótese deste parecer traz-nos uma questão mais abrangente que não se prende apenas com Portugal, antes sendo uma característica comum ao Velho Mundo. “A Europa está velha e gorda”, diz Camilo Rodrigues. Na sua opinião, que parece reunir o consenso dos inventores, “ao nível da inovação, há uma dinâmica muito mais intensa nos chamados novos países”. Partindo do exemplo dos Estados Unidos, onde as próprias entidades oficiais analisam periodicamente o registo de patentes sugerindo parcerias aos inventores independentes, a diferença em relação ao peso da burocracia, nomeadamente em Portugal, é notória. Além disso, do outro lado do oceano aposta-se muito mais em coisas práticas e rentáveis, mesmo que tecnologicamente menos evoluídas. Reportando-nos à indústria aeronáutica, exemplo disso é a criação do Concorde, maravilha tecnológica, por parte da Europa, em relação ao Boieng, menos evoluído, incapaz de ultrapassar duas vezes a velocidade do som, mas que veio incrementar as viagens transatlânticas através da democratização dos preços. Se é facto que o projecto europeu Airbus está agora a singrar, para Camilo Rodrigues, “a Europa acordou passados muitos anos e muitos milhões de dólares”.

Um muro feito de burocracia

Ultrapassar a barreira da burocracia e dos preconceitos à novidade nem sempre parece fácil num país cujo governo assumiu o choque tecnológico como estandarte, mas onde a comunidade científica continua a olhar de esguelha as ideias nascidas fora do seu círculo e os empresários dão preferência ao investimento seguro. O resultado, são invenções apenas patenteadas em Portugal que, decorrido o período de direito de prioridade, podem ser livremente utilizadas por empresas estrangeiras. Nos raros casos de sucesso, ele é obtido à custa de empenhamento solitário e riscos económicos pessoais. Os prémios e as medalhas até são conseguidos; tornar os inventos artigos de uso comum é que parece mais complicado. Não por falta de interesse do público mas pela ausência de investidores.
Jesuvino Moleirinho, também o sabe por experiência própria. Das ideias deste homem nasceu o “sapato ventilado”, que apresentou no Salão de Inventos de Genebra. De lá trouxe uma medalha e uma lista de 35 empresas, de vários pontos do mundo, interessadas em revender o sapato. Porém, nem essa lista motivou qualquer industrial português a ensaiar a produção do artigo, antes deixando às marcas estrangeiras a exploração e rentabilização da ideia que originou os hoje célebres ténis com caixa-de-ar. Desta invenção, Moleirinho lucrou apenas a certeza de que, em países com tradições de investimento, a sua ideia é comercialmente rentável. Além disso, e apesar de tal não produzir euros, pode sempre inscrever a patente no currículo, mesmo que muito poucos tenham conhecimento do facto.
Não é motivo de surpresa, esta usurpação legal de ideias. A Europa está unificada mas as patentes continuam a ser pedidas país a país e, habitualmente, qualquer invento apenas é objecto de registo no estado de residência do seu criador. Por si só, e durante 20 anos, sem autorização do inventor, a existência desse registo é impeditiva do fabrico do produto no território onde está patenteado, restando ao criador o período de um ano para proteger a sua ideia no resto do mundo. Porém, muitas vezes sem dinheiro e sem qualquer tipo de incentivos ou certezas quanto ao eventual interesse de empresas estrangeiras, o inventor independente raramente arrisca a gastar milhares de euros em patentes internacionais. Passado esse período, o invento passa então ao domínio público, podendo ser comercialmente explorado a nível mundial.
Edgar Castelo é inventor a tempo inteiro, “que é a mesma coisa que dizer que estou desempregado”, afirma. “Isto é um apartheid tecnológico. Quem é doutor, tem direito a falar de inovação, quem não é doutor, é mão-de-obra barata. Em Portugal, na Europa toda é assim”, queixa-se. “Eu, nesta Europa, já fui a Genebra, já ganhei uma medalha de ouro, duas medalhas de prata, várias medalhas de bronze. O que é que isso me deu?”
O primeiro invento de Edgar Castelo foi um compasso para desenhar elipses. Tinha dezoito anos. “Naquele tempo estava a estudar design, ainda estava no liceu”. Não terminou o curso e insistiu nas invenções mas, sem dinheiro nem apoios, manter a escolha tem-se mostrado complicado. Desenvolveu a ideia do “Triosk”, um triciclo quiosque destinado a deficientes motores. Em Genebra “ apareceu uma senhora que era esposa de um paraplégico e gostava muito de comprar uma coisa daquelas para ver se o marido fazia qualquer coisa com a vida - porque aquilo trata do emprego para pessoas deficientes motoras. Tive de lhe escrever uma carta a dizer que nós somos portugueses, portanto não fabricamos nada. Aquela invenção recebeu uma medalha de ouro em 2002 e o que é a Europa fez por essa invenção?”
Também o “BusStoper” foi premiado a prata no salão de Genebra. Invento destinado a deficientes visuais, “trata-se de um painel com números que se mostra aos autocarros, para os cegos possam mandar parar o transporte que querem”. Contudo, e apesar da simplicidade da ideia, o invento não mereceu melhor sorte que o “Triosk”. “Houve um senhor que disse: olhe, isto vai dar à pessoa o estigma de ser cego”, conta Edgar com um encolher de ombros de quem já se habituou a bater a portas que se fecham constantemente.

Fazer-se empresário é solução

Há porém quem aposte na produção própria dos seus inventos para conseguir fazê-los chegar ao circuito comercial. Fernando Braamcamp, presidente da Junta de Freguesia do Alto Pina, com a sua “cadeira de banho”, pensada para deficientes, é um deles.
“A ideia surgiu de pensar como é que os deficientes entravam para a banheira. Perguntei a um, que tomava banho assim com uma coisa tipo malabarista”. Ao investigar o que oferecia o mercado a nível mundial, depressa concluiu que relação qualidade/preço era muito desnivelada. Começou então a pensar numa cadeira que proporcionasse às pessoas um modo de fazer a sua higiene pessoal de forma mais autónoma, “porque muitas pessoas precisam de ajuda não para se lavarem mas para transpor a banheira”. Surgiu a “cadeira de banho”. Explica: “as pessoas dizem: mas isso é o ovo de Colombo. E é verdade. Não inventei nada, só juntei duas funções nesta cadeira: o movimento rotativo, que normalmente todas têm, com o movimento de translação, para vir fora da banheira”.
Ajuda, para testes ou comercialização desta ajuda técnica, nunca os conseguiu. “O que nós precisamos é de um apoio, não apenas a nível monetário mas a nível institucional, de testes, um técnico que nos diga, olhe, ponha lá esta rodinha. Demorei muito, até chegar à roda com a resistência e desempenho necessários, porque eu fiz testes, fiz uma análise de risco à cadeira, tudo foi testado à exaustão. Todas estas situações, o estado também não garante, porque depois é uma universidade daqui que investiga dali, não há canais privilegiados para isso. Nem na parte dos tecidos monetários, nem na parte dos apoios técnicos”. Optou então por ser ele mesmo a testar o seu produto com o apoio do Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão, pedir a certificação do Instituto Nacional da Farmácia e do Medicamento (INFARMED). Munido destas duas certificações, passou a fazer a apresentação da cadeira porta-a-porta, tornando-se o vendedor do seu próprio artigo, sobretudo em lares de terceira idade. Porque não vender a patente? “Tive aqui também uma preocupação social de tentar que o produto chegasse a um preço justo a quem dele necessita, o que de outra forma seria difícil”, diz.

Energias alternativas

Também Virgílio Preto, engenheiro civil, pensa conseguir ver tornar-se realidade o seu projecto que pretende rentabilizar a energia das ondas. “A ideia nasceu espontaneamente. Foi a observação, conhecimentos internos, depois, tudo conjugado, formou um conceito”.
Para o conseguir, Virgílio Preto criou uma empresa, a Enerwave, à qual se juntam capitais de outros investidores, e tem vindo a estabelecer protocolos com a Universidade do Minho e a Universidade de Aveiro no sentido de criarem “uma unidade, em pequena escala, mas em condições reais e naturais” capaz de aferir da rentabilidade do invento. Será dos poucos casos em que se verifica uma verdadeira cooperação entre um inventor independente e outros parceiros tecnológicos, contudo, “o processo tem sido bastante complicado porque quer a comunidade científica quer a vocação dos apoios, neste momento, estão canalizados fundamentalmente através das universidades das empresas tecnológicas. As coisas estão perfeitamente definidas e é extremamente difícil um inventor independente ultrapassar todas essas barreiras”. Para Virgílio Preto, “Existem mecanismos e formas de apoio reais, o estado português e a comunidade investiram muito dinheiro a criar os organismos mas o investimento não foi feito em formação e devidamente explicado a essas entidades o que é que o país esperava delas. Porque todas estas entidades só têm razão de ser se o benefício para o país for francamente positivo”. E, na opinião do inventor, não é isso que se passa e “os projectos acabam por entrar e morrer porque os organismos em si, em vez de serem uma entidade incentivadora, cortam muitos do projectos à nascença”.
Persistente, Virgílio Preto tem este projecto já patenteado a nível internacional, acreditando que o seu será um dos que conseguirá vingar entre os 5 existentes a nível mundial.
Ao mesmo tempo tem vindo a progredir num outro invento ligado à energia eólica: “Neste momento os sistemas eólicos são baseados para grandes produções e este sistema deixa de ser uma central para produção geral para passar a produzir para sistemas individuais. Pode adaptar-se aos condomínios, aos prédios, às moradias, digamos que é uma democratização da produção de energia”.
Das suas ideias que não consegui concretizar, o inventor diz nunca ter sentido especiais frustrações sempre que se apercebeu que elas eram posteriormente aproveitadas e até rentabilizadas. “Fiquei satisfeito. No fim de contas, eu não tive as condições ou as capacidades para desenvolver as coisas mas verificou-se que eram boas ideias e que tinham viabilidade comercial e real”.

O melhor ecrã do mundo

Joaquim Candeias é arquitecto de formação e desde sempre se sentiu atraído pela imagem. Ver filmes em sua casa com a qualidade que conseguia no cinema foi o seu objectivo quando começou a trabalhar naquele que hoje é considerado o melhor ecrã a nível mundial, o Lusoscreen. São 26 vezes mais luz que o comum dos ecrãs e o dobro do seu mais directo seguidor, um americano. No que toca ao contraste, mais uma vez o Lusoscreen bate, agora por K.O., o adversário americano. São 359 vezes mais de contraste, do português, contra as 13,2 vezes para o produto dos Estado Unidos. “A maior vantagem deste ecrã é poder estar numa sala sem fechar as luzes, sem fechar as janelas, e conseguir ter uma imagem como se estivesse às escuras”, explica Joaquim Candeias. O próprio vice presidente da Sanyo japonesa deslocou-se a Portugal na tentativa de adquirir os direitos de produção do ecrã, mas as condições propostas não agradaram ao seu criador que decidiu tornar-se empresário investir na produção por conta própria.
Do seu percurso como inventor, o arquitecto diz ter começado “por conseguir umas quantas coisas que depois vi surgirem lá fora. E, à semelhança de muitas outras pessoas em Portugal, apanhei dores de barriga, frustrações, senti-me mal, etc. Num dado momento desisti, de registar patentes, comecei a guardar segredo, até que um dia tivesse eventualmente condições para fazer. O ecrã foi um deles”.
Para Joaquim Candeias, os organismos oficiais em Portugal “não reagem” aos inventos nacionais. Em 1996, quando chegou da Cebit-Home, de Hannover, onde o ecrã foi considerado Grande Inovação, trouxe uma lista com “cerca de 150 empresas interessadas em revender o ecrã”. Sem qualquer tipo de incentivos que não a própria listagem que tinha em mãos, conseguiu entregar o primeiro ecrã que lhe tinha sido encomendado passados dois anos.
Tem aliás uma história com um empresário espanhol, interessado em revender os ecrãs, que havia perdido o prospecto onde figurava o contacto de Candeias. “Já tinha telefonado para o ICEP [Instituto das Empresas para os Mercados Externos], para o Ministério dos Negócios Estrangeiros, para ver se sabia quem é que produzia o ecrã e ninguém sabia”, conta Joaquim Candeias. “Disse-me: porque é que isto não faz ‘boom’? Um ecrã destes tinha a hipótese de criar imensos postos de trabalho, trazer divisas para o país. Em Espanha teria logo todo o tipo de apoios para fazer isto em grande escala e exportar”.
“Em Portugal não é bem assim que se passa”, afirma Joaquim Candeias que chegou a vender a sua própria casa para fazer face às dificuldades entretanto surgidas. De um pequeno armazém de azeitonas, onde iniciou a sua actividade, ocupa hoje um espaço na zona industrial de Palmela. “Tem-se conseguido”, afirma o agora empresário, “já não volta para trás”.


Notícias Magazine #782 20 Maio 2007

Abril 26, 2007

Costa de Caparica - "Terra mal amada"



A 7 de Dezembro de 2006 o estado é de alerta permanente. O cordão dunar a norte da Costa de Caparica corre o risco de rompimento. A segurança dos apoios de praia e do parque de campismo do INATEL fica comprometida. Uma intervenção de emergência evita o pior numa área que, por várias vezes, se tem visto fustigada pelo mar. O que provoca a erosão da Costa de Caparica?

“Terra mal amada”, é como António Neves, presidente da Junta de Freguesia, designa a Costa de Caparica. “As pessoas de Trás-os-Montes e da Beira Alta queixam-se da interioridade, eu queixo-me da proximidade. Se estivesse na Costa Alentejana ou a Costa de Caparica fosse no Algarve, se calhar tinha outro tratamento que não tem aqui”.
Apenas a 10 km do centro de Lisboa, as praias da Costa de Caparica contavam outrora com um extenso areal que, entre 1957 e 1963 recuaram 120 metros. A erosão da zona costeira é conhecida mas na Costa de Caparica ela tem sido acelerada. Afinal, o que aconteceu em Dezembro de 2006? “A questão que se coloca aqui já vem de há anos”, afirma o autarca. “Em determinada altura houve muito pouco cuidado na manutenção dos esporões, o que levou a que a sua eficácia fosse praticamente nula”.
Já em 2001 o mar atentou contra a integridade do cordão dunar destruindo vários apoios de praia, o que “coincidiu com o início dos estudos daquele troço de costa. Na altura estava-se a fazer o estudo prévio”, avança António Borges, técnico do Instituto da Água (INAG), desde Dezembro de 2006 a braços com o risco de rompimento do cordão dunar nas praias de S. João da Caparica. O estudo em questão, elaborado pela equipa do Professor Veloso Gomes, da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), tem a ver com a frente costeira urbana da Costa de Caparica, aconselhando a recuperação dos esporões e a reconstrução da defesa aderente, numa obra a executar em duas fases. Porém o projecto, que ficou concluído em Dezembro de 2001, “só apareceu no terreno em Dezembro de 2004”, esclarece António Neves e, mesmo assim, apenas a primeira etapa da intervenção foi efectuada. “Imediatamente a seguir devia ter-se processado a segunda parte da obra, que era o preenchimento artificial de areias dos espaços que foram intervencionados, ou seja, até ao INATEL”. Essa alimentação artificial deveria ter sido feita com 3 milhões de m3 de areias de origem off-shore e dessa operação, de acordo com o estudo prévio e projecto base da FEUP, as dunas da praia de S. João viriam também a beneficiar. António Neves continua: “não foi feito, não sei porquê. Dizem-me que não havia dinheiro. A única certeza absoluta que eu tenho é que era aconselhável que, após o acabamento dos trabalhos da primeira fase, se passasse quase no imediato à segunda fase e não se passou”.
Contudo, para António Neves “é óbvio que não é só disto que resulta a invasão do mar. Resulta também e muito, para não dizer que é o principal responsável, do desaparecimento da restinga de areia que ali existia, entre a Cova do Vapor e o Bugio, que desapareceu na década de 60. No princípio da década de 60 já estava a ser reposta e desapareceu na década de 90. Na parte final da década de 90 voltou a desaparecer”. A restinga a que António Neves se refere é a Golada, um banco de areia sedimentado ao longo de centenas de anos entre a Trafaria e o farol de Bugio. “Hoje ainda existem pessoas que, quando eram crianças, na maré baixa, iam a pé, da Cova do Vapor e da própria Trafaria, até ao Bugio”, afirma o engenheiro António Rodrigues.

A importância da Golada

A ruptura da Golada teve início nos anos 40 do século XX, quando daí começaram a ser retiradas areias cujo destino foi, conforme António Rodrigues, “fundamentalmente fazer os cais de Lisboa, segundo rezam os documentos que temos”. Consequentemente as areias, que outrora limitavam a sua circulação entre as praias da Caparica e a restinga, adquirem um ponto de passagem que lhes permite a migração para norte. A livre circulação das areias leva a que estas se instalem no canal de navegação do Porto de Lisboa, obrigando a drenagens periódicas, ao mesmo tempo que originam a erosão costeira na Costa de Caparica.
Em 1964 o mar invade a então vila e é feita a primeira intervenção com a construção de um dique de protecção marginal e de nove esporões. Essa obra e a reposição natural de areias na Golada terá sustido o impulso do mar durante cerca de 30 anos mas, ainda pelas palavras de António Rodrigues: “mais tarde há notícias das quais eu não tenho confirmação de que, até 1998, também foram retiradas dali [da Golada] areias para fazer os aterros da Expo”. Já em 2001 o cordão dunar fica em risco de rompimento: “há uma coincidência entre 1998 e 2001. Estes fenómenos não são imediatos”. Quando ocorre o perigo de ruptura do cordão dunar, “houve a destruição dos bares, os quais estavam muito mais avançados em relação à linha de costa do que estão neste momento”, continua o engenheiro do INAG. Em 2003, nova ruptura, desta vez na obra de defesa aderente e finalmente, em 2006, de novo o risco de fractura do cordão dunar que originou uma operação de emergência, que continua a ser efectuada na tentativa de travar o ímpeto do mar. De caminho, a esplanada de um dos bares, “O Búzio”, também foi destruída, não sendo de fácil compreensão o motivo pelo qual esse e outro apoio de praia, “O Pé Nu”, se encontravam posicionados em local de perigo eminente. António Borges é peremptório ao afirmar que “o plano de ordenamento da zona costeira define exactamente quais são as zonas em que os bares têm de ficar: os bares têm de ficar atrás das dunas”. Da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo (CCDRLVT), organismo que licencia as concessões de apoios de praia, a Vega não conseguiu obter qualquer resposta, antes tendo sido remetida para o INAG.

Soluções sem fim à vista

Segundo a Lusa, Francisco Andrade, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, ao falar numa conferência sobre erosão costeira e ordenamento do território organizada pelo Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente (GEOTA), defendeu que “deixar o mar galgar as dunas da Costa de Caparica e retirar as populações das zonas de risco poderá ser a solução para o problema da erosão”. Para Carlos Costa, Presidente do GEOTA, a solução adoptada pelo INAG “é um paliativo que se fundamenta na confiança cega na ‘engenharia pesada’ que domina o imaginário técnico nacional, que sossega as consciências de políticos de todos os quadrantes e que dá muito dinheiro às empresas de construção”. Opinião diversa tem o engenheiro do INAG que afirma “é bom é que as pessoas que defendem essa solução façam contas. Quanto é que custa relocalizar uma cidade? Quantos milhões de Euros é que toda aquela zona da Costa de Caparica gera? É uma questão de custo/benefício.” Para António Borges a solução adoptada é a mais viável: repor a duna, numa determinada fase com areias retiradas de cabeços (zonas com de relevo em relação ao resto do fundo marítimo) existentes na própria praia e, posteriormente, numa intervenção que se espera para Março de 2007 e até ao início da época balnear, cerca de 500 a 600 mil m3 de areia provenientes das dragagens do canal de navegação da APL.
Já para o Presidente da Junta de Freguesia, a solução passa por uma obra de engenharia pesada, nomeadamente com o fecho da Golada. Quando inquirido sobre o tipo de intervenção que está a ser feita nas praias de S. João, ele responde “a obra que se está a fazer é uma obra de emergência, seguida de outra obra de emergência, com mais outra obra de emergência e com mais outra obra de emergência”. Acerca de quando se tornará a obra definitiva responde: “não sei. O senhor ministro é que deve saber. Ele é que preconizou pôr-se ali areia e que aquela zona de costa não se deve transformar em costa de pedra mas sim em costa de areia. As palavras são dele, não são minhas.”
É que a colocação de pedra na zona está para já fora de questão uma vez que, segundo afirmações do ministro do ambiente, Nunes Correia, ”a filosofia do Ministério do Ambiente (MA) é só colocar pedra onde ela já exista”, pretendendo assim manter as praias de S. João da Caparica sob a designação de “praias selvagens”, o que é confirmado por António Rodrigues quando afirma que “uma das grandes preocupações do MA é preservar aqueles mil metros de praia sem ser a praia artificializada”.
Porém, esta ideia de manter as “praias selvagens” é contrariada pela existência de um Plano Estratégico do Porto de Lisboa, em cujo relatório de síntese do Diagnóstico Prospectivo e Formulação de Opções de Desenvolvimento se pode entender o intuito de intensificar a actividade do Terminal da Trafaria “onde se movimentam 1,2 milhões de ton/ano [de granéis agro-alimentares] e se podem movimentar 4 ou 5 vezes mais, abrindo perspectivas para uma maior penetração na Estremadura Espanhola, o transhipment e outras utilizações industriais destes produtos”. Chega mesmo a haver uma proposta alternativa “de localização dum novo terminal de contentores da Trafaria, o qual poderá vir a ter uma extensão de 1000 m”, continuando: “Dadas as condições que poderão ser aqui criadas na implantação de um novo terminal de contentores, admite-se que possa vir a desempenhar um papel significativo na atracção de novos tráfegos para o Porto de Lisboa, nomeadamente no segmento de transhipment e no cruzamento de linhas de navegação transoceânica”.
Até ao fecho de edição da Vega, ainda decorrem as marés vivas e é difícil prever onde se irá deter o mar nas praias do norte da Costa de Caparica.

Vega Mar & Aventuras #26 Abril/Maio 2007

Fevereiro 12, 2007

"Sorriso Feliz"


Um sorriso sem cáries pode fazer a diferença entre um posto de trabalho e o desemprego. Por isso o Sorriso Feliz vai até às crianças levando-lhes informação sobre higiene oral, até como forma de prevenir uma futura inserção social.

O silêncio só é quebrado pelas palavras do Doutor Dentolas que, na televisão, leva os miúdos numa viagem pela Terra. O inimigo chama-se placa bacteriana, uns monstrinhos verdes que procuram avidamente qualquer sítio para se esconderem dentro da boca de meninos europeus, africanos ou asiáticos. Informar é o primeiro passo dado pela equipa do Sorriso Feliz no sentido da sensibilização aos cuidados de higiene oral. A população alvo são as crianças que têm dificuldade de acesso a esclarecimentos sobre o assunto. O intuito é que cheguem a adultos com uma dentição sã e que esta não seja factor de exclusão social.
“É importante que as crianças sejam sensibilizadas desde muito cedo para os cuidados a terem com a sua boca”, afirma Eloísa Teixeira, psicóloga educacional que com Elsa Silva, higienista oral, constituem a equipa de trabalho da unidade móvel do Sorriso Feliz. Por esse motivo fazem intervenções e palestras desde berçários até ao fim do primeiro ciclo. “Na maior parte dos casos as pessoas não imaginam sequer que a higiene oral deve ser feita desde que a criança ainda não tem dentes”, continua Eloísa. “Passar-lhes com uma compressa nas gengivas após a ingestão da papa é mais do que suficiente para convencer qualquer mãe”.

O Sorriso Feliz é um dos programas da Legião da Boa Vontade (LBV). Fundada há 56 anos no Brasil, a LBV chega a Portugal em 1989 fazendo na altura um trabalho pioneiro no apoio directo de rua aos sem-abrigo através da Ronda da Caridade. Com os anos, outras valências foram sendo implementadas. Surgem programas como Um Passo em Frente, destinado a diagnosticar dificuldades sentidas por indivíduos em risco, apoiando-os no sentido de ultrapassarem os problemas; a Semente da Boa Vontade, que consiste no atendimento em regime de ATL (Actividades de Tempos Livres) a crianças e adolescentes mais desfavorecidas e, desde há cinco anos, o Sorriso Feliz que, em alturas de Natal ou Dia da Criança adquire características do programa Semente da Boa Vontade ao fazer festas e oferecer prendas à miudagem.

Um autocarro doado pela Carris, com a cooperação de empresas e particulares transformado em ludoteca e consultório dentário, serve de apoio a este programa e constitui o rosto mais visível do Sorriso Feliz. Três vezes por semana e até fazerem o rastreio dentário a todos os alunos, o autocarro estaciona junto de cada escola que pede a sua colaboração. Além do ensino de uma forma lúdica, “o que fazemos é observar a boca de cada criança, proteger-lhes os dentes em bom estado com selantes, dar-lhes flúor e informar os pais sobre o estado oral do filho”, explica Elsa. Nos casos em que haja necessidade de intervenção médica, ela é facultada de forma gratuita, conduzindo a criança para clínicas privadas com as quais a LBV tem acordos. Já no Centro Infantil São Gerardo, na Cova da Moura, a equipa da LBV intervém sob a forma de excepção. É Maria José Moreno, coordenadora do São Gerardo quem explica: ”a LBV começou por tratar dos dentes dos nossos meninos no autocarro”. Posteriormente, o acordo entre as duas instituições foi renovado e “concordámos em que fosse um programa contínuo. Ofereceram-nos um escovário, com as gavetinhas, para cumprir todas as normas para que as escovas não se juntassem e, a partir daí, além de nos ensinarem a escovagem aos meninos, começaram a tratar dos dentes a nível de verem as cáries existentes”. A miudagem colabora, leva ensinamentos para casa e até reclamam quando pensam que não vão lavar os dentes após a refeição.
Sol #22 - 09 Fevereiro/2007

Fevereiro 04, 2007

Golo a galope


A selecção portuguesa é vice-campeã da Europa na modalidade, mas nem por isso o Horseball é conhecido do grande público. Este é um desporto à conquista de adeptos e de patrocínios: jogar à bola a cavalo. Pura adrenalina, diz quem sabe.

O dia amanhece luminoso, sol a secar a humidade nocturna. Pelas queixas no camião ao lado, a noite anterior foi gelada. Os mais velhos procuraram aquecer-se pelas tasquinhas da Golegã; os mais novos, e únicos acordados àquela hora, enrolaram-se em mantas, após a disputa das meias-finais da Taça de Portugal de Horseball. Quase a culminar onze meses de campeonatos, o Sporting Clube de Portugal/Centro Equestre João Cardiga (SCP/CEJC) ganhou ao Cascais Horseball (CH) num jogo sem história. Por sua vez, o Horseball Club - Colégio Vasco da Gama (HC-CVG) venceu o Clube de Horseball de Alenquer (CHA).
HC-CVG e CHA regressam juntos às boxes, em discussão que raia a cavaqueira. Cláudio Oliveira, do CHA, promete oferecer as rédeas do seu cavalo a um dos adversários: “não as largavas!”. Pedro Santos, também do CHA, comenta ter ficado uns minutos sem visão por conta do braço de Marco Happel, do HC-CVG, duramente esticado para a bola. “Mas não perdi nada de interessante, pois não?”, o humor corrosivo de Pedro a perguntar. Aparentemente, além dos golos, o HC-CVG vencera também em faltas cometidas. “Onde está o van Uden?” é Pedro Serrano, capitão de equipa do CHA, quem se aproxima em demanda. Encontra o adversário, toca-lhe subtilmente no braço, ri-se, ar de puto traquina, apesar dos seus 30 anos: “foi muito bem feita, não foi?”. Só no dia seguinte havíamos de perceber, Serrano cometera uma falta apenas perceptível pelos dois jogadores. João van Uden, sorri: “foi um toque genial, serviu de aprendizagem”. E nem uma ponta de irritação por uma falta que o árbitro não viu? “Não. Talvez até algum orgulho. Significa que constituí perigo para um jogador mais velho e muito mais experiente do que eu”, assunto rematado por van Uden.

Dedicação, aos cavalos e à equitação, é a principal característica dos elementos de todas as equipas. Precisamente por isso, os horários de tratamento dos animais impõem-se sempre aos dos humanos. Com ou sem incursões nocturnas pelas ruas da Golegã, oito da manhã é hora de tratamento dos bichos. Equipas completas, elementos escalados ou tratadores habituais estão lá, para dar cumprimento ao ritual da ração e da água, que os cavalos não se compadecem com os vícios do homem. A equipa do HC-CVG, é a madrugadora. Nota-se que o espírito de grupo lhes é intrínseco: “é natural, foram assim habituados desde miúdos”, justifica a veterinária do clube, Eduarda Paisano. “Se não forem capazes de conviver juntos fora do campo, não conseguem estar unidos em jogo”. Pedro Santos também lá está. É ele quem chama “ganda maluco” a van Uden, e prende a focinheira da égua quando João aparece a montar em pêlo e cabeçada solta, comentando sozinho: “se ela se lembra de arrancar, estou feito”.
Sem equipamentos não parecem adversários. Encostam-se às boxes em troca de opiniões e experiências. Zé João Campeão aparece com uma forquilha cheia de palha. “Onde é que foste buscar isso?”. Veio das boxes do CH. No dia anterior, enquanto esperava pela chegada dos cavalos, João Maria Fernandes, do CH, advertira: “se perdermos, vamos imediatamente embora”. E foram. Da presença da equipa restavam palha e feno nas boxes abandonadas.
Menos de voltar as costas a derrotas, a equipa do CHA mantém-se no terreno. Instalados na zona das boxes, eles são o melhor exemplo do espírito amador da modalidade. Apenas têm o que Serrano designa de “paitrocinador” – Manuel Serrano, o pai, facilita o alojamento dos animais - e só com muito entusiasmo o calendário das competições é cumprido. Com o camião dos cavalos trouxeram carrinhas, sacos-cama, mesa, cadeiras e frigorífico. Durante três dias, é ali que vivem, verdadeiros anfitriões entre os horseballistas. Necessite-se de forquilha, escova ou dois dedos de conversa, é junto ao CHA que se vai buscar. Descontraído, Pedro Serrano acumula as funções de treinador e capitão da equipa. “Não é o melhor, mas ainda não conseguimos encontrar ninguém cujo espírito conjugue com o nosso”, conta. A curiosidade aumenta. Que espírito é esse? “Estamos aqui para nos divertirmos”. Deve ser verdade ou Natália Simões, a única mulher da equipa, não percorreria 120 kms três vezes por semana, para ir treinar a Alenquer tendo um dos clubes concorrentes ao título à porta de casa.
“Isto é um hobby, sem divertimento não valia a pena”, afirma Pedro. Um hobby onde quem não tem apoios, naturalmente, paga. “Mas não é tão caro como muitas pessoas pensam. Praticar karting, por exemplo, não sai mais barato”, diz enquanto se balança na mini-mota de um apoiante da equipa. Em termos médios, a manutenção de um cavalo para prática de horseball poderá custar perto de 200 € mensais.

O horseball continua a ser uma disciplina absolutamente amadora e a sua pouca visibilidade não tem atraído patrocínios de monta. A maior parte dos jogadores e técnicos continua a ter de se articular entre os inevitáveis compromissos profissionais e a prática de uma modalidade que apenas lhes acarreta despesas. Por outro lado, se o número de praticantes é suficiente para manter os vários campeonatos, já a ausência de uma carreira de árbitros de horseball pode levantar alguns problemas. A solução encontrada foi a de cada equipa fornecer o nome de uma dupla de jogadores que passam a constar de uma listagem aprovada pela Comissão Técnica de Arbitragem. Apesar de o sorteio estar previsto, a escolha dos árbitros é feita pelo Responsável de Arbitragem, lugar sujeito a eleição pela Associação de Jogadores de Horseball. Ou seja, a avaliação de cada jogo é feita por elementos de outras equipas, concorrentes no mesmo campeonato do jogo que arbitram. Não é difícil de adivinhar as não raras situações de acusação de favorecimento do árbitro a esta ou àquela equipa, como forma de beneficiar a sua própria.
Afinal, que tem de tão estimulante o horseball? “Adrenalina!”, entusiasmam-se todos quando respondem. Velocidade, capacidade de arranque e de travagem, é o que se pede ao jogador de horseball e à sua montada, tudo conseguido sem o recurso a rédeas, chicote ou bastão. Só o toque das pernas dá instruções. As mãos querem-se livres para o que faz ganhar jogos: alcançar a bola e marcar pontos. “Por isso eles [horseballistas] dizem que o Horseball é mais exigente do que o Pólo”, afirma Eduarda Paisano. A sintonia entre equídeo e cavaleiro tem de ser perfeita. “Em campo, o cavalo é equivalente às pernas do jogador. Um sem o outro não fazem nada”, diz Pedro Serrano. “É um jogo extremamente exigente, em termos musculares, articulares, de respiração. Obriga que os cavaleiros sejam atletas e os cavalos também”, afirma Eduarda Paisano. “Uma partida tem vinte minutos, um intervalo de três. No fim do primeiro tempo, cavalos e jogadores estão estoirados”. Compreensível, considerando que uma montada demora cerca de seis segundos a percorrer um campo regulamentar, cujas medidas ideais são 65 por 25 metros. Para evitar acidentes, os oito jogadores em jogo e o próprio árbitro têm de correr sempre paralelos. Mudanças de direcção só são permitidas nas cabeceiras do terreno, junto às balizas, aros com um metro de diâmetro, a uma altura de 3,5 m do chão. É por ali que tem de passar a bola, envolta em seis correias de couro que permitem aos jogadores arremessá-la, agarrá-la, no ar ou no chão. A ramassage (acto de recolher a bola do solo sem desmontar) é talvez o exercício visualmente mais impressionante desta modalidade. Cavalgar em pé nos estribos até parece fácil, quando comparado com aquele inclinar de corpo, braço esticado em direcção ao chão, cavalo a galope e bola novamente no ar. “Não, eles não ficam de cabeça para baixo”, sorri Eduarda. “Numa ramassage tecnicamente bem feita, quando muito, a cabeça fica ao nível do joelho”. Seja mas, embora não haja conhecimento de acidentes graves no horseball, nem por isso o gesto perde o ar de acrobacia.

Desde sempre o homem gostou de confrontos a cavalo. Nas pampas argentinas, há centenas de anos que o Pato é praticado. Duas quadrilhas de homens a cavalo em disputa por um pato, encarcerado numa saca de serapilheira, com as asas de fora, para facilitar ser agarrado. A desventurada ave terá vindo a ser substituída por uma bola. É essa prática que em 1930 um campeão de saltos de obstáculos a cavalo, o Capitão Clave, faz chegar a França como treino de sela. Com as adaptações necessárias, ao longo dos anos o novo exercício é adoptado para tornar mais lúdico o ensino da equitação. A sua divulgação, já com a designação de Horseball, ultrapassa fronteiras. Em 1988, Portugal assiste à primeira exibição da modalidade. País de cavalos, cavaleiros e bola, a lusa nação não lhe vira costas. A fusão de um jogo de equipa com a equitação, desporto por norma solitário, é aliciante. Em 1989 o número de praticantes já permite a organização de um torneio entre três equipas: Centro Equestre Lezíria Grande, Escola de Equitação Fernando Ralão e Horseball Club (HC), na altura na Quinta da Granja, actualmente HC-CVG, são as pioneiras. Hoje, disputam-se três campeonatos nacionais com 16 equipas participantes e, pela oitava vez em treze anos, a selecção portuguesa é vice campeã da Europa. À sua frente, só a França.
Quando a intenção é falar de divulgação e ensino do horseball em Portugal o nome de Francisco Campeão é incontornável. Instrutor de equitação, habituado a ensinar crianças, para Campeão a modalidade “veio funcionar como uma ferramenta de trabalho” porque, “depois de passar o volteio, a aprendizagem é uma ‘seca’ para os miúdos. Muito longa e monótona.” Fundador do HC, foi da sua prática com classes jovens que nasceram ideias mais adaptadas às necessidades dos miúdos, como a utilização da bola número 2 e a alteração do formato do stick, utilizado para ensinar os póneis a andar. A troca de experiências e o contacto constantes com Jean Paul Depons um dos principais entusiastas da modalidade em França, levaram a que essas alterações fossem inscritas nas regras internacionais do ensino da modalidade.
Fala-se de crianças porque é essencialmente nelas que Francisco Campeão investe. “Embora se possa começar a praticar horseball em qualquer idade, desde que se esteja a montar bem”, há 15 anos o seu lema tem sido: “vamos apostar nos mais novos para daqui a uns anos termos óptimos jogadores adultos”. No SCP/CEJC, é o próprio João Cardiga, responsável do Centro Equestre, quem diz: “o Horseball começou em minha casa em 1993, pela mão do Francisco Campeão”. O método, ao qual não é alheia a ascendência britânica de Campeão, consiste na utilização dos póneis Shetland que, explica Eduarda Paisano, “são peluches vivos, ao tamanho dos miúdos, que conseguem escová-los, aparelhar, dar banho, montar e desmontar sozinhos. Vão desenvolvendo o equilíbrio, o movimento animal, o respeito pelo cavalo e, quando crescem, aumenta o tamanho da montada”. Não será concerteza coincidência que as equipas presentes na final da Taça de Horseball de Portugal sejam as únicas que têm escalões de formação, e ambas nos mesmos moldes.
No SCP/CEJC, a formação é também feita de forma continuada, com um corpo técnico constituído por João Cardiga e dois treinadores, um para os seniores, outro para as categorias mais jovens. É André Ponces de Carvalho, o treinador dos seniores, quem afirma: “há aqui uma mecânica muito grande, que é o diálogo entre estes 3 técnicos. Assisto muitas vezes aos treinos dos escalões jovens, até porque um dia mais tarde vou herdar jogadores desse escalão”. Sobretudo, “falamos todos a uma voz, queremos ter uma imagem de equipa, e essa imagem começa logo a construir-se na formação”.

“Veterinário às oito”. A palavra passara de boca em boca ou pelo telemóvel. “Quer fazer já a fotografia dos vencedores da Taça?” João Tiago Ribas ri-se com toda a equipa do SCP/CEJC, em pose e confiantes no triunfo. Antes da final, nem por um momento o capitão da equipa sportinguista parece duvidar da vitória. Os jogadores do HC-CVG mantêm a sua postura calma e sorridente.
Ponces de Carvalho já puxou toda a equipa para um canto, em conversa vedada a qualquer intruso: “há momentos que são só nossos. É um momento de concentração, um momento místico. É ali que começa a nascer o bichinho para entrarmos em campo”. Equipas e apoiantes ocupam-se com a preparação das montadas, os jogadores exercitam os músculos e fazem o “aquecimento de chão”.
Transpor as poucas centenas de metros que separam as boxes dos equídeos do picadeiro central assume proporções de audácia. As equipas atingem o local perante a indiferença da multidão que se pressente mais inebriada pelo aroma dos grelhados e anúncios dos vendedores ambulantes do que por questões equestres. Nem o facto de se disputar a Taça de Portugal de Horseball confere aos jogadores privilégios particulares. Os animais aquecem na manga, o corredor em torno do picadeiro central, indiferenciados, entre o passeio de póneis, charretes, trajes de equitação à portuguesa. Quando os portões do campo se abrem, a entrada está longe de ser apoteótica. “Quem vir os equipamentos, pensa que é um Benfica/Sporting”, ouve-se. Mas a paixão clubística parece não morar ali e, apesar de considerável, o público tarda em dar mostras de entusiasmo. Nem o esforço do locutor de serviço, que empresta à voz o tom de festa, aparenta surtir qualquer efeito.
O HC-CVG parece ter entrado para ganhar. O SCP/CEJC aparenta nervosismo e dificuldade de organização para um ataque eficaz. Um dos jogadores de verde e branco cai. O cavalo levanta-se, deixa o cavaleiro junto à baliza, sai disparado para a lateral do campo. Treinador e veterinária do HC-CVG, ajudam a agarrar o animal fugitivo. Pelo gesto, a veterinária encoraja o jogador da equipa adversária. O jogo pára. Só assim o atleta pode entrar em campo. Tudo regressa rapidamente à normalidade. Intervalo.
Os cavalos são refrescados, os treinadores ouvidos, muda-se de campo. É um Sporting renovado que entra na segunda parte. O que disse André Ponces de Carvalho à equipa, manter-se-á secreto. “Zanguei-me muito com eles e acho que lhes toquei num ponto fundamental que é o ego. Sou exímio a tocar no ego das pessoas quando é preciso”. Fosse qual fosse o argumento utilizado, o SCP/CEJC dá a volta ao resultado no início da segunda parte. Findos os vinte minutos de jogo a taça, pelo segundo ano consecutivo, passa de mão em mão entre os jogadores do Sporting. Longe do ar que lhe é natural, é um João Cardiga austero que a recebe no fim. A emoção, esconde-a no ombro de cada jogador abraçado.
Após a vitória, Ponces de Carvalho afirmou: “Eu não queria dizer isto, porque se calhar vai ser publicado, mas disse-lhes, antes de iniciarmos as meias-finais da taça: se ganharmos a meia-final, quer dizer que estamos na final e, se ganharmos a final, garanto-vos que durante 2 anos não perdemos um jogo de competições oficiais. Portanto, acho que diz tudo”.
Nos dias 3 e 4 de Fevereiro, as mesmas equipas que disputaram a final da Taça de Portugal, irão lutar pela Super Taça Diogo Santos, no picadeiro coberto da Sociedade Hípica Portuguesa, no Hipódromo do Campo Grande, em Lisboa.
Notícias de Sábado #56 - 03 Fevereiro 2007

Janeiro 14, 2007

O que resta dos avieiros


Ribatejo é lezíria, são toiros e cavalos, campinos e touradas. Mas é também morada de outra gente, vinda de longe, à procura de bom porto e de sustento. São os avieiros, a quem Alves Redol chamou “ciganos do Tejo”

No Inverno, quando o mar de Vieira de Leiria se mostrava pouco generoso, famílias inteiras deslocavam-se em campanha até ao Tejo que, na sua riqueza, lhes oferecia sável, enguia, fataça, robalo. Foram ficando por ali à borda-d’água, nos barcos, improvisadas casas de três divisões: à popa, a oficina, destinada ao trabalho da pesca; ao centro, a cozinha; à proa, sob um toldo armado com estacas de salgueiros, o quarto, que abrigava toda a família.
Se o oceano apenas lhes fornecia a sardinha durante o Verão, o Tejo proporcionava-lhes pesca ao longo de todo o ano e, até porque deslocar toda a descendência nem sempre era acessível à economia familiar, aos poucos foram prolongando as campanhas de Inverno. Contam os livros que, há pouco mais de cinquenta anos, começaram a fixar-se ao longo das margens do Tejo. Casa Branca, Palhota, Escaroupim, Caneiras, Conchoso, Patacão, Lezirão, Muge, Valada, Carregado, Vila Franca, eis alguns dos locais onde os avieiros se foram instalando.
A fixação definitiva trouxe-lhes a vontade e a necessidade de uma habitação permanente e segura. Barracas de lona ou coberturas de caniço sobre estacas serviam para as temporadas da faina mas mostravam-se insuficientes quando estas se prolongavam. No início, bem à forma da lezíria, instalaram-se em palhotas, construídas com o material que os valados lhes ofereciam. Quando as condições económicas o começaram a permitir, com características bem diferentes das casas ribatejanas, nascem as aldeias de construção palafítica, típicas da praia de Vieira de Leiria mas também adaptáveis às cheias do Tejo e à necessidade que o pescador sente de estar perto do barco, seu instrumento de trabalho.
Hoje, já não são esses ”ciganos do Tejo” que encontramos na beira-rio mas os seus filhos e netos. Apesar de tudo, ainda é possível encontrar alguns avieiros, embora as suas características se tenham adaptado à realidade actual do Tejo – a construção de barragens impede a circulação do peixe que passou a procurar outros locais para a desova e as descargas das águas residuais no leito do rio, mesmo quando tratadas, matam e deformam o peixe.
Das suas habitações resta a memória, auxiliada pelo espólio documental e o investimento de algumas câmaras na recuperação e manutenção do que sobreviveu ao abandono e à modernidade.
Fomos à sua procura em Escaroupim, uma daquelas aldeias por onde não se passa mas onde se vai. É ali, à beira Tejo, onde termina a estrada vinda de Salvaterra, um lugarejo aparentemente igual a tantos outros. Casas térreas, nas ruas quase ninguém. Ao longe passeiam-se três ou quatro cães, ouve-se o ruído de água que uma mangueira projecta contra o chão de um quintal.
Entre as casas sobressaem quatro ainda em madeira, uma quinta mais à frente, assentes em colunas de cimento, na sua construção palafítica. É o núcleo museológico da aldeia que nos mostra a construção outrora característica da gente do rio – os quartos, sempre em número de dois, fosse a família grande ou pequena, a sala, a divisão maior, separados por tabiques. Do lado oposto ao dos quartos, a cozinha. Portas, apenas as que davam para a rua porque interiormente eram cortinas, de cores alegres e vistosas, que permitiam alguma privacidade. No sótão, divisão criada sobre os quartos, eram guardados os aparelhos de pesca.
Continuando pelo suave declive do terreno, somos conduzidos a um largo cuja recuperação trouxe à população um agradável local de lazer. Sob os chorões, árvore tão característica da borda d’água, bancos e mesas servem os amantes dos piqueniques ou aqueles que apenas gostam de estar sentados a contemplar ou a ler. À esquerda, também recuperadas e em construção palafítica, meia dúzia de casinhas, distribuídas aos pescadores para guardarem as suas artes e o restaurante, para os visitantes do fim de fim-de-semana a quem a paisagem idílica atrai. Os barcos descansam.
As ruas estão desertas. É o fim da manhã de um dia de semana. No cais palafítico, recém recuperado pela câmara, alguns homens, de muito poucas falas. Dispersam rapidamente, talvez pela aproximação de um estranho por tais paragens, talvez justificado pela hora do almoço que se aproxima. É já no café da terra, após a refeição do meio-dia, que encontramos António Simãozinho e Joaquim Letra. A meio do nome, ambos têm o apelido Botas porque “aqui é difícil de encontrar alguém que, mesmo vagamente, não seja de família. Todos os nossos antepassados vieram de Vieira de Leiria”, justifica Joaquim. Assim é. Contam os anais que mencionam a história da terra, ter ela nascido dessa leva migratória de há mais ou menos cinquenta anos. Contudo, os tempos são outros.
Nesta terra de fim de estrada, onde o padeiro ainda se desloca de carrinha com buzina roufenha que anuncia a sua chegada, o sentido da vida mudou. Os outrora pescadores já não o são para alimentar a prole mas quase apenas para ajudar à economia familiar. A agricultura substituiu-se ao rio no sustento dos homens. Empregos como a construção civil ou a hotelaria, por terras próximas, mostram-se mais fiáveis do que continuar a açoitar o Tejo para dele tirar o peixe que não dá para viver. Não porque o rio se tenha tornado avaro mas porque o escoamento do produto se tornou difícil.
Fataça, barbo, enguia e algum camarão, são as espécies que vão vindo à rede ao longo do ano mas, sobretudo a primeira, já perdeu todo o valor comercial: “há uns tempos, todas as semanas vinha aí um intermediário que comprava toda a fataça para fazer farinha de peixe. Agora já não há ninguém a comprar”, conta António, “se houvesse alguém a fazê-lo, toda esta gente andava aí a pescar.” “Hoje ninguém quer isto a não ser para um petisco de fim de tarde” confirma Joaquim.
E nem no mercado público, antiga forma de escoamento do peixe, se encontram hoje as mulheres, outrora com os ranchos de filhos à ilharga, companheiras inseparáveis do homem na arte da pesca, a comercializar o resultado da faina.
É, aliás, como em tudo na vida, o lucro inerente à actividade que se nota ser um travão à sua continuidade. Só no tempo da enguia o rio retoma algum alento, longe, apesar de tudo, dos tempos áureos dos avieiros. O facto de a irós ser uma espécie mais bem cotada e tradicionalmente procurada nos restaurantes do Ribatejo faz com que aos barcos seja dada maior utilidade do que aquela que têm ao longo de quase todo o ano. Além da restauração há ainda os espanhóis, que se deslocam por terras de beira Tejo à procura da enguia portuguesa. Aqui começam a inverter-se os papéis. Cientes da qualidade do produto que capturam, os pescadores portugueses sobem os seus preços até ao ponto que sabem poder vendê-lo para o país vizinho. Por outro lado, os restaurantes nacionais, porque também querem lucrar o máximo possível, passam a comprar a irós espanhola, no dizer de apreciadores e entendidos, muito aquém do sabor e da textura da portuguesa. Contudo, isso não é da preocupação do pescador, que tem nos meses da enguia a melhor altura do ano para complementar o seu ordenado.
É neste imbróglio comercial, que se pode encontrar o motivo daquilo que, por ser proibido, todos se recusam a falar: o rendimento proveniente da apanha do meixão. Sem terem dono aparente, estendidas no chão a secar, podem ver-se redes quase opacas, de tão apertada que é a sua malha. Olhando para o leito do rio, percebe-se uma estrutura, sustentada por estacas grossas. É ali o viveiro das enguias que nunca hão-de crescer nem nadar ao sabor da corrente do Tejo. Todos dizem desconhecer a quem pertence aquela construção, porém, uma coisa é certa: indiferentes ao facto de estarem a comprometer a existência futura da espécie, há pessoas que ali travam o peixe que conseguiu entrar mas não será capaz de sair a não ser para as mãos dos donos de alguns restaurantes ou para intermediários espanhóis, ao valor de 300 euros o quilo.
Mas, apesar de esta ser uma realidade do Tejo, não tem contudo directamente a ver com a faina dos avieiros, a não ser no prejuízo futuro que lhes irá trazer e, desse, apesar da revolta aparente dos dois homens, talvez pelo receio de chamar as atenções para a actividade ilegal, eles preferem não continuar falar, antes predispondo-se a demonstrar a técnica tradicional e a facilidade com que o peixe vem às redes, aproveitando-o para um petisco de fim de dia.
Com a maré-alta fazem-se ao Tejo. No barco, antigamente homem e mulher, hoje dois homens, armados com uma rede atada a varapaus que irão perfurar as águas até encontrarem terra onde se agarrar. Mesmo ali, quase à borda-d’água, remam em círculo, ao enquanto açoitam o rio para espantar o peixe. Em fuga desnorteada, os cardumes ficam presos no muro feito de malha. É altura de recolher varas e rede. Desemalham o peixe e retornam a águas mais fundas para repetir todo o ritual até os peixes aprenderem a desconfiar da acalmia do rio, o que, seja pela abundância da espécie, seja por demasiada tontura dos animais, não acontece facilmente.
Ao atracar no cais de madeira desemalha-se o último peixe. São visíveis alguns dos estragos provocados pela poluição das águas quando um ou outro surgem deformados. Diz António Simãozinho, “com os despejos da ETAR, e apesar de nos dizerem que os graus de poluição são os mínimos e que aquilo vem tratado, nós não acreditamos nisso porque o peixe continua a aparecer morto, a boiar, sem oxigénio.” Esse é um problema aparentemente sem solução. Pelas análises feitas às descargas, os níveis de poluição estão dentro dos limites legais.
O sol quase se põe. Homens e mulheres começam a regressar, não vindos do lado do rio mas de terra. De madrugada ou no fim-de-semana talvez se façam às águas do rio, porque a sua vida agora é outra.


Vega Mar & Aventuras #24 Dezembro 2006/Janeiro 2007

Sapalsado: a casa das ostras


A Sapalsado acreditou ser possível o desenvolvimento da ostra nas próprias águas do rio. Apostou e o desafio parece estar ganho. O Sado volta a ser conhecido em França, pela sua ostraNo horizonte erguem-se as chaminés das fábricas responsáveis pela maior parte da poluição do estuário do Sado.

Para quem olha, do alto de Faralhão, ali às portas de Setúbal, são salinas que parece ver. Estranha-se talvez a largura exagerada dos passadiços ou os engenhos colocados dentro dos tanques, mas apenas isso. A paisagem em nada foi alterada e a passarada vai andando por ali de acordo com os seus hábitos e épocas do ano. Sem qualquer placa sinalizadora ou forma delimitada, é numa zona de antigas salinas que a Sapalsado, uma empresa dedicada à aquicultura, se inscreve. É neste local, onde a paisagem protegida se alia à exploração das potencialidades produtivas do rio, que os sócios da Tambpiscicultura, Reinaldo Mendonça e António Leal, resolveram fazer uma nova aposta: a recuperação da ostra do Sado.
No contexto histórico a apanha da ostra no estuário do Sado sempre se revestiu de alguma importância, reflectindo-se na economia da região. Em França, principal destino do molusco, a ostra sadina era muito conceituada. A procura era grande e os naturais faziam os possíveis por a satisfazer. Famílias inteiras dedicavam-se à actividade, chegando mesmo a vir gente de fora. Os proventos eram consideráveis e a própria aldeia de Faralhão, onde se situa a Sapalsado, cresceu assente nos lucros da apanha do bivalve. Porém, diz António Leal, “as indústrias vieram, destruíram tudo e nunca mais houve ostra”. No estuário do Sado, só passados 30 anos após o seu desaparecimento a ostra regressa de forma tímida, longe da quantidade de outrora e com uma forma de crescimento que denota a capacidade de defesa do ser vivo: “para se proteger da poluição das águas, a ostra cria casca, em vez de desenvolver o músculo”, informa Reinaldo Mendonça.
Experiente e profundamente conhecedor das coisas do mar, Reinaldo Mendonça acreditou que nas águas dos viveiros da Sapalsado, onde já cresciam robalos, douradas, corvinas e linguados de qualidade superior, poderiam também criar-se com sucesso as ostras do Sado. Fundamentava a sua opinião nos resultados das análises às águas, que a empresa sempre teve o cuidado de mandar fazer. “A qualidade da água que sai dos nossos viveiros é superior à que entra no primeiro tanque”, diz. E os papéis estão lá, para o comprovar. A percentagem de metais pesados existentes na água dos tanques é inferior à permitida por lei.
Decidiram-se então por uma primeira experiência, feita com matéria-prima do próprio estuário. As ostras eram apanhadas no Sado e criadas nos tanques da piscicultura. O resultado, atestado por uma equipa da Faculdade de Ciência e Tecnologia (FCT), da Universidade Nova de Lisboa (UNL), foi positivo. Os bivalves desenvolviam-se com muito menos casca nas águas sistematicamente oxigenadas e naturalmente despoluídas da Sapalsado. Obviamente, também a qualidade do músculo, comestível, era superior. Motivados pelo sucesso, os dois sócios apostaram noutra experiência: adquirir ostras a uma maternidade francesa para as deixar crescer nos seus tanques. Em 2003, foram 50.000 as ostras-bebés, com um milímetro de tamanho, que foram mergulhadas nas águas da Sapalsado. O entusiasmo da altura adivinha-se nas palavras de Leal: “passados 30 dias, elas mediam um centímetro, e algumas mais”. Observaram então que em oito meses os moluscos atingiam o tamanho comercial óptimo, com cerca de 7 centímetros e 80 a 110 gramas, acima do qual perdiam valor. Nos viveiros franceses, as mesmas medidas demoram dois anos a serem alcançadas. Se, como diz Reinaldo Mendonça “não se consegue obrigar a ostra a comer”, a quantidade de nutrientes das águas e a sua temperatura influem nesta aceleração do tempo de crescimento. Por outro lado, quando sujeitas a análises, verificou-se que em algumas ostras o peso do músculo ultrapassava o da casca, situação rara num bivalve. A qualidade também estava acima de quaisquer dúvidas, ultrapassando todas as expectativas: os coliformes fecais detectados estavam abaixo do limite mínimo detectado pela análise. “Analisadas antes da depuração, as nossas ostras têm a mesma qualidade que as do estuário depois de depuradas”, declara Reinaldo Mendonça apontando os resultados dos estudos a umas e a outras. Contudo, apenas pela observação da cor do músculo de cada uma delas, permitimo-nos afirmar que a capturada directamente no estuário, mesmo após limpeza, convida muito menos à sua ingestão.
Testes e análises feitos, era altura de efectuar uma última prova, a do consumidor. A quantidade resultante da primeira produção de ostras foi quase totalmente utilizada na divulgação do produto, em Portugal e em França. Se em Portugal o hábito de comer ostra ainda não se instalou e o êxito ficou mais ou menos confinado aos convivas dos eventos em que a Sapalsado participou, em França, um dos países com maior consumo de ostra e mais exigências a nível da sua qualidade, o impacto foi positivo. Em 2003, a empresa exportou para este país 5 toneladas de bivalve, valor que quintuplicou no ano seguinte. Definitivamente, a aposta estava ganha e a outrora famosa “huître du Sado” voltava a ocupar o seu lugar à mesa dos franceses.
Porém, não se pense que tudo são apostas ganhas na Sapalsado. Situada dentro da Reserva Natural do Estuário do Sado (RNES), são grandes os problemas com que se debatem, provocados pelo atrito com o Instituto de Conservação da Natureza (ICN) e com a própria RNES. O acesso à energia eléctrica é um deles. Apesar de, ao longo dos 14 hectares que constituem a propriedade, os olhos tropeçarem sistematicamente nos postes de alta tensão provenientes da central eléctrica de Mitrena, até Maio de 2006 a empresa estava impedida de levar a cabo um projecto subterrâneo de distribuição eléctrica. A energia consumida pela Sapalsado é fornecida por dois geradores alimentados por combustível fóssil o que, como afirma António Leal, “sai mais caro e mais poluente.” Diz o empresário: “Estamos a queimar à volta de 5000 litros de gasóleo por mês e, além disso, no caso de necessitarmos de arejar apenas uma parte do viveiro, temos de ligar tudo.” Contudo, os dois sócios não perderam a esperança de verem aprovado o seu projecto de fornecimento de energia eléctrica à piscicultura. Ainda nas palavras de Leal, “penso que agora há ideia de nos autorizarem”.
Outra situação prende-se com o facto de a empresa estar também impedida de construir uma casa destinada ao armazenamento de rações, à verificação veterinária, ao embalamento do peixe e das ostras e, no caso destas últimas, à sua depuração. Se podemos concordar que a edificação na zona poderá ter um impacto ambiental menos positivo se não cumprir regras, o facto é que a solução entretanto encontrada, e aceite pela RNES, apesar de facilmente movível, traz à zona um aspecto degradado. Ao lado da construção que abriga os dois geradores ficam os contentores onde são guardadas as rações e, no seu seguimento, umas precárias traves sustentam uma rede verde, que pretende abrigar o local de pesagem.
Aliando a falta de energia eléctrica à ausência de instalações capazes, todo o esforço que os dois sócios estão a efectuar para valorizar a ostra do Sado pode ficar comprometido. Impossibilitada de ter os seus meios próprios, a Sapalsado tem de recorrer a uma empresa externa, a Barrosinhos, para depuração e embalamento dos seus bivalves. Apesar de modernamente apetrechada, e de não ser questionado o desempenho desta unidade, a realidade é que o selo de certificação que acompanha as ostras é geral para todos os produtos embalados na empresa. Por si só, o facto não constituiria problema de maior se do mesmo local, e com o mesmo selo, não saíssem também ostras criadas no Sado, de qualidade inferior às produzidas pela Sapalsado, mas facilmente confundíveis pela etiqueta que apresentam. Entretanto, apesar de todos os problemas, e sempre apostada na qualidade, a empresa tem como objectivo aumentar o valor das exportações, que pretendem que ascenda às 50 toneladas, além da vontade de pôr Portugal a comer ostras. No imediato, em território nacional, já há clientes a receberem, por mês, uma média de 350 quilos do bivalve.
Acreditando nas potencialidades da aquicultura e da zona onde se inserem, os dois sócios gostariam de ver autorizados para exploração mais alguns hectares das marinhas abandonadas do estuário do Sado. Como diz António Leal, “se estão abandonadas, elas já foram construídas, já foram mexidas pelo homem e o impacto paisagístico, a existir, será mínimo”. Se pensarmos em termos da melhoria da qualidade da água, e tendo como ponto de partida os resultados das análises feitas em relação à Sapalsado, o estuário só teria a ganhar. Contas feitas pelos dois sócios, a exploração de 5% dos 23.500 hectares da zona protegida, seriam suficientes para criar cerca de 600 postos de trabalho directos, que seriam importantes numa região depauperada como é a de Setúbal.

Ciclo de produção da ostra

Importada de maternidades francesas, a ostra é colocada ainda bebé em sacos de rede de acordo com os seus tamanhos. É dentro destes sacos espalmados, assentes sobre estrados metálicos que pousam no fundo dos tanques, que os bivalves se desenvolvem. Ciclicamente, todos os sacos têm de ser retirados, os moluscos, que entretanto se uniram, cuidadosamente separadas por forma a que a sua casca não fique ferida e a quantidade que anteriormente ocupara um único saco passa a dividir-se por três, de perfuração maior, com capacidade para permitir o crescimento da ostra. Esta operação é executada várias vezes ao longo dos oito meses que o bivalve demora a atingir a medida comercial. Nessa altura, e de acordo com as encomendas existentes, duas vezes por semana a ostra é recolhida do viveiro, levada para a depuração durante 24 horas e embalada. Caixas com 5 quilos da iguaria ficam então prontas para a distribuição. Na região de Setúbal, o próprio Reinaldo Mendonça faz a entrega em mão. Fora dessa área, as ostras são confiadas a uma empresa de distribuição que assegura o transporte em boas condições e prazos compatíveis com o grau de exigência do produto e dos seus clientes, entre os quais se contam o Tavares Rico e a Travessa, em Lisboa ou a Champanheria e a Pousada de São Filipe, em Setúbal.


Vega Mar & Aventuras #23 Outubro/Novembro 2006

Setembro 01, 2006

era uma vez


Sobejamente conhecido, o Museu do Brinquedo, em Sintra, é local de deleite para crianças e adultos. Porém, antes da sua própria história tem uma outra, constituída por pequenos fragmentos da vida de um homem: Arbués Moreira. Apoiado pela mulher, Ana Moreira, ele deu um novo valor à arte da brincadeira.

Era uma vez um avô… Este podia ser o começo da narrativa sobre o Museu do Brinquedo, há muitos, muitos anos.
João Arbués Moreira era um miúdo que, como todos os miúdos, gostava de brincar. E tinha um avô, esse sim, diferente. Era um senhor deveras rico que, além de gostar que os netos brincassem, tinha um hábito bastante peculiar: de cada vez que um deles tinha más notas, ele oferecia-lhe um brinquedo.
Arbués Moreira crescia, como crescem todas as crianças e um dia, já ele tinha alguns anos e muitos brinquedos, um professor perguntou aos alunos o que coleccionavam. João, que não se lembrava de coleccionar mais nada, disse: “brinquedos”. Os colegas riram-se, mas o pedagogo explicou: “uma colecção de brinquedos é tão importante como outra qualquer porque eles representam a época em que são feitos”. E aquilo, conta o actualmente engenheiro Arbués Moreira, “deu-me uma volta tão grande à cabeça, que eu comecei a comprar brinquedos já com o intuito de representar o mais possível a época”.
Terá sido mais ou menos este, há mais de cinquenta anos, o início do Museu do Brinquedo que hoje se situa em Sintra, no antigo quartel dos bombeiros.

Um passado feito de histórias

O museu abre ao público após vários anos de coleccionismo e muitas histórias, algumas delas onde é notória a forte presença de João Capucho, o avô. Foi com ele que Arbués Moreira e o irmão aprenderam os riscos de alguns brinquedos: ”por exemplo as máquinas a vapor são brinquedos perigosos. Ele deixava-nos brincar mas explicava-nos os perigos e qual a pressão a que devia estar a máquina”, diz.
Também as primeiras experiências com electricidade foram partilhadas com Capucho, que submetia os miúdos a um estranho ritual: “tínhamos um reóstato e todos os dias, quando chegávamos da escola, íamos pôr os dedos na ficha. O choque era sempre um bocadinho mais forte que o anterior. Um treino para, se um dia apanhássemos uma descarga eléctrica grande, não nos acontecer nada”, conta o neto, com um sorriso entre o divertido e o saudoso.
Na tentativa que Arbués Moreira escapasse à influência do avô, que achava os estudos absolutamente desnecessários e tentava desviar a atenção dos netos para coisas menos maçadoras, o pai enviou-o, juntamente com o irmão, estudar para Inglaterra. Persistente na ideia da inutilidade do estudo, João Capucho descobre o número da conta bancária dos netos. Perante o achado, e com o intuito que os rapazes se divertissem em território bretão, aí faz avultados depósitos que acabaram por levar os dois jovens a terem de justificar, perante a polícia inglesa, tal quantidade de dinheiro. Ninguém acreditava na versão dos dois adolescentes e muito menos na excentricidade do ancião.
Se a distância imposta pelo pai permite que os dois irmãos terminem os seus cursos, os incrementos dados pelo avô à conta bancária dos jovens possibilitam o acréscimo da colecção de brinquedos de Arbués Moreira. Desses tempos ficou-lhe o hábito de percorrer as igrejas e os antiquários de Londres. Ainda hoje Ana Moreira, mulher do coleccionador e directora do Museu do Brinquedo, reclama sempre que se proporciona uma viagem à capital britânica: “não vou a Londres contigo, és um chato, só queres visitar as igrejas!”. Arbués Moreira confirma, não que seja “um chato”, mas que dos anos de Inglaterra lhe ficou o hábito de explorar os cestos cheios de brinquedos oferecidos pelos paroquianos e que os pastores têm o costume de colocar à venda nas igrejas.
Anos mais tarde, em viagens a Paris com a avó, durante um mês negociava a sua companhia em desfiles de costureiros da época ou museus que o cansavam, em troca de incursões a locais que lhe despertavam bastante mais interesse. Ia então “às lojas, aos antiquários, ver se encontrava peças que mais ninguém tinha cá em Portugal”.
De casa para o Museu

Durante anos juntou peças em casa: “tinha um cão que ficava triste cada vez que eu trazia mais um brinquedo. Ficava a olhar para mim como se pensasse: este tipo é louco, um dia já não cabe mais. Tinha a casa de banho com barcos… parecia uma casa de doidos”, conta o engenheiro que, sendo sócio de clubes internacionais, tinha pedidos constantes de pessoas que pretendiam ver a colecção.
“O museu, as visitas guiadas, começaram em casa”, diz. “Uma das minhas filhas, professora de liceu, trazia os alunos. Depois eram as amigas que diziam: eu também queria. Até que um dia, perdi a cabeça e achei que tinha de fazer qualquer coisa.” O que fez o coleccionador “perder a cabeça” foi o facto de uma senhora francesa lhe pedir para levar um grupo de amigas para ver a colecção. Com a solicitude habitual, Arbués Moreira combinou um dia para a visita. Perante o atraso na hora, pediu ao filho que verificasse se havia alguém na rua, à espera: “ «Oh pai, está um autocarro cheio de gente lá em baixo!» Eram quarenta e tal senhoras. Impraticável, tantas pessoas para verem a casa, porque tinham mesmo de ver a casa. Estavam por todo o lado!” Nessa altura decidiu agir.
Se antes do casamento Ana Moreira não se interessava excepcionalmente por brinquedos, o marido “era tão interessado que ela não teve outra hipótese”. E foi já a dois que começaram a procurar um espaço que conseguisse albergar toda a colecção. A câmara Municipal de Évora fizera-lhes um convite mas a distância levou-os a declinar e a pensar num local mais próximo de Lisboa, onde pudessem estar sempre presentes. João sempre gostara muito de Sintra e resolveu escrever à câmara propondo-lhe a abertura de um museu. A proposta foi aceite e um espaço cedido mas, diz Ana Moreira, “era uma área muito pequena”.
Durante uma visita, Edite Estrela, ainda candidata à vereação, considerou que a colecção era demasiado importante para a vila, merecendo ser exibida num espaço maior. Pouco tempo após a sua eleição, a então presidente da câmara propôs fazer obras no antigo quartel dos bombeiros da vila e passar para aí todo o espólio. Aceite o novo espaço, é altura de mudanças. Por essa altura Arbués Moreira sofre um acidente vascular cerebral (AVC) e a sua memória ressente-se mas, estranhamente, sobre os seus brinquedos ele continua a saber tudo. Conta Ana Moreira que “a montagem do novo espaço foi toda assistida por ele. Na cadeira de rodas, até às 3 da manhã, com amigos e família a ajudar, dizia: este é aqui, aquele é com aqueloutro. Era ele quem sabia tudo.”
Com a simplicidade que o caracteriza, o coleccionador afirma: “sei o porquê de cada brinquedo que tenho”. E disso podemos nós atestar. Uma visita ao Museu, guiada e comentada por Arbués Moreira, é um acréscimo para a cultura geral de cada um. Tal como dizia o professor do miúdo, os brinquedos “representam a época em que são feitos”, e João usa de tal paixão na narrativa dos seus conhecimentos que o visitante é transportado na história e naturalmente convidado a entender a sociedade da altura.
Diz este homem que “os brinquedos não nascem por acaso, e os motivos do seu aparecimento interessam-me imenso”. Foi precisamente esta sua curiosidade sobre as peças que possui que o levou a procurar o motivo porque os brinquedos de folha ou madeira fabricados em Portugal eram habitualmente tão coloridos. Afinal, o que poderia pensar-se ser uma preocupação com o desenvolvimento perceptivo da criança, não passa de uma questão económica: “o fabricante deslocava-se junto dos fornecedores de tintas e comprava, a um preço mais baixo, as sobras da fábrica” que eram habitualmente as cores fortes.
Todos estes conhecimentos acabam por ser partilhados entre coleccionadores que mantm entre si uma rivalidade que Arbués Moreira classifica como saudável. “Ajudamo-nos todos uns aos outros”, diz, enquanto sorri perante a recordação das primeiras mostras de brinquedos em Lisboa, efectuadas num restaurante. “Depois do jantar, todos nós, alguns já velhotes, começávamos a abrir as malas, a tirar carrinhos, brinquedinhos, a discutir, e as pessoas admiradas, sem fazerem a mínima ideia do que se passava”. O coleccionador delicia-se com as situações provocadas por esta paixão. “A última vez que fui a Londres a uma dessas feiras era num hotel grande, com uns corredores enormes”, conta. “Ia no elevador com mais algumas pessoas que estavam hospedadas no hotel e entrou um americano com uma galinha de brincar que cacarejava e punha um ovo. As pessoas olhavam admiradas, mas o interessante foi quando chegámos ao 11º andar: os corredores estavam cheios de pessoas, algumas já com alguma idade, entretidas com brinquedinhos, no chão. Uma das senhoras olhou para mim e perguntou: «I’m in a hotel?»” Ri-se: “adoro estas coisas”.

Como se faz uma colecção

Com um público constituído por 52% de crianças e 48% de adultos, o Museu do Brinquedo tem patentes ao público cerca de 40.000 peças. Por falta de espaço, longe dos olhos dos visitantes, nas reservas estão mais 20.000. O critério escolhido para a exibição foi “o de expor aqueles que melhor mostram a história através do brinquedo”, explica Ana Moreira.
Incansável na procura de novas peças, sempre que se desloca ao estrangeiro Arbués Moreira tenta trazer mais um bocadinho de história para o seu Museu. Foi assim que, na Síria, lhe foram oferecidos, por um antiquário árabe, brinquedos romanos com dois mil anos. Também os amigos ajudam na demanda e a encontrar as mais almejadas peças para aumento do espólio. Sim, porque há brinquedos que, e Arbués Moreira não sabe explicar, “parece que todo o meu horizonte fica ali...eu preciso daquela peça”. Talvez o melhor exemplo deste estado de espírito seja um Ferrari, brinquedo muito raro, que a fábrica mandava fazer para oferecer aos seus melhores clientes. Conhecedor da vontade do coleccionador de possuir um destes exemplares, um amigo telefonou avisando-o de estar uma dessas peças à venda num antiquário em Milão. Arbués Moreira não perdeu tempo e no dia seguinte aterrou em Itália. Sobre o custo da peça fala como um menino envergonhado: “não posso dizer, foi uma fortuna. De tal maneira que a minha mulher, quando lhe disse o preço ao telefone, me perguntou: «compraste um Ferrari verdadeiro ou uma miniatura?» Os coleccionadores perdem a cabeça. Eu às vezes perco a cabeça”, diz, com um sorriso consciente mas garoto nos olhos.
Porém, não é apenas destas pequenas loucuras se tem vindo a constituir o espólio do Museu do Brinquedo. Muitas ofertas aqui chegam, sobretudo de bonecas, cujo conjunto faz as delícias essencialmente das meninas. Perante a estranheza de tão completa colecção levada a cabo por um homem, Arbués Moreira conta que, além das ofertas, grande parte dela provém das incursões às casas das suas próprias tias: ”Ia lá almoçar e, a seguir, ia ao sótão. A minha mulher costuma dizer que eu sou como os cães de caça. Olho para as malas e digo: «aquela tem brinquedos»“. E tinham, normalmente bonecas que, juntamente com outros brinquedos tradicionalmente femininos, hoje preenchem o terceiro piso do edifício.
Não é fácil enumerar todos os tipos de brinquedos que povoam o espaço. São três andares capazes de pôr a miudagem a sonhar. Desde os já mencionados brinquedos com dois mil anos ao recente astronauta, filhos, pais e netos encontram, seguramente, um brinquedo capaz de lhe prender a atenção.
Desta diversidade nascem pequenas histórias, como a de um judeu que se mostrou incapaz de conter as lágrimas ao reconhecer os soldadinhos iguais aos que ele próprio teria pintado durante a sua prisão nos campos de concentração nazis. Mais divertida, a conversa entre um casal, frente aos fogões de lata, e que Arbués Moreira recorda, divertido: “Oh António, lembras-te do que fazíamos com estes fogões? Lembro, tu tinhas a mania dos perus e, como não cabiam no forno, obrigavas-me a matar pardais e a depená-los para os assar no forno, a fingir que eram perus.” Depois também há aquelas pessoas que só tiveram um brinquedo na vida, feito por eles próprios, e que se emocionam ao vê-lo hoje colocado na parede de um museu.
A tudo isto assiste Arbués Moreira, o homem que considera os computadores e as consolas de jogos como o brinquedo mais representativo da época actual mas que fica horrorizado quando ouve os netos, à frente de um videojogo: “oh pá, tu és estúpido! Então estás a chocar com outro carro! Se atropelasses a velhinha com o bebé tinhas ganho mais pontos! isto põe-me louco”, diz. “Tento desviar-lhes a atenção para outras coisas”. E assuntos de interesse não lhe faltam.
É ternamente divertido este homem de 69 anos que, na sua cadeira de rodas, quando as crianças de visita ao Museu lhe perguntam porque não anda, responde com ar simpático: “Não ando porque não me dão corda.” E os miúdos, acabados de ver os brinquedos que se movimentam a corda, interrogam as professoras: “porque é que não dão corda àquele senhor?”. “Passo o dia divertido. Isso é que é importante”, remata.
Notícias Magazine #744 / 27.08.2006

amiga anorexia


Não é uma doença de modas ou de manias nem é exclusiva do género feminino. Enredados nas malhas da doença, os rapazes também são suas vítimas, sem diferenças, na deterioração sentida.


Enquanto a família se dispersava pelos seus afazeres, Sérgio ia para a escola. Sem comer. Quando voltava bastava-lhe mentir para justificar a aparente falta de apetite. Tinha comido na escola, dizia. Pegava então num iogurte e fechava-se no quarto, longe de olhares que pudessem descobrir a magreza que lhe tomava conta do corpo. Mantinha-se cheio de energia e o domínio que conservava sobre o seu físico mostrava-lhe que afinal era capaz de alguma coisa. Se alguém ousava dizer que algo ia mal, Sérgio reagia: “o que querem é que eu coma e perca o controle sobre mim, sobre a minha vida, sobre o meu corpo”.
Tudo começara uns tempos atrás. Sérgio nunca foi um miúdo magro. Na escola, o simples facto de o chamarem resvalava facilmente para a humilhação: era “o gordo”. Sentia-se o bobo da corte, o coitadinho, de quem ninguém gostava. Defendia-se tentando parecer extrovertido, imitando os outros. Nas aulas, lutava por boas notas, queria marcar a diferença e mostrar as suas capacidades. Porém, o esforço parecia não ser suficiente. Pelo menos para o pai, a quem as avaliações escolares nunca chegavam, ocupando-se a prever-lhe um futuro de insucesso. Sérgio não contestava. Nunca foi rapaz de reacção fácil diante dos outros e, em casa, interiorizar parecia-lhe a melhor defesa. Só anos mais tarde, a conselho médico, se permitiu pôr a contenção de lado.
O retrato familiar também não era pacífico. O alcoolismo e a prepotência do pai ajudavam a que os afectos da mãe fossem desde sempre canalizados essencialmente para o filho, enquanto os avós apoiavam a irmã. Sérgio sentia-se isolado, dono de uma responsabilidade que não queria para si, quando a mãe lhe dizia “estou com o teu pai por tua causa”. Acabou por ganhar uma certa prática em desconfiança: “nunca houve união e, se não havia confiança em casa, eu não podia funcionar bem com os outros”, afirma. Os médicos não escapavam a esta suspeita e o acompanhamento pelo endocrinologista deixou de fazer sentido para o jovem de 16 anos que se sentia mal sempre que o clínico o acusava de não se esforçar por perder peso entre duas consultas. Tratou ele mesmo de emagrecer, de mostrar que era capaz, começando a fazer uma dieta alucinada, sem qualquer tipo de acompanhamento, onde apenas os valores calóricos de cada alimento lhe interessavam. Sem se dar conta, estava refém de uma doença extremamente viciante e manipuladora, a anorexia nervosa. Passados 4 anos, mantém consultas regulares de psicoterapia e consegue manter um distanciamento da doença que lhe permite considerar-se curado.
“Quem não passa pela doença não a consegue perceber”, diz Sérgio. “Passei fome, muita fome.” Até no nome a anorexia nervosa é ambígua, porque nunca há uma perda de apetite mas antes uma vontade férrea de a controlar.
Considerada frequentemente como própria de raparigas a quem a vontade de obterem um corpo perfeito as levam ao emagrecimento excessivo, a anorexia nervosa é muito mais do que isso: “é uma doença psíquica, afectiva, emocional, com alterações cognitivas da avaliação da realidade, sempre presentes.” É assim que Dulce Bouça, psiquiatra, coordenadora das consultas de Doenças de Comportamento Alimentar (DCA) do Hospital de Santa Maria (HSM), em Lisboa, define a anorexia nervosa. Com uma incidência, a nível mundial, que oscila entre 0,5 e 1%, a relação de pessoas afectadas pertencentes ao sexo masculino é de um em cada dez, enquadrando-se Portugal nestes parâmetros. O motivo da disparidade dos números prende-se com factores diferenciados entre o homem e a mulher, como o são a constituição biológica, a relação com a alimentação, o metabolismo, o funcionamento hormonal e também com o facto de a pressão social e cultural para perder peso ser maior no género feminino do que no masculino.
Quando procuramos motivos para o surgimento da anorexia nervosa, verificamos que apenas se sabe tratar-se de uma doença multifactorial: “há factores genéticos, familiares, culturais, sociais, pessoais, da personalidade, e todos confluem para que a doença possa vir a surgir”, afirma Dulce Bouça. Acima de tudo é uma doença caracterizada pelo medo. Um medo intenso de ultrapassar os desafios da vida. O mesmo medo que pode levar algumas pessoas ao consumo de estupefacientes, pode também conduzir aqueles que têm padrões pessoais de auto-análise mais rígidos, pessoas muito rigorosas e muito adaptadas a cumprir os padrões sociais e familiares que lhes são propostos, a entrar num processo de anorexia nervosa. Com uma clara distorção cognitiva acerca de si mesmo, das suas capacidades e do seu desempenho ao longo da vida, o potencial anoréctico dá mais um passo em direcção à doença quando se ilude acerca do que uma restrição alimentar lhe pode oferecer. Sempre à procura de viver bem consigo e com os outros, ele crê que o controle exercido sobre o seu apetite e o seu próprio corpo lhe dará a sensação de bem-estar que busca. Entra então num processo de deterioração biológica que, habitualmente, se nega a ver e a aceitar.
Por mais baixo que seja o seu índice de massa corporal (IMC), de uma forma geral ou selectiva, o anoréctico continua a sentir-se gordo: “não me importava de engordar 10 quilos, desde que fosse nas pernas e nos braços”, diz Ricardo, “acho-me barrigudo.” A anorexia nervosa foi-lhe diagnosticada aos 16 anos. Aos 18, do seu historial clínico fazem parte um internamento de 4 meses no bloco de psiquiatria do HSM, muitas consultas de acompanhamento psicológico e de terapia familiar, porque é essencial ajudar as famílias a ultrapassar a doença.
Extrovertido e bem disposto, Ricardo ignorava quando alguém lhe dizia que devia fazer uma dieta. “Eu queria era comer!”, diz. Sentia-se bem consigo e o excesso de peso não o impedia de se dedicar ao seu desporto favorito, o futebol. Com a entrada na adolescência emagreceu um pouco mas o seu IMC mantinha-se elevado. Em campo, sentia que a sua velocidade e resistência podiam melhorar com a perda de alguns quilos, contudo, não era nada que o preocupasse em demasia. A entrada de um novo treinador na equipa de que fazia parte veio alterar o rumo dos acontecimentos. Habituado a fazer parte da equipa principal, Ricardo viu-se fora das 4 linhas, a correr, durante todo o tempo de jogo. O treinador “dizia-me que só voltava a jogar depois de perder uns quilitos”, recorda. Não lhe foi sugerida uma meta ou dada qualquer indicação nutricional. Emagrecer, só, era o imposto. O rapaz tomou a coisa à letra e perder peso tornou-se o único objectivo de vida. Não importava como o fazia mas apenas consegui-lo. Também ele não precisava de esconder ou deitar fora a comida. Uma mentira era-lhe suficiente para iludir a vigilância familiar: “comi na escola”. A verdade é que comera uma sopa ao almoço e repetira o repasto ao jantar, junto da família e, por maior magreza que apresentasse, recusava-se a aceitar o seu excesso.
Para Maria São José Tavares, médica de família e coordenadora do projecto Aparece, desportistas com projectos para a alta competição e bailarinos, “por serem áreas em que tem de haver um grande controle sobre o peso e sobre o corpo”, são dois dos grupos em relação aos quais é necessária uma atenção suplementar aos indícios de anorexia. Pelas características do Aparece, dando apoio técnico a todos os problemas da adolescência, Maria São José tem acesso a casos que podem ser tratados sem que se chegue à fase de doença declarada. Contudo, para que tal aconteça, é essencial que o clínico esteja muito atento. O corpo é habitualmente a principal preocupação de um adolescente e “é no corpo que tudo está projectado. Na forma como ele é alimentado podemos avaliar sinais de desequilíbrio, da relação com o alimento, ou podemos suspeitar de relações de conflito com a alimentação, que não são ainda doença.” Mas esta detecção pode ser morosa e é necessário que o médico disponha de tempo que o nosso Serviço Nacional de Saúde não concede, além do facto de muitos dos jovens, essencialmente os rapazes, serem pouco dados a procurar ajuda. É aqui que o papel da família se torna mais importante. Para a técnica de saúde, “refeições que não são tomadas em família permitem que os adolescentes possam ter comportamentos alimentares que fujam à observação dos pais”. Muitas vezes esses comportamentos duram meses ou anos sem que os familiares os notem.
Sérgio e Ricardo passaram a isolar-se, a diminuir as hipóteses de que alguém reparasse na magreza dos seus corpos. Muitos escondem-nos sob roupas largas e chega a haver quem utilize pedras nos bolsos, quando obrigado a pesar-se periodicamente. Os jovens adoptam comportamentos em que se protegem de que alguém os veja, o que faz com que a situação progrida muitas vezes em silêncio. Sendo características destas pessoas a inteligência, e a obsessão em relação ao que pretendem atingir, não parece difícil que consigam iludir a vigilância familiar. Contudo esta não é uma doença cujo único tratamento consista em fazer a pessoa comer. É necessário que os sentimentos sejam trabalhados: “quando estão em situação de anorexia nervosa, os jovens são tão contidos com os afectos como com a alimentação”, diz Maria São José. A desconfiança em relação ao mundo instala-se. Sérgio e Ricardo ainda hoje têm dificuldade em confiar. Testam as famílias na hora de pôr a comida no prato. O pensamento diz-lhes que “eles querem que eu coma, coma e não pare” e é necessário averiguar “se o que querem é mesmo cumprir com o que deve ser feito, a quantidade ideal”, recomendada pelos médicos, para que seja obtida a reposição gradual dos valores calóricos ingeridos ao longo do dia. Ricardo só confia na mãe: “ela preocupou-se em tentar saber um pouco mais sobre a doença. Sérgio mantém a distância familiar, esqueceu as amizades antigas para abrir uma página nova da sua vida, onde as comparações com o que era anteriormente não sejam possíveis. Deixou de lutar por notas altas, enfrenta os problemas conforme eles lhe surgem. Ricardo esqueceu a carreira de futebolista mas mantém a esperança no seu sucesso pessoal em qualquer área ligada ao desporto.
Promover uma sociedade mais tolerante em relação às diferenças individuais, criar hábitos de convívio familiar salientando a importância do equilíbrio entre o aspecto emocional e físico das nossas crianças parece ser uma forma de gerarmos adolescentes saudáveis.

Contactos úteis:

AFAAB - Associação dos Familiares e Amigos dos Anorécticos e Bulímicos
Telefones – 21 432 19 67 (Lisboa) e 22 200 00 42 (Porto)
E-mail - afaab@ip.pt

APARECE - Centro de Atendimento a Adolescentes
R. Buenos Aires, nº 27, rc/dtº
1220-622 Lisboa
Telefones: Geral - 21 393 24 70
Atendimento a adolescentes - 213932477
E-mail: aparece_caa@yahoo.com ou aparece@oninet.pt

Centro SOS Voz Amiga - 800 202 669
Dias úteis, das 12h às 24h

Linha SOS Adolescente - 800 202 484
Dias úteis, das 10h às 13h e das 14h às 18h

Núcleo de Doenças do Comportamento Alimentar
Rua Sousa Lopes, 63-C
1600-207 Lisboa
Telefone - 217 972 110
E-mail - ndca@comportamentoalimentar.pt

Consultas hospitalares:

Hospital de Santa Maria
Núcleo de Doenças do Comportamento Alimentar
Av. Prof. Egas Moniz
1699-035 Lisboa
Telefone Geral - 217 805 000

Hospital da Universidade de Coimbra - Serviço de Psiquiatria
Consulta de Distúrbios Alimentares
Av. Bissaya Barreto
3000-075 Coimbra
Telefone Geral - 239400400/ 239400500
Linha Azul - 239827446

Hospital de S. João - Serviço de Psiquiatria
Núcleo de Doenças do Comportamento Alimentar
Av. Prof Hernâni Monteiro
4200-319 Porto
Telefone Geral - 225 512 100
Linha Azul - 225 096 093
Sábado #121 - 24.08.2006

serras de sal


Já lhe chamaram “ouro branco”. Constituía na altura a principal riqueza do concelho e participar na sua extracção era das poucas profissões possíveis para os homens de Alcochete. No verão, quando os campos pediam menos cuidados, eles encaminhavam-se para alguma das muitas marinhas que a região, encostada ao Tejo, oferecia. Hoje só as salinas do Brito se mantêm em laboração, fruto da persistente vontade de manter viva a tradição.

A estrada é silenciosa, àquela hora. Alcochete ainda dorme, envolta pelo brilho típico das povoações ribeirinhas. Seguindo um pouco para oeste, perde-se de vista o rio e o cheiro a maresia. Às portas do Samouco, uma quase imperceptível placa de madeira indica a direcção do Museu do Sal.
A via, sinuosa, tem a largura para que passe apenas uma camioneta, não mais. Ervas altas e sombras de construções abandonadas marcam a paisagem deserta. Repentinamente a estrada alarga em bermas de terra batida. É ali o Museu do Sal vivo e dinâmico, situado nas salinas pertença da Fundação João Gonçalves Júnior (FJGJ).
O portão já está aberto. Do interior do armazém saem vozes masculinas. Fala-se das notícias do dia anterior enquanto se espera um laivo de luz. Quando o céu se torna menos escuro e já é possível distinguir as silhuetas dos homens, alguém dá voz de partida: “bem, vamos lá?". Chegaram a ultrapassar as cinco dezenas, hoje contam-se num olhar: oito homens. “Muito deste sal não vou sequer rapá-lo, não tenho pessoal que chegue”, diz Manuel Nicolau, o marnoteiro das salinas do Brito.
Passo firme, encaminham-se cada um para a sua ocupação. As pás ficaram na talharia, desde o dia anterior. É necessário ver a graduação da água, transpô-la do viveiro para a caldeira de moirar. Pequenos montes de sal reflectem o tom róseo do amanhecer, os pés deslocam-se cuidadosa e lentamente para não estragar o cozimento do terreno. Enquanto a máquina de fresar percorre o talho, partindo o sal, preparando-o para a rapadura, retiram-se as impurezas para as barachas e rapa-se.

O princípio do sal


A extracção do sal já foi a actividade com maior peso na economia da região. Como começou não se sabe ao certo. De seguro, apenas as narrativas de cronistas dos últimos reinados da dinastia de Borgonha que mencionam, já nessa época, a exportação de sal, levando mesmo alguns a pensar que foram as condições excepcionais para a safra do mineral que originaram o nascimento da vila de Alcochete. Em meados do séc. XX, a instalação de fábricas de secagem de bacalhau da Terra Nova deram o maior incremento à actividade, chegando Alcochete a ser o maior centro nacional de secagem e preparação de bacalhau.
Estima-se que nessa altura a safra do sal empregasse cerca de 1200 alcochetanos que se dividiam entre a agricultura, no Inverno, e o trabalho nas salinas, no Verão. Aliado ao trabalho nas marinhas, estavam os carregos de bacalhau e sal de e para as fragatas que faziam o transporte entre a vila e os barcos atracados em Lisboa. Não é difícil encontrar em Alcochete quem, com idade superior a 50 anos, não recorde esses tempos que, afirmam, “eram complicados”. É que, apesar de depender dos salineiros o bom resultado da safra, durante quase uma década os seus ordenados mantiveram-se nos trinta escudos de jorna diária, embora o preço do moio de sal tivesse subido, no mesmo período, dos cinquenta para os oitocentos escudos, motivo pelo qual os salineiros de Aveiro e de Setúbal ganhavam quase o dobro do que auferiam os homens da beira-Tejo. Esta situação e o facto de os proprietários das salinas, com o pretexto das quebras havidas entre as correrias dos trabalhadores em direcção às barachas, pretenderem gradualmente aumentar o número de canastras por moio de quinze para dezoito, acabou por se tornar insustentável para o salineiro que, conta feita, no fim da semana tinha dado um dia de trabalho ao patrão. Em 1957, o descontentamento estava instalado, degenerando numa paralisação geral que a maior parte dos patrões se recusaram a resolver com negociações, antes apelando à intervenção da polícia. Como relembra João, filho de um salineiro, “alguns andaram fugidos dias e noites pela charneca e não foram apanhados. Outros foram presos, levados para o Aljube, e lá estiveram uma série de dias.” Esses homens, com o estigma de grevistas, não voltaram a ser aceites em qualquer salina. “Foram tempos difíceis”, continua João, “As famílias sobreviveram, com a ajuda da igreja, do padre Francisco Ferreira, que lhes dava alguns bens essenciais”.
Quando as coisas acalmaram, dar algumas indústrias ao concelho tornou-se quase ponto de honra para uns tantos homens influentes. Alcochete viu então nascer a Firestone, a Fábrica do Alumínio, e a Ormis, hoje Crown Cork & Seal Portugal que, conta José Navarro, o presidente da FJGJ, vieram “oferecer às pessoas uma vida mais estabilizada. Trabalhar numa fábrica durante doze meses é diferente de ter um emprego sazonal numa salina”.
Desses tempos fala-nos também a memória octogenária de Manuel Nicolau: “antigamente isto era uma terra de miséria. Após a greve, ao pé da ponte do cais, havia um mastro de um barco para onde os homens iam logo de manhãzinha, à espera que os chamassem para algum trabalho. Passavam dias sem ganhar um tostão.” Quando surgiram as fábricas, a escolha não foi difícil: “pagavam bons ordenados e deram emprego a todo o pessoal de Alcochete”.

Com falta de mão-de-obra, o declínio da exploração do sal anunciava-se lentamente. A este factor vieram juntar-se a concorrência estrangeira do mineral colocado no mercado a preços mais baixos, o encerramento das salgas de bacalhau na região e a decadência da indústria conserveira nacional.
Neste contexto, não parece pois estranho que as salinas a sul do Tejo tenham atingido o estado de abandono hoje observável. Contudo, e como diz José Navarro, presidente da FJGJ de 2002 a 2005, “a safra do sal, pela grande importância económica e cultural que teve para Alcochete, deve ser entendida como uma tradição”. E é aqui que surge o protocolo assinado entre a FJGJ e a câmara municipal de Alcochete no sentido de criar o Museu do Sal que constitui não apenas um depósito de memórias mas antes uma comemoração viva e dinâmica ao que foi a actividade na região. De inconveniente, apenas o facto de estar mais vocacionado para visitas de grupo
Porém, no que toca à precariedade do trabalho dos salineiros, pouco mudou através dos tempos. Os seus empregos continuam a ser sazonais e sem qualquer tipo de contrato que os obrigue ou que os proteja. Ainda nas palavras de José Navarro, “Podíamos fazer um contrato de três meses mas as pessoas não estão disponíveis para trabalhar três meses”. Se é um facto que, das várias visitas às salinas, quase sempre havia desaparecido uma cara para dar lugar a outra, parece também importante dizer que, embora a faina esteja parcialmente mecanizada e o salineiro já não transporte às costas as canastras de sal, os horários e o trabalho necessário demonstram-se duros para a remuneração de quinze euros diários, uma vez que continuam a receber à jorna.
Das 6:00 às 13:00, estes homens andam no cimo das serras de sal ou dentro de água salgada, sob o sol do verão reflectido pela brancura dos cristais. Segundo os escritos, a temperatura no interior dos talhos chega a atingir os 50º. Fernando, de pele tisnada, brinca com a situação “nem na praia, eu conseguia um bronze destes”. A nudez dos pés foi, na maior parte dos casos, substituída por calçado carcomido pela salinidade da talharia porque, como diz Jorge, “qualquer ferida feita pelo sal dói e demora a sarar, por isso evitamo-las”. A partir de Setembro o horário amansa e a entrada faz-se às 7:00, sendo já possível trabalhar sob o sol mais fraco, até às 16:00. Mas com as chuvas, lá para meados ou fins de Outubro, dependendo da graça dos céus, a sombra da desocupação volta à vida destes homens, cujas jornas não deram para amealhar sobrevivência sequer para os primeiros meses de desemprego. Em Maio regressam, talvez os mesmos, entre os mais velhos, e para complemento de reformas, outros, quando mais novos e à procura de uma vida mais estável.
Mas, apesar de todas as dificuldades, a FJGJ e a câmara Municipal de Alcochete não baixam os braços e prosseguem. No sentido de fomentar a continuidade das salinas, e apesar de a sua existência se limitar ainda ao papel, ponderam-se dois projectos. Um com vista à estão neste momento a ser efectuadas análises com vista a permitir a criação de uma marca certificada de sal biológico e, o segundo, que se prende com a . Ainda na sequência de manutenção dos costumes, está a ser estudado o desenvolvimento de um projecto de agricultura, também ela biológica, retomando a fava dos muros, tradicional na região pelo seu sabor característico.
De passo em passo, a tradição mantém-se. De inconveniente, o facto de as visitas ao Museu do Sal estarem absolutamente dependentes dos Serviços Educativos da Câmara e apenas vocacionadas para grupos, em horário laboral. Mas, se lhe apetecer arriscar, durante os meses de Verão, de segunda a sexta, das 6:00 às 13:00, as portas estão abertas.

Pãezinhos de sal

Os pãezinhos de sal podem ser vistos no Museu do Sal e no Museu Municipal de Alcochete mas sobre a origem ninguém sabe esclarecer. Manuel Nicolau, o último marnoteiro no activo da região, apenas se recorda de sempre os ter visto fazer. Tal como os mestres de marinha de antigamente, tem um jogo de formas que também ele utiliza. As formas, que podem ter um aspecto triangular ou quadrangular, eram feitas de bocados de madeira com desenhos invertidos feitos a lápis, esculpidos a canivete e, posteriormente, alisados com cacos de vidro.
Escorrido o sal de embate, ele é calcado dentro das formas que, depois de abertas, permitem observar nos pãezinhos a meticulosidade com que foram elaboradas.


Glossário:
Baracha – muros de defesa, construídos com o desaterro;
Caldeira de moirar – reservatório que pode servir de reserva para os talhos ou produzir sal. Se a água não tiver graduação (salsugem) bastante, serve como reserva;
Cozimento – tapete de algas. Cobre apenas as caldeiras de moirar e a talharia;
Marnoteiro – operário encarregue da marinha;
Moio – cerca de 840 litros de sal, 15 canastras a 56 litros cada;
Rapar – puxar e juntar o sal em pequenos montes para escorrer antes de ser colocado na serra;
Rasa – primeira colheita que se efectua debaixo de uma camada de água, com rodos;
Sal de embate – cristaliza nas águas remexidas pelo vento (móveis), sendo sempre sal fino, macio e com mais goma o que, quando utilizado no fabrico dos pãezinhos de sal, permite que estes não se desfaçam;
Serra – é formada pelo sal das diversas rasas, antigamente transportado à cabeça em canastras. Em Alcochete é coberta com junco e palha-carga, também chamada palha de paul;
Talharia – conjunto dos vários talhos;
Talho – rectângulo de terreno escavado onde o sal cristaliza;
Viveiro – encontra-se na parte mais elevada da marinha de forma a poder encher-se na preia-mar e despejar na baixa-mar. Comunica com o Tejo por uma porta de água aberta na baracha, que se abre e fecha através de um postigo de madeira. Tem capacidade para alimentar a marinha por quinze dias ou um mês.


Notícias Magazine # 740 - 30 .07.2006

ver futebol em grande

Ganhou prémios, medalhas, chamou a atenção das grandes marcas do mercado e é fruto da criatividade e persistência de um português. É o ecrã mais conceituado a nível mundial.

É verão, é futebol, é Mundial. Portugal avança nas etapas, a situação é empolgante e, na impossibilidade de uma deslocação à Alemanha, ver cada jogo, vibrar com cada lance é muito mais emotivo em grupo. Já experimentou, não foi? Já foi até àquela esplanada, onde viu o último jogo num ecrã, colocado ali mesmo, à luz do dia. Pois é, viu mas talvez não se tenha interrogado sobre a qualidade da superfície que lhe devolveu as imagens do estádio. Esteve provavelmente a olhar para o melhor ecrã do mundo mas não, não vem do Japão. É bem português e idealizado por um arquitecto de 52 anos.
O Lusoscreen, assim se chama o ecrã que ameaça tomar conta dos bares, locais públicos, e alguns lares, nasceu para consumo próprio. Há cerca de 12 anos Joaquim Candeias, apaixonado pela imagem, decidiu que havia de ver cinema de qualidade em casa sem interditar a sala ao resto da família. Começou então a desenvolver um ecrã com tal luminosidade que lhe permitia ver a projecção sem que a luz existente à volta interferisse na qualidade da imagem. Em 1996 levou a sua criação até à Cebit-Home, em Hannover, onde foi considerado Grande Inovação e, em 1997, foi medalhado a ouro no Salão Mundial de Invenções de Genebra. Trouxe encomendas, entusiasmou-se e com bons motivos: a sua obra projectava 26 vezes mais luz que o comum dos ecrãs e o dobro do seu mais directo seguidor, um americano que se fica pelas 13,2 vezes mais luz que um ecrã normal. No que toca ao contraste, mais uma vez o Lusoscreen bate, agora por K.O., o adversário americano. São 359 vezes mais de contraste, do português, contra as 13,2 vezes para o produto dos Estado Unidos.
Chegada ao conhecimento da Sanyo japonesa a existência deste líder de qualidade, a empresa pôs o seu vice-presidente a voar para Portugal com a intenção de adquirir os direitos de produção. Contudo, as condições do contrato sugerido pelo gigante da tecnologia da imagem não agradaram a Joaquim Candeias que arriscou a produção própria. Encomendas já tinha, o pior era a obtenção das matérias-primas transformadas de acordo com aquilo de que necessitava para produzir em série. Porém, Candeias não baixou os braços. Dois anos após a encomenda, entregou o primeiro ecrã ao cliente alemão que lhe tinha pedido vários. Foi paciente o germânico e persistente o português, que concluiu toda a requisição passados uns tempos.
Pela qualidade inigualável, o próprio ecrã foi fazendo a sua publicidade. Desde a pequena garagem, onde foi iniciada a sua produção, até à fábrica, hoje situada nos Olhos d’Água, em Palmela, passaram-se sete anos e é com comedido orgulho que Joaquim Candeias menciona o facto dos seus ecrãs estarem em locais como a Organização das Nações Unidas ou Festival de Cinema de Locarno. Portugal ainda é o principal consumidor dos Lusoscreen mas a exportação marca também pontos, com a Alemanha e Angola a liderarem a lista de clientes estrangeiros.
Durante um ano normal, a empresa equipa bares e cafés, preocupados em cativar a clientela através da imagem, ou escolas e locais promotores de conferências, além de alugar equipamentos para situações pontuais. Já em anos como 2006, em que o futebol é rei, as vendas e alugueres disparam e a produção torna-se insuficiente, mas o ex-arquitecto tenciona continuar a ampliar as capacidades da fábrica, até porque insiste em dar azo à sua imaginação e passou a desenvolver um sistema de cinema em casa, com o intuito de alcançar aquele público que gosta de aliar a qualidade da projecção à estética da decoração. É o senhor que se segue.
Sábado #115 - 13.07.2006

avós da modernidade

Numa sociedade em constante crescimento tecnológico, elas vêm falar da natureza e essencialmente das capacidades inatas do sexo feminino. A palavra que as designa provém etimologicamente do grego e significa “a mulher que ajuda”. Doulas, aquelas que se dispõem a tornar a gravidez e o parto, mais do que actos médicos, no reencontro da força humana contida na mulher. Elas são as avós da modernidade no apoio que dão às mães, futuras e recentes.

Há mulheres que vêem no parto momentos dolorosos e difíceis de suportar. Pelo contrário, outras encontram nele a continuação do acto de amor que lhe deu origem, nove meses atrás. É inegável que cada uma terá a sua forma de sentir o momento do nascimento dos seus filhos, influenciadas pelos mais diversos factores. Porém é notório que quando a sociedade tenta retratar o momento do parto, nomeadamente através do cinema, fá-lo frequentemente recorrendo aos gritos de dor incontida. Visualmente, a narração é feita através de movimentações nervosas mas imperativas da equipa médica e expressão agitada da parturiente. Por outro lado, se pensarmos num sentido mais restrito, limitando a comunicação às narrativas das experiências pessoais de cada mulher, são constantes as histórias de momentos dolorosamente suportados.
Se há alguns anos a sociedade estava estruturada de forma a poder facultar à grávida todo um apoio baseado na experiência de mulheres mais velhas, capazes de dar alento à futura mãe, essencialmente o fenómeno urbano fez com que essa organização se desintegrasse dando lugar a um sistema edificado sobre práticas muito mais tecnológicas. O acto médico passou a sobrepor-se à naturalidade do estado de gravidez e também para o momento do parto a medicina já encontrou fáceis e práticas soluções. Partos induzidos, epidurais e cesarianas são frequentes nos nossos hospitais e naturalmente aceites por grande parte das grávidas. Convenhamos que é compreensível – entre tanta narrativa medonha, é difícil resistir imune à sensação de sofrimento generalizado. Porém, se esta é a tendência da sociedade moderna, é também o que as doulas pretendem inverter, prestando à futura mãe todo um apoio, baseado em experiência e informação fundamentada em evidências científicas.

O nascimento das doulas em Portugal

A Associação Doulas de Portugal (ADP) nasce de uma situação de fragilidade extrema sentida por Luísa Condeço. Era a sua primeira gravidez e considerava-se uma pessoa informada. Como muitas das mulheres modernas, fez preparação para o parto, leu revistas, livros. Mensalmente ia às consultas de rotina, fez todas as ecografias que o médico exigiu, permitiu que este lhe marcasse uma data para indução do parto. “Foi uma violência, o que fiz”, comenta. “O meu filho não estava preparado para nascer”. A esta violência, que ela hoje reconhece, juntou-se uma cesariana, única saída possível para um trabalho de parto que acabou por se precipitar da forma menos desejada, em que mãe e filho correram riscos de vida. A quantas mulheres consegue corresponder este retrato?
Luísa sentia-se incapaz, maltratada, culpada por ter aceite as sugestões do médico, agido de forma errada. Com uma depressão pós parto em mãos, pegou no filho, numa mala com roupa e foi procurar a companhia de Carla Guiomar. Mulher, amiga, confidente, também ela mãe e capaz de entender tudo aquilo porque Luísa estava a passar, Carla tinha acabado de receber um livro, em inglês, que falava sobre parto humanizado. Luísa sorveu-lhe as letras e no final ficou-lhe um desejo: traduzi-lo e divulgá-lo. Nenhuma mulher deveria passar por aquilo que ela mesma acabara de experimentar e, acredita, a informação é o melhor meio de lutar contra os erros instituídos.
Começou por criar a Companhia das Mães, através da qual recebia mulheres grávidas, com quem conversava e trocava experiências. Ligou-se à Internet, entrou em listas de discussão, continuou a ler e a aprofundar conhecimentos. Michel Odent, obstetra e cirurgião, o autor do livro que lhe despoletara a certeza de que a forma como a sua gravidez decorrera e culminara não era a única possível, continuava a ser a sua principal fonte de convicção. Assim que teve oportunidade, e levada por Carla Guiomar, foi a Londres fazer um curso com “o Mestre” e Liliana Lammers. Regressaram cada vez mais seguras das suas certezas sobre a importância da atitude da mulher durante a gravidez e parto e da desnecessidade de muitos dos actos médicos a que esta é submetida durante a gestação e puerpério. Tamanha convicção precisava de um escape, de actuação. Criaram um blog, começaram a ser contactadas por mulheres que pretendiam mais informação, nasceu uma lista de discussão na internet. Estava lançado o embrião para a ADP que, desde Setembro de 2004, tem vindo a crescer, afirmando lentamente a sua luta pela humanização do parto e pelo direito da mulher escolher de forma consciente que tipo de nascimento quer para o seu filho. E por humanização do parto, seja ele domiciliário ou hospitalar, entende-se que este se processe de uma forma segura, isenta de riscos desnecessários, mas onde também estejam ausentes as intervenções médicas supérfluas que, instituídas mais por uma questão de hábito do que por necessidade, em nada beneficiam a mãe ou o filho.

Mudar a forma como se nasce

Em países como Inglaterra e Brasil a actividade das doulas é já sobejamente reconhecida como profissão. Em Portugal as coisas decorrem ainda lentamente. Luísa Condeço e Carla Guiomar foram as primeiras a abraçar e aplicar o conceito de doula por terras lusas. Com a criação da ADP, sempre acompanhadas e apoiadas por Michel Odent, desenvolveram uma estrutura capaz de dar formação a pessoas interessadas em exercer a actividade, alargando a sua actuação a todo o país. Quando alguém pretende obter o serviço de uma doula na sua área de residência, é feito um primeiro contacto para a ADP que faculta uma lista de pessoas, devidamente atestadas, com as quais é possível marcar um primeiro encontro. Esta primeira reunião, sempre gratuita, tem por finalidade permitir que seja encontrada a doula com quem a futura mãe sinta maior nível de empatia, essencial para que o trabalho posterior resulte. Hoje, a nível nacional, o número de mulheres certificadas como doulas já ascende a cinquenta e, apesar do seu crescimento enquanto grupo de actividade, os princípios pelos quais se regem mantêm-se inalteráveis. Baseando-se em evidências científicas e nas orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS), transmitem à grávida toda a informação de que esta sinta necessidade. Como afirma Luísa Condeço, “uma doula nunca deixa uma mãe com dúvidas. Pode até não saber imediatamente a resposta para a questão que lhe é colocada, mas vai à procura, utilizando todas as fontes que tem disponíveis”. E estas fontes, além de documentos fidedignos, incluem médicos, psicólogos entre outros profissionais ligados à área da saúde.
Manter a mulher num estado de serenidade absoluta é o ponto fulcral da actuação das doulas que evitam e tentam desmistificar todas as situações que possam ser causadoras de ansiedade, estado que, esclarece Luísa, “leva a que a futura mãe liberte, entre outras, uma hormona, o cortisol, inibidora do desenvolvimento fetal”. Ela acredita profundamente “que o período pré-natal seja muito mental. Trata-se de um processo fisiológico, tal como é a digestão. Nós não pensamos na digestão, confiamos que ela aconteça. De vez em quando pode haver qualquer coisa a correr mal. A gravidez e o parto são processos mais elaborados do que uma digestão mas igualmente fisiológicos”.
Este pressuposto de naturalidade do estado de gestação trata-se do ponto de partida para o trabalho das doulas que acreditam na capacidade inata da mulher parir, afinal “fazemo-lo há milhares de anos”, afirma Luísa. Não pretendem retirar importância ao acto médico e menos ainda substituírem-se aos clínicos ou a qualquer profissional de saúde mas exortam as mulheres a ouvir a linguagem do seu próprio corpo, a confiarem mais em si mesmas, na sua intuição, a questionarem os hábitos instituídos que se mostram verdadeiras situações de violência para mãe e filho. Entre eles estão a rapagem da zona púbica da mulher, os clisteres que lhe são ministrados antes do parto, a episiotomia, a impossibilidade de a parturiente se movimentar livremente, a obrigatoriedade de parir deitada e até a monitorização constante através da cardiotocografia (CTG).
Todos estes actos vão contra as necessidades básicas da mulher que afinal de contas são mínimas. “Para dar à luz, a mulher não necessita mais do que uma cama baixa, um ambiente calmo, privacidade, luz suave e liberdade de movimentos”, afirma Luísa que explica o motivo de desacordo com os actos implícitos à maior parte dos partos ocorridos em ambiente hospitalar: “a rapagem mais não é do que uma forma de facilitar que seja feita a costura após a episiotomia que, por sua vez, habitualmente só é necessária por a mulher parir na posição horizontal, aquela que é mais propícia à equipa médica.” No que diz respeito aos clisteres ministrados, eles tornam-se supérfluos se não for imposto à parturiente que se deite, diminuindo assim substancialmente os riscos de sujar a equipa médica. Além disso, o corpo da mulher começa a preparar-se para o trabalho de parto com a antecedência de alguns dias, processando-se uma depuração natural dos intestinos. Quanto à ligação ao CTG, diz Luísa, “uma mãe sabe naturalmente que o seu bebé está vivo porque se mexe, mas não tem habitualmente consciência dos batimentos cardíacos dado que não os ouve. Na altura do trabalho de parto, ligada ao CTG, ela está constantemente a ouvi-los, tornam-se reais, entram na zona do neocortex, que é a zonal racional do cérebro, e aquela mulher tem a adrenalina sempre em cima.” E nestas coisas de hormonas é importante ter em conta alguns conceitos básicos. Ao libertar adrenalina, o corpo inibe-se de produzir oxitocina que, não chegando ao hipotálamo, limita também a produção de endorcinas, as anestesias naturais, tornando o trabalho de parto mais doloroso.
Ainda no campo das hormonas, e tentando explicar como um único procedimento desnecessário pode trazer por arrasto a urgência de outros anteriormente supérfluos, Luísa Condeço salienta o facto de, nos casos de indução do parto, ser ministrada à parturiente oxitocina artificial. Perante o facto de o hipotálamo se encontrar naturalmente protegido contra químicos artificiais, este tipo de oxitocina não penetra na zona do neocortex que, não sendo estimulado, também não liberta as desejáveis endorcinas. Daqui nasce muitas vezes a necessidade que a parturiente sente da aplicação da epidural que, por sua vez, retira à mulher sensibilidade no momento da expulsão, acabando por dar fundamento à episiotomia.
Também o elevado número de cesarianas praticadas em Portugal é questionado pelas doulas que consideram ser muitas delas desnecessárias. Afinal a cesariana é um acto cirúrgico apenas justificável por situações de risco para a mãe ou filho. Outra situação, esta mais passível de ser contestada, está na relação directa entre a percentagem de cesarianas efectuadas e os índices de criminalidade. Michel Odent costuma referenciá-lo, conta Luísa: “em tom de brincadeira ele diz que, quando viaja para determinado país e quer saber se pode sair à noite, vai analisar as taxas de cesarianas efectuadas nesse território nos últimos 20 anos”. Se o facto pode merecer alguns sorrisos, a realidade é que em cidades como o Rio de Janeiro, onde a criminalidade está em crescendo, as taxas de cesariana são altíssimas, ao contrário, por exemplo, de Amesterdão que tende cada vez mais para o parto humanizado, com um mínimo indispensável de intervenções cirúrgicas.
Apesar da autenticidade desta analogia estar por comprovar, cabe aqui a provocação de querer saber se pretendem mudar a sociedade. É Lia, também ela doula e mãe de um filho, quem responde “a sociedade não, só a maneira como se nasce.” E nada de confusões, não se pense que defendem apenas o parto natural. Como afirma Carla Guiomar, “parto humanizado é aquele que respeita a mulher como protagonista desse evento, como alguém com o direito humano de escolher em consciência a forma como quer trazer os seus filhos ao mundo.” Além do mais, acredita que “nenhuma mulher vai escolher conscientemente uma forma de ter uma criança que não considere a mais segura para si e para o seu filho. O que acontece é que muitas vezes as aparentes escolhas das mulheres não foram realmente feitas por elas ou, pelo menos, não foram feitas em posse da melhor informação.” Neste sentido, as doulas não se limitam a contestar pelo simples acto da refutação: “aquilo em que devemos apostar é na informação, na educação, na consciencialização e auto-responsabilização das mulheres, acreditando que elas vão fazer a melhor escolha para o seu caso. No final a opção é de cada mulher e isso tem que ser respeitado. Uma doula apoia sempre uma decisão tomada em consciência e não faz qualquer julgamento de valor”.

Passos curtos mas seguros

O facto de, na sua actuação, se basearem em evidências científicas, estudos elaborados por investigadores, faz com que sintam a certeza de caminharem na direcção correcta. Aos que as acusam de “prosélitas do passado” por defenderem a pacatez do parto domiciliar, para muitos anterior causa de mortalidade materno-infantil, e apontarem como desnecessários a maioria dos actos médicos executados durante o período de parto, Luísa Condeço responde que “boa parte dessas mortes se deviam à má alimentação, à total ausência de água potável, saneamento básico e medidas simples de higiene, entre outros. A mortalidade baixou exactamente porque todos estes aspectos da vida humana foram implementados e melhorados e não simplesmente porque o local do parto passou de casa para o hospital. Isto é uma evidência científica”.
Nas palavras de Rita Correia, doula e mãe de 5 filhos, “o que tem surgido no nosso país é um número crescente de mulheres conscientes e seguras da sua condição, que preferem ficar no aconchego das suas casas na altura simbólica e absolutamente marcante do nascimento dos seus filhos.” Para esta doula, “essas mulheres têm o direito a serem respeitadas nas suas decisões conscientes, e acompanhadas dignamente por uma enfermeira ou um médico obstetras, se assim o entenderem, que encare a sua opção com a mesma naturalidade com que olham as mulheres que vão ao hospital ter os seus filhos.”
É pois pelo direito à informação generalizada, partindo do próprio corpo clínico, que estas mulheres se batem. Não defendem, como muitos erradamente pensam, uma total desmedicalização do parto e um absoluto "retorno às origens" do nascer em casa. Advogam, isso sim, que a mulher tem há milhares de anos uma capacidade inata, que é parir. Tendo esta aptidão vindo a ser ignorada sob o estonteante crescimento tecnológico da sociedade, torna-se então necessário que o género feminino reaprenda a escutar e interpretar o seu corpo, sobretudo no que diz respeito à maternidade.
"O acto de parir é natural e instintivo"

Deolinda Major é enfermeira obstetra e presta serviço nos hospitais do Barreiro, Vila Franca de Xira e Amadora-Sintra. Com toda a sua equipa, ela é apontada como um exemplo de profissional que actua de acordo com os pressupostos de um parto humanizado.Prefere não emitir opinião sobre o trabalho das doulas dado que, como diz, “apenas assisti uma parturiente que vinha acompanhada por uma doula”. Contudo, e apesar do desconhecimento sobre as convicções destas mulheres, a convergência de ideias é notória quando afirma que “o acto de parir é natural e instintivo”, ou quando menciona o facto de, na sala de partos, baixar o seu tom de voz e trabalhar na obscuridade por achar que “as mulheres ficam muito mais calmas”. Para esta enfermeira, especializada em obstetrícia há 17 anos, “não é suficiente humanizarmos os espaços físicos onde as crianças nascem, é necessário que humanizemos também as equipas que lidam com nascimentos. E quando falo em humanizar é dar oportunidade à mulher de se manifestar como ela bem entender.” De tal forma que já teve situações em que as mulheres quiseram dar à luz de cócoras. A influência que até hoje transporta para a sua profissão vem-lhe da sua própria experiência como parturiente, aquando do nascimento do seu primeiro filho: “fui mãe muito jovem e fui muito bem tratada. Não fiquei nada traumatizada, porque a enfermeira que me assistiu foi extremamente carinhosa. Talvez por isso ela continue a ser o meu ponto de referência na profissão”.

Notícias Magazine # 735 - 25.07.2006

"não deixe a peteca cair"


No Brasil, dizer: “não deixe a peteca cair” pode ser uma frase de ânimo para quando as coisas não vão muito bem na vida. Trata-se de uma clara alusão ao jogo da peteca, cujos primórdios ascendem há centenas de anos atrás e que tem como objectivo manter um volante em trajectórias aéreas, impulsionado pela palma da mão.

Há quem refira a prática da peteca em países como a China, Japão ou Coreia, há mais de dois mil anos, utilizada como manutenção de treino militar em tempo de paz ou, entre os mercadores, como forma de aquecimento nos períodos mais frios. Contudo, de certo, sabe-se que no Brasil, e ainda antes da chegada dos portugueses, os índios já jogavam a peteca. Minas Gerais, região densamente povoada por tribos tupis e guaranis é considerada o local de nascimento desta prática, directamente ligada aos indígenas e à época de colheitas, altura em que a peteca, volante que dá o nome ao jogo, era feita em palha de milho, sendo a base cheia com areia. Hoje ela surge de forma padronizada, constituída por rodelas de borracha sobrepostas e quatro penas brancas, de peru. Depois há as pequenas variantes: desde a peteca especialmente fabricada em materiais resistentes para ser utilizada na praia àquelas mais leves e facilmente adaptáveis às mãos de uma criança, os pesos, bem como as cores, diferem.
Conta a história que durante os Jogos Olímpicos de Antuérpia, em 1920, a delegação brasileira levou consigo algumas petecas para serem utilizadas como entretenimento. O interesse da comitiva finlandesa, ávida de informação sobre as regras do que observavam como uma modalidade nova, lançou algum embaraço entre os brasileiros que praticavam o jogo de uma forma simplesmente lúdica. Só em 1973 as primeiras normas começaram a ser implementadas, adaptando-lhe algumas das regras utilizadas pelo badmington, voleibol e pelota basca. Como desporto federado, ela surgirá apenas 12 anos mais tarde, em 1985, muito motivada por pressão dos clubes de peteca de Minas Gerais que, perante o elevado número de adeptos, acreditavam ser possível transformar uma prática ancestral em desporto nacional.
A prática da peteca alarga-se às mais variadas idades e, a partir do Brasil, inicialmente sob a forma de pequena lembrança oferecida aos visitantes, a modalidade espalhou-se pelo mundo. Em Portugal, é fácil de encontrar grupos, essencialmente de brasileiros, a bater a peteca na praia. Contudo, além desses, encontramos gente bem mais ambiciosa, cuja intenção é fazer com que a modalidade deixe de se confinar aos encontros de amigos, conferindo a Portugal uma representação nacional, com capacidade de participar em competições de internacionais.
Um petequeiro em Portugal
José Andrade é brasileiro, campeão de peteca do estado de Minas Gerais precisamente e, em alusão à modalidade pela qual é apaixonado, gosta de ser tratado por Andrade “Peteca”. Se tinha o sonho de viajar até à “terra do tio Sam”, a irmã trocou-lhe as voltas no dia em que lhe ofereceu uma passagem aérea para Portugal. Chegou há seis anos. Viu, gostou e ficou. Homem dos sete ofícios e quatro desportos, Andrade “Peteca” é praticante de futebol, atletismo, natação e peteca. Em 2003, decide fundar uma associação sem fins lucrativos, o Clube de Praticantes de Peteca de Portugal (CPPP), com o objectivo de divulgar a modalidade em Portugal. Com sede em Fernão Ferro, no concelho do Seixal, as actividades do CPPP decorrem em espaço cedido pela União Recreativa Juventude de Fernão Ferro (URJFF), cujo presidente José Rei, adepto da prática desportiva como forma de ocupação dos mais novos, abriu as portas a esta modalidade por “ser nova, diferente, económica e acreditar na sua capacidade para motivar participantes”.
É através do CPPP que “Peteca” pretende afirmar a prática do desporto que lhe vale a alcunha. Para que tal seja possível, tem vindo a desenvolver um projecto cuja finalidade essencial é ocupar crianças e jovens e “formar futuros campeões”, diz. “A peteca pode ser considerada um entretenimento mas, como qualquer desporto, tem hipóteses de funcionar como uma actividade de prevenção social”. Neste contexto, José Andrade tem levado o seu projecto às escolas, fazendo apresentações teóricas e práticas embora, porque os apoios económicos são nulos, apenas no concelho do Seixal. Contudo, sendo uma modalidade recente em Portugal, a peteca tem os atractivos mas essencialmente as dificuldades de tudo o que é novo e Andrade queixa-se da falta de atenção dos adultos implicados no processo de divulgação da modalidade: “infelizmente, não consegui ainda sentir um verdadeiro interesse por parte dos professores ou pais das crianças de forma a motivar os mais novos na continuação da prática da actividade. Os miúdos gostam da apresentação, mas depois não aparecem no Clube nem tenho conhecimento que continuem a praticar a peteca na própria escola”, afirma Andrade, que se mostra disponível para facultar formação gratuita aos professores e encarregados de educação. A intenção é alertá-los para as vantagens de uma modalidade bastante completa, pelo tipo de movimentos que exige, capaz de fomentar o espírito de equipa e que, face aos reduzidos meios e custos que envolve, pode facialmente ser praticada em qualquer lugar e por pessoas oriundas de qualquer extracto social.
Para já, alguns miúdos, além de gente mais avançada na idade, são assíduos nos treinos na URJFF. Cleison Teixeira tem doze anos. A mãe está em São Tomé e Cleison vive com o pai e a avó. É franzino e tem um ar entre o reguila e o atento. Imparável em campo, define a prática da peteca como “espectacular”. A modalidade apanhou-o no meio de uns remates de futebol ali mesmo, na URJFF. Atraído pelos movimentos que a nova modalidade implica, entusiasmou-se. Ataca o volante com a habilidade de quem quer vencer, impulsionando-se no ar sempre que ele vem mais alto, servindo forte para que ultrapasse os 2,20 metros de altura da rede. O seu sonho é finalizar a impulsão com uma queda perfeita, como vê Andrade fazer.
Já Vinicius Nascimento, igualmente de 12 anos, é um miúdo aparentemente mais calmo. Tal como Cleison, também ele jogava apenas futebol e até tinha a ideia de que a peteca era um desporto tipicamente “para raparigas”, mas essa noção dissipou-se às primeiras palmadas que deu para defender o volante. É que, embora a modalidade não tenha falta de praticantes do sexo feminino, é necessário ter mão rija para aparar a velocidade com que a peteca se desloca.
Lado a lado com os mais jovens, está Joaquim Loução. Tem 51 anos e é instrutor num centro de formação profissional. Chegou à peteca através do contacto que teve com Andrade, durante um curso em que este foi seu aluno. Com o tempo, os papéis inverteram-se e neste momento é o “Peteca” quem ensina o monitor. Todos os domingos Loução se desloca às instalações da URJFF para participar nos treinos da modalidade que começou a praticar aos 50 anos. “Não tenho quaisquer esperanças de vir a competir em campeonatos internacionais, não só pela idade mas também porque comecei muito tarde”, diz, “mas sinto que todos estes movimentos e o tipo de exercícios de aquecimento que fazemos antes dos treinos, me mantêm em forma. No Inverno, sinto a sua falta.” A menção à ausência de treinos no Inverno vai ao encontro de uma pretensão de José Andrade que, nos contactos que tem feito no sentido de pedir apoios, solicita que lhe seja disponibilizado um pavilhão coberto para que os treinos da modalidade não tenham de ser adiados em dias de chuva.
“Levo este clube muito a sério. Sei que tenho possibilidades de ajudar sob o ponto de vista social, motivando as crianças e desviando-as de actividades menos desejáveis, ocupando-lhes os tempos livres de uma forma saudável”, afirma Andrade “Peteca” que continua: “temos hipóteses de organizar campeonatos em que os praticantes, além de se exercitarem, sintam a responsabilidade de melhorar a sua actuação. E isso é positivo, até do ponto de vista do desenvolvimento da autoconfiança das crianças.”
É com entusiasmo e um ar algo sonhador que os rapazes, durante uma pausa dos treinos, ouvem falar do Campeonato Internacional de Peteca, que terá lugar em Sannois, França, durante o próximo mês de Maio mas onde Portugal, por falta de patrocínios, não terá qualquer participante.
“Necessitamos de apoios”, afirma “Peteca”. “Só assim poderemos levar mais longe este projecto, fazê-lo sair do concelho do Seixal.”
Os miúdos continuam a saltar à procura da peteca. Queixam-se do ardor provocado nas mãos, mas esfregam-nas e batem-nas, de acordo com as instruções do treinador. Ficam então aptos para mais um ataque ao projéctil, vibrando quando conseguem que o adversário não o defenda.
Quem já experimentou, espera concerteza que José Andrade “não deixe a peteca cair”.
Sábado #109 - 01.06.2006

Agosto 31, 2006

originalmente ostra


Cria e recria em concha de ostra, coral, madrepérola, búzios. Das suas mãos podem sair reproduções fiéis do quotidiano como peças abstractas que foram tomando forma na sua mente irrequieta. Tanto quanto julga saber, o seu trabalho é único no mundo. Em Portugal não tem dúvidas, não há mais ninguém que o faça. Está disponível para ensinar, só não tem quem queira aprender.

António Cruz nasceu há setenta anos, por terras do Norte. De lá transporta o sotaque vincado, que o tempo não apagou. Foi aí, ainda miúdo, que começou a trabalhar os arames e as madeiras para fazer os brinquedos que os pais não lhe podiam dar. Para este homem vindo “do tempo em que, com sete anos, já ia apanhar lenha”, “a bola era uma meia e uns trapos. Se apanhasse uma bola de borracha pequenina, já me considerava muito rico.”
Contudo, a falta de meios económicos nunca retirou a criatividade ao miúdo: “uma coisa que eu gostava de fazer era barcos”. O gosto ficou-lhe pela vida fora, mesmo que aos quinze anos, se tenha feito ao mar para ganhar a vida. Teve várias profissões, “mas fui essencialmente pescador. Andei na pesca do bacalhau, depois andei nos barcos, em Lisboa, mais tarde vim para Alcochete”.
O atelier de António Cruz fica num anexo da sua casa. No espaço que medeia os dois edifícios podem ver-se ostras a secar. É aí que António ou a mulher esmagam as cascas dos bivalves para os acabamentos das peças. Já no interior da oficina, junto à janela, uma bancada de trabalho serve-lhe de poiso. Empurrado contra a parede, um monte de conchas que esperam por vez para verem aproveitadas as suas formas em objectos que crescem ao ritmo de quem as cria. O artífice gosta de trabalhar ao sabor da sua inspiração e encomendas, torna-se difícil aceitá-las. Embora já o tenha feito, diz que esta forma de laboração se torna “um compromisso e não é a mesma liberdade de estar a criar”, afirmando peremptório: ”eu gosto sempre de fazer coisas diferentes, é isso que me entusiasma”.
Comprovam-no as peças expostas numa segunda divisão do atelier. Num espaço com pouco mais de 20 m2 espraiam-se por vitrinas alguns dos seus trabalhos. Entre reproduções e figuras simbólicas, pode apreciar-se de tudo. A um canto, uma cópia da Alcatejo, a fragata pertença da Câmara Municipal de Alcochete, de um dos lados, algumas barcaças, representações das artes piscatórias, com as redes miúdas, elaboradas com minúsculos búzios. Há ainda toda uma série de presépios e figuras abstractas que o artesão gosta de elaborar, pequenas obras-primas da habilidade de um homem que começou nisto de ser artesão há 37 anos.
Por volta de 1969, António Cruz decidiu deixar as lides marítimas: “ vim para Alcochete, porque andava sempre fora de casa. Escolhi fixar-me na Câmara, em fiscal de mercados.” Passou a ganhar cerca de metade do que auferia anteriormente mas contava com o jeito que sempre o tinha acompanhado para fazer pequenos trabalhos. No início dedicou-se à marcenaria. Já aí gostava de produzir peças diferentes e é com orgulho que fala nos guarda-jóias com segredo que saíram das suas mãos. Contudo, a insistência da filha para que visse umas peças feitas por um pescador veio mudar-lhe o rumo da inspiração: “era uma pessoa que tinha um barquito e fazia uns trabalhos com ossos de galinha e concha de berbigão e amêijoa.” Quando viu aquilo, ocorreu ao artífice começar a trabalhar em casca de ostra. A matéria-prima estava ali bem à mão: “comecei à base de concha daqui de Alcochete. Era eu quem a ia apanhar, nas marés baixas.” Para as escolher, olhava as suas formas. Se, ainda no chão, lhe sugerissem o início de uma peça, então trazia-as consigo.
Segundo conta, a inspiração vem-lhe essencialmente do feitio dos materiais que utiliza “todas as formas que vejo, posso servir-me delas. É uma questão da pessoa ter a capacidade de as aproveitar.” Quanto às suas peças maiores, “qualquer delas são a história da vida”. E por história da vida entende-se aquilo que António vivenciou ao longo da sua, como é o caso de duas das mais imponentes peças que podem ser vistas no seu atelier: uma, a reprodução de uma das mais ancestrais tradições da terra que o acolheu, o quotidiano da vida numa salina; a outra, o dia-a-dia num bacalhoeiro, peça baseada na sua experiência pessoal pelos mares da Terra Nova.
A representação da água é executada em madrepérola, os barcos em cascas de ostra cuidadosamente ligadas. Apenas alguns pedaços de arame são utilizados em peças que necessitam de um esqueleto que as suporte e, mesmo esses, são escrupulosamente cobertos com o mesmo material moído, utilizado nos acabamentos, de cores previamente escolhidas. Isto porque nem tintas entram no trabalho deste artesão, sendo todas as tonalidades dos pormenores das peças escolhidas entre os pós de cascas de bivalves esmagadas e posteriormente peneirados de acordo com a espessura pretendida. Também as velas que enfeitam os barcos são feitas utilizando o mesmo sistema. Depois de escolhido o matiz pretendido, o pó é deitado sobre uma placa metálica, na qual é colocada também cola e é dessa pasta, devidamente misturada, que irão sair as imitações dos panos enfunados.
Para todos estes apuramentos técnicos obtidos através de longos anos de experiência é que António Cruz não tem seguidores. Se em tempos a Câmara Municipal de Alcochete promoveu um curso para formação de artesãos nesta área , findo este, os potenciais artífices dispersaram-se e não há notícia de que mais alguém se dedique a este tipo de trabalho. Como diz António Cruz, “se houvesse mais gente a trabalhar nisto, ganhava o país e ganhava a terra, até porque o estrangeiro ia ver um trabalho que mais ninguém faz”. Mas, para o conseguir, seria necessário o apoio de alguma instituição, uma vez que a forma de trabalhar deste artesão, com a inspiração em roda livre, não se presta à contratação de um aprendiz.
Quanto à divulgação, ela é pouca. Excepção feita a uma ou outra entrevista, à presença num dos livros editados pela câmara, apenas a comparência em exposições e em feiras de artesanato têm difundido o seu trabalho. Contudo, António Cruz não é grande adepto desta modalidade e os seus motivos são vários. “Sou uma pessoa que gosto muito é de estar a trabalhar no meu cantinho”, diz, adiantando “é diferente. Estar numa exposição é ficar ali à espera.” Se este não fosse motivo suficiente, outros há que se prendem com a própria organização destes eventos. É que, nas exposições de artesanato, o artífice é convidado mas tem de pagar o espaço que ocupa e, apoios, o artista apenas tem o da Câmara Municipal de Alcochete que se limita a fazer o transporte das obras, o que o leva a comentar: “se alguém vai a uma televisão cantar um fado, recebe um cachet porque dá espectáculo. Um artesão vai a uma feira, dá espectáculo e ainda tem de pagar. Em Vila do Conde, ultimamente, além de pagar o stand, ainda tive de pagar 3% sobre as vendas.”
Com obras, que podem custar entre os módicos 7,50 € e os 7.500,00 €, este homem tem trabalhos espalhados por colecções particulares desde a Europa até à Ásia. A ele recorre a Câmara Municipal de Alcochete quando quer fazer uma oferta institucional e, embora já tenha tido alguns convites para trabalhar para o estrangeiro, declina as ofertas, antes convidando os potenciais compradores a visitar o seu atelier para aí escolherem entre as peças já produzidas.
António Cruz é o típico o artesão movido essencialmente pelo bafo da inspiração.
Vega Mar & Aventura #20 Abril/Maio 2006

Sertão é recolhimento



Dizem, e é bem capaz de ser verdade, que o amanhecer brasileiro se esmera quando se aproxima do São Francisco.

Se há algo que este rio possui e transmite é a identidade, essa identidade caipira, de fala mansa e olhar brilhante, num ritual pausado de dádiva sem esperar permuta.
Porém, outro dos seus traços marcantes, este extensível à totalidade do território brasileiro, é a desigualdade que faz com que metade da sua riqueza esteja concentrada em apenas 10% da população. Todo o Nordeste observa esta regra sendo-lhe habitual a convivência entre o progresso e a regressividade social ao que não é alheia toda a sua história - a ligação entre o cristianismo e a escravatura de que resultou uma sociedade teoricamente cristã mas de práticas opostas; a combinação entre o liberalismo e a escravidão de onde resultaram liberdades civis para uma escassa minoria, até à aliança entre o desenvolvimento e a desigualdade estrutural que originou uma discrepante concentração de riqueza.
A história do Nordeste e da gente do São Francisco está intimamente ligada à da descoberta e colonização do Brasil, simples de contar nos atropelos aos direitos do homem e da natureza - 1501, dia de São Francisco, Américo Vespúcio ao serviço da coroa portuguesa descobre a foz daquele a que, há milhares de anos vogando entre margens, retirando do seu curso o alimento, a argila para os utensílios, os índios chamavam Opara (Rio-Mar). Obedecendo às ordens reais, os nomes nativos dariam lugar a outros que evocassem a cultura cristã dos colonizadores. Se inicialmente a alteração se limitou ao nome, o tempo e o homem trataram de fazer evoluir a transformação. Em 1549 chega o primeiro governador do Brasil, Tomé de Souza, acompanhado por Francisco Garcia d'Avila, primeiro senhor da Casa da Torre e percursor dos bandeirantes. Nas caravelas, gado. Estavam reunidos os ingredientes principais para o início da lenta devastação - evitando a destruição dos canaviais, o gado era conduzido para o sertão, preferencialmente ao longo do rio. Os animais teriam terra e água para crescer e Portugal iniciaria o processo de colonização. Terras? As dos índios, agora dizimados e foragidos. Em 1600 começaram a chegar os missionários com outras intenções que não as dos lucros económicos, mas as facilidades previstas estiveram longe das encontradas. Se por ordens reais cada donatário deveria conceder uma légua de terra às missões, na colónia longínqua prevalecia a lei do mais forte. Por outro lado, o efeito das missões na preservação das culturas nativas estava em consonância com a época que se vivia. Os missionários que conseguiram instalar-se tentavam efectivamente defender os indígenas da violência física dos colonos mas faziam-no agregando-os em aldeias tipicamente europeias, tentando alterar as suas crenças, negando-lhes a ancestral memória cultural e civilizacional, descaracterizando-os. Em simultâneo, e na dificuldade de escravizar a população nativa, a rota da escravatura passou a fazer escala no Brasil onde eram deixados alguns dos negros capturados em África. Em tudo isto o São Francisco tomou parte activa e é mostra viva, ficando assim composta a miscelânea genética vindoura, o retrato do homem do São Francisco dos nossos dias, um misto do sentimento semi-trágico do colono ibérico, da dignidade do índio e da estrutura física do africano numa amálgama condensada de crenças e costumes tão díspares como as culturas que o compõem.
Desde a sua nascente no Miradouro da Canastra, em Minas Gerais, até à foz no pontão do Cabeço, em Alagoas, o “Velho Chico” atravessa cinco estados (Minas, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas). Uma das principais referências hídricas do Brasil, ele tem sido estrada, energia e alimento, além de ponto de confluência cultural.Com o evoluir dos séculos a importância deste rio nunca foi ignorada. Na voz do povo ele foi o “Caminho Geral do Sertão”, o “rio dos currais” que, auxiliados por longos e pesados varejões com pontas de ferro que apoiavam no fundo como forma de impulso, homens atravessavam nas suas balsas transportando gado, carga preciosa à altura Já pelo século XVII, a notícia de ouro por aquelas paragens atraiu exploradores, aventureiros, desempregados. Foram alguns os casos em que o rio foi represado ou desviado artificialmente para outros canais deixando o seu leito a descoberto. Durante a Segunda Guerra Mundial o São Francisco foi uma alternativa segura para evitar os submarinos alemães como, mais tarde, foi caminho para seringueiros recrutados para trabalhar na Amazónia ou para os migrantes em busca de vida melhor em S. Paulo. Era o tempo dos vapores que misturavam na sua carga pessoas, legumes, café, algodão e animais, o tempo em que foi chamado o “rio da unidade nacional”. Para o designar assim hoje, só percorrendo as suas margens.
Onde antes navegavam vapores hoje apenas podem circular balsas, pequenos barcos de transporte entre populações ribeirinhas ou barcaças de pescadores que açoitam o rio na tentativa de espantar para as suas redes o pouco peixe existente. Apesar do rio se mostrar depauperado muitos mantêm-se na lida, conscientes de que os seus poucos estudos não lhes proporcionariam outra renda maior.
A decomposição ecológica levada a cabo pelo homem ameaça ressequir essa corrente ainda valiosa: cerca de 95% dos manguezais e vegetação que outrora ladeava as suas margens foram destruídos para fornecimento da indústria do carvão provocando um assoreamento constante; as barragens vêm retendo as águas, alterando a sua temperatura, os ciclos do rio e da piscicultura; os dejectos químicos dos mega- projectos agrícolas contaminam as águas e aniquilam o peixe na mesmo proporção; fábricas de açúcar drenaram terreno e plantaram cana; as cidades ao longo do seu curso vertem nele as águas residuais. Debate reacendido em cada campanha eleitoral, discute-se a sua transposição que levará água às terras mais áridas do Ceará ao que se opõem os que reclamam pela revitalização do “Velho Chico”.
De tudo vai restando a memória da gente do São Francisco, a fartura que o rio lhes proporcionou. Adaptaram-se e aguardam sem grandes expectativas. Essencialmente pescadores e agricultores, vendem nos mercados o resultado do seu labor na terra ou na água. São também artesãos, seguidores dessa arte que lhes ficou dos seus antepassados índios. Modelam o barro, agora mais para turista comprar do que para seu próprio usufruto. Porque o presente não tem muito para mostrar, moldam as “boiadas” e os “boiadeiros”, imortalizam Lampião, o cangaceiro justo do Nordeste. Por poucos reais, camionetas levam o seu trabalho anónimo para a Bahia, bastião do turismo nordestino.
Nas pequenas comunidades ribeirinhas o quotidiano decorre lento, ainda indiferente no que respeita ao futuro. Miúdos mergulham ou lançam a tarrafa que traz o peixe miúdo para o lanche, lava-se roupa, areiam-se tachos, numa autêntica casa sem tecto nem paredes. Da povoação maior chega a barcaça com aqueles que foram buscar o essencial. Por um real, dois miúdos carregam os sacos e entregam-nos na carroça puxada pelo burro pachorrento. De quando em vez passa o barco com turistas curiosos. Na esplanada do bar observa-se calmamente a passagem do dia ao sabor da cerveja anunciada em cartazes apetecíveis. O ensino e a saúde chegam ali bem mais dificilmente do que a publicidade.
Território não é apenas um mapa como um povo não é um mercado mas uma interacção de gente, cultura, trabalho, memória, política e fé. Torna-se por isso necessário melhorar o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) sendo prioritário transformar as comunidades ribeirinhas em guardiãs da sua própria riqueza fomentando a reflorestação das suas margens bem como a vigilância sobre a evolução da piscicultura em conjunto com técnicos, além de alertar todos os que estão ligados ao ensino e possuem meios para despertar a consciência ecológica nos alunos, não apenas nos municípios, banhados pelo São Francisco mas também dos que ladeiam os seus afluentes, bombeadores de água e de vida para o “Velho Chico” envelhecido.
Cheias e secas fazem parte da história de vida do povo ribeirinho e integram a história económica e social da região do São Francisco. Se as cheias representam grandeza para o povo, as vazantes correspondem à sua miséria. Contudo, chuvadas invulgares como a de 2004 não encontraram recipiente que as comportassem. As descargas das barragens, há 10 anos de comportas fechadas, fizeram com que o São Francisco e seus afluentes saíssem das margens, ensaiando retomar as suas terras cobrindo as cidades que banham como que reclamando do desrespeito de que têm sido alvo pelo homem.
Desde 1979 que o nível das águas não sofria um aumento tão significativo – desembocando no Atlântico entre Alagoas e Sergipe, a foz do rio aumentou 316%: passou de 1.200 para 5.000 metros cúbicos por segundo, a Defesa Civil ficou em alerta máximo. Populações inteiras viram-se desalojadas, o barco passou a ser o transporte possível entre telhados. Comunidades, já por si naturalmente depauperadas, viram os seus campos de cultivo submersos, as colheitas destruídas. Há quem fale na alegria do sertanejo que vê nestas cheias o aumento da procura de mão-de-obra para o conserto da destruição visível, emitem-se opiniões sobre o verde que emergirá de terrenos agora empapados de um castanho devastador, omite-se o juízo daqueles que, habituados a ter pouco, se viram repentinamente sem nada.
A Secretaria Nacional de Defesa Civil alertou as prefeitos de todas as cidades que ficam às margens do rio nos estados de Alagoas e Sergipe e pediu para que as prefeituras e as coordenadoras estaduais de defesa civil tomassem as providências de retirar as pessoas das áreas que devem ficar inundadas, é certo. É também realidade que o director do Departamento de Minimização de Desastres da Secretaria Nacional de Defesa Civil informou que os órgãos federais estariam preparados para enviar ajuda aos municípios atingidos pelas inundações dizendo “Nós estamos em contacto directo e, se houver alguma coisa que fuja do controle e que dependa do accionamento de alguma coisa da área federal, esse accionamento vai ser de imediato e nós vamos tomar as providências”, mas cabem aqui duas perguntas: de que controle podem as coisas fugir? Que providências conseguem ser tomadas substituindo a ausência delas ao longo de séculos?
As chuvadas já lá vão e basta uma pequena pesquisa para perceber que as suas consequências já são passado, já não fazem notícia, deixaram de importar ao país e menos ainda ao mundo. Lentamente tudo volta ao que é a normalidade nesta região e apenas os locais terão mais histórias para contar, sempre naquele sotaque sertanejo, pausado e sorridente de quem não se insurge contra a desgraça, venha ela dos céus ou da gente terrena. Unicamente memórias, porque o importante é passar este dia, amanhã se verá. O Deus dos brancos, os dos índios ou todos em conjunto se ocuparão da gente do Nordeste e do São Francisco defendendo-os de desgraças maiores.
Vega Mar & Aventura #17 - Novembro/Dezembro 2005

os cavalos também curam



Já na Grécia Antiga Hipócrates chamava a atenção para a prática da equitação como forma de melhorar o estado anímico das pessoas com doenças crónicas e, no século XV, Dom Duarte, na sua obra “ Artes de Bem Cavalgar em Toda a Sela”, salientava os benefícios que a prática de montar a cavalo trazia à saúde dos praticantes. Hoje, a hipoterapia é definitivamente reconhecida como uma forma terapêutica alternativa e complementar.

O vento é agreste mas não o suficiente para desmotivar os voluntários da Associação Hípica para Deficientes de Cascais (AHDC) que vão chegando ao picadeiro. Maurício e Índia, os cavalos escolhidos para esta sessão, já foram passados à corda para que se mantenham calmos, característica essencial dos animais utilizados na equitação terapêutica. Fisioterapeutas, monitores de equitação e voluntários trazem a caixa onde os toques são guardados. Cadeiras, pinos e jogos de cores são dispostos nos locais previamente estabelecidos. Está tudo a postos para quem começa a chegar nas carrinhas das instituições, das autarquias ou em carros particulares.
São alunos especiais que nestes dias frequentam as aulas de equitação no picadeiro do Clube D. Carlos, no Guincho. Crianças e jovens com quem a exactidão da natureza ou dos médicos falhou, deixando-lhes marcas e incapacidades mais ou menos severas, umas vezes bem visíveis outras nem tanto, e a quem a equitação terapêutica auxilia a ultrapassar as suas dificuldades. Problemas que vão desde a paralisia cerebral ao autismo podem ver resultados práticos de melhorias físicas e comportamentais através da prática da hipoterapia.
Como explica Paula Caracol, uma das voluntárias da AHDC, “a equitação terapêutica tem várias vantagens. Ao andar, o cavalo envia ao cérebro do cavaleiro estímulos em tudo semelhantes aos de uma caminhada, o que conduz a uma melhor noção do espaço e aumenta o sentido de equilíbrio”, além de que, “se pensarmos que a maior parte destas pessoas passa a vida numa cadeira de rodas, a visualizar tudo de baixo para cima, o simples facto de estar em cima do cavalo, numa posição superior, vai influenciar de forma positiva a sua forma de olhar o mundo. Ela deixa de se sentir numa posição de inferioridade e aumenta a sua auto-estima ”.
O ambiente é de boa disposição. Os primeiros cavaleiros são conduzidos até às montadas enquanto os restantes aguardam ansiosamente a sua vez. Os exercícios, porque todos os casos são diferentes, são adaptados a cada situação e vão sendo desenvolvidos em cima do cavalo: “Vamos dizer adeus a todo essa gente! Com as duas mãos!”, ouve-se uma voz. Sem dar por isso, ao retirar as mãos do cavalo, Paula executa um movimento que vai ajudá-la a melhorar o equilíbrio. Do lado oposto do picadeiro outro grupo anima David a apanhar os sacos coloridos previamente dispostos no muro: “Muito bem, David! Agora vamos atirá-los para os baldes.” E, ao acertar no recipiente da cor do saco, a criança exercita a sua parte cognitiva ao mesmo tempo que desenvolve a sua força muscular.
Também o corpo peludo e quente do animal constitui um centro de estímulos para o cérebro do cavaleiro que ao acariciar o cavalo desenvolve o seu lado afectivo. Talvez por isso Paula se debruce agarrada ao pescoço de “Maurício” e lhe diz: “és o melhor amigo que eu podia ter arranjado, e não tenho vergonha de o dizer”.
Já no Centro Equestre João Cardiga (CEJC), em Barcarena, Leceia, o ambiente é despreocupado e familiar. Laura chega pontual cumprimentando toda a gente na alegria dos seus quatro anos. Percebe-se que conhece bem os cantos e os hábitos da casa. Não é caso para menos. Elisabete, a mãe, cedo intuiu que a equitação seria uma forma de ultrapassar os problemas originados pela Trissomia 21 que afecta a filha e com apenas dois anos já a pequena Laura se sentava sobre o dorso de "Jackie". A mãe está convicta de que o contacto com os cavalos ajudou a que a filha seja hoje uma criança muito afectiva e segura de si mesma. Educadora de infância de profissão, Elisabete nota que, apesar do problema congénito da Laura, “saltar com os dois pés juntos ou subir para uma cadeira não constituem problema para ela, ao contrário do que acontece com algumas crianças da sua idade”.
No picadeiro, muito compenetrados, os miúdos levam "Jackie" à corda. Também este momento é importante para a sua auto-estima. Os papéis invertem-se e a criança, habituada a ser conduzida, passa a ser responsável pelo animal que segue a seu lado.
Já em cima da montada, os exercícios tornam-se momentos lúdicos. Sobre o tapete de pêlo que se move a passo, Alfredo Nogueira, o fisioterapeuta do CEJC, vai pedindo posições que ele mesmo exemplifica: "mãos atrás do pescoço. Isso mesmo!” Sobre o dorso do cavalo, deitados, de costas ou de frente, os miúdos riem com as brincadeiras dos monitores: “vamos descalçar o chulé?” André ri-se e deixa que lhe tirem os sapatos. “E agora, senhoras e senhores, para a televisão, o André vai fazer um exercício muito difícil!”, Alfredo faz a locução enquanto coloca a criança em pé, sobre o pónei, continuando: “ e aqui está! Uma volta em pé sobre a "Jackie"! Diz adeus à mãe, André!” E o miúdo segue caminho, mandando beijos de mão para trás do vidro onde a mãe o observa. André tem problemas de equilíbrio que o levam a cair muito facilmente. A conselho médico começou a frequentar a hipoterapia e a mãe confirma os resultados positivos: “o tónus muscular do André tem vindo a aumentar, assim como o seu equilíbrio”.
Cada pequeno progresso notado nos pacientes é motivo de satisfação para todos os envolvidos. É o caso de Sara. Ela tem 24 anos e frequenta as sessões de hipoterapia há cerca de um mês. “Quando chegou, a tensão dos músculos da Sara não lhe permitia deitar-se sobre o cavalo, neste momento já o faz”, conta Alfredo que, de acordo com o diagnóstico clínico de cada paciente, lhe aplica os exercícios apropriados para melhorar as zonas mais fragilizadas do corpo. “Não é milagroso, mas verificamos muitos progressos nos nossos miúdos e isso deixa-nos naturalmente satisfeitos”, afirma Lurdes Cardiga que, em conjunto com o marido, João Cardiga, dirigem o CEJC.
É aliás um sentimento generalizado entre os que estão ligados à hipoterapia, pequenos gestos são motivo de regozijo para todos.
Malica, outra das voluntárias da AHDC, não esconde a sua satisfação quando Diogo bate palmas em cima do cavalo. Já na sessão anterior ela percebera que, apesar do aparente alheamento sobre o que o rodeava, Diogo seguia o pai com os olhos quando este se deslocava e ficara contente quando o jovem resistiu à mão com que o segurava. Os gestos que Diogo efectua agora sobre a montada trazem-lhe novo sinal: “este menino está a reagir, isto é muito bom!”

Equitação adaptada para competir a sério


Mas não se pense que o tratamento pelos equídeos termina na hipoterapia. Como afirma Carlos Lopes, do centro hípico da Quinta do Senhor da Serra, em Belas, “a equitação terapêutica é uma etapa que nos permite partir para uma verdadeira reintegração social destas pessoas através da aposta na equitação adaptada”. Esta modalidade permite aos seus praticantes o desenvolvimento de capacidades que lhes vão facultar a autonomia no manejo dos cavalos e, inclusivamente, participar em competições nacionais e internacionais.
Se tal é importante sobre o ponto de vista físico, as proporções a nível psicológico são muito maiores. Para quem sempre sentiu limitações inerentes à sua condição física, a possibilidade de as ultrapassar e atingir lugares de pódio é no mínimo encorajadora. Com este intuito Carlos Lopes é um dos mais acérrimos impulsionadores da equitação adaptada, empenhando-se, no ano de 2002, em trazer o Campeonato Europeu para Portugal: “Se nós não tínhamos dinheiro nem apoios para levar os nossos cavaleiros à Europa, trouxemos a Europa até Portugal” diz, continuando: “se temos praticantes, não podemos ficar parados! Temos o dever de investir nestas pessoas, mostrar-lhes novos horizontes, fazê-los acreditar que podem e devem fazer tudo para ultrapassar as suas dificuldades físicas.”
Sendo a prática da equitação adaptada ainda mais recente do que a da hipoterapia, os atletas portugueses, maioritariamente sem apoios, dependem quase exclusivamente de si e da boa vontade dos seus treinadores para o bom desempenho da modalidade e apresentação em concursos. A título de exemplo, até fins de Fevereiro de 2005, ainda não existia qualquer calendário de provas que permitisse aos atletas competirem entre si e aferirem dos progressos alcançados.
Outro problema que se coloca são as dificuldades que a maior parte dos cavaleiros tem em adquirir um cavalo que se adapte às suas condições físicas. “Uma solução possível poderia ser a parceria entre alguns criadores, que cederiam cavalos, e os atletas, que os representariam nas competições”, sugere Lurdes Cardiga, do CEJC, centro ao qual pertence Sara Duarte, um dos exemplos de sucesso possível de alcançar.
Sara, que ficou em terceiro lugar no Campeonato Nacional de Equitação Adaptada em 2004, tem vinte anos e começou a praticar equitação aos sete. Apesar da paralisia cerebral que a afecta, a jovem tem hoje uma vida autónoma, frequenta o primeiro ano do curso de farmácia e é motivo de orgulho do seu treinador, João Cardiga, que afirma retirar do seu trabalho como técnico de equitação adaptada “um prazer muito pessoal que é o de assistir à evolução miúdos marcados por dificuldades, tornando-se autónomos até ao ponto onde está a Sara”.

"É possível"

Marco Mateus tem catorze anos e chegou ao centro equestre de Belas há 3. Uma paralisia cerebral à nascença marcava-lhe a força, o equilíbrio, as capacidades físicas. Na sequência das sessões de hipoterapia, Carlos Lopes viu nele as potencialidades necessárias a um atleta de equitação adaptada e decidiu investir no jovem cavaleiro a quem exige treino e persistência. Como o próprio treinador afirma: “ele tem hipóteses, em cima do cavalo é igual a qualquer outro. Se tiver a força de vontade suficiente pode perfeitamente ultrapassar todas as dificuldades físicas e chegar às competições”.
Para já, Marco vai construindo a sua própria autonomia. Quer ser informático e para o conseguir divide o seu tempo entre o estudo e a equitação. Sente melhorias relativamente a força muscular e ao equilíbrio embora por vezes sobrevenha o desânimo dos treinos repetidos mas, para essas ocasiões, lá estão a mãe e os dois treinadores, Carlos Lopes e Miguel Gomes, repetindo-lhe que: é possível.

Notícias Magazine #688 - 31.07.2005

espadartes ao largo



Para o visitante comum, Sesimbra são os acessos íngremes, a marginal, as traineiras e pequenos barquitos a remos, as gaivotas que indiciam o barco que regressa carregado com peixe, o cheiro do pescado misturado com o da maresia. Para os seus naturais e para os amantes da pesca desportiva a vila é bem mais do que isso.

Nessa noite ainda só cheirava a mar. O peixe chegaria mais tarde, pelas mãos daqueles homens que caminhavam ao longo da marginal em direcção às embarcações ancoradas no porto de abrigo. No escuro sobressaíam as luzes onde alguns pescadores se dirigiam para tomar o café antes de se fazerem ao mar.
Era o último dia do quinto Torneio José Pinto Braz, onde apenas é aceite a chamada “pesca grossa”, efectuada com cana e carreto, bem à maneira das tradições sesimbrenses.
Para o “Andalucia”, uma das embarcações concorrentes, foram transportados os bidões e as caixas com o isco fresco. A bordo, além dos quatro elementos da equipa, seguiam o Mestre Marcelino, para conduzir a aiola, e a organizadora do torneio, Geny Braz. A intenção era assistir ao nascer do sol no ponto anteriormente escolhido para lançar as linhas. No moderno sistema GPS visionava-se a rota, pelo rádio eram trocadas coordenadas com os outros barcos participantes.
Sacudido pelo cortar das pequenas vagas, o tema da conversa prendia-se necessariamente com a história do homem que dá o nome a este torneio e que está intimamente ligada ao historial turístico e piscatório de Sesimbra - José Pinto Braz.
Recordado como um homem dinâmico e de espírito empreendedor, José Braz foi durante muitos anos organizador de encontros de pesca desportiva em alto mar.
À altura, várias aiolas, pequenas embarcações que tinham como tripulantes apenas um remador e um pescador, faziam-se ao mar. A partir de uma traineira, o organizador comunicava com os participantes através de intercomunicadores, prestando-lhes a assistência necessária. No regresso aguardava-os o conforto, pouco comum à data, do Hotel Espadarte e restaurante com o mesmo nome, unidades hoteleiras também geridas por José Braz.
A eficiência deste homem nas organizações a que se propunha valeu-lhe o reconhecimento, traduzido na adesão de pescadores amadores portugueses e estrangeiros.
Em simultâneo, e na época baixa, “o vistas largas”, como era conhecido na vila, transportava Sesimbra à Europa, divulgando a sua terra natal e as organizações dele dependentes. De tal forma que, em 1975, a Direcção Regional de Turismo da Madeira convidou-o a desenvolver um projecto similar na região.
Desiludido pelo facto de não ver aprovado o seu propósito de ampliação do Hotel Espadarte, José Braz decide aceitar o desafio levando consigo a sua filha, Geny Braz, cujas potencialidades aproveitou ao inseri-la no mundo empresarial.
Contudo, a sua alma manteve-se sesimbrense e muitos, na sua terra e fora dela, também não o esqueceram. Por isso, talvez herdando a tenacidade de seu pai, Eugénia Maria Braz, com algum apoio do Clube Naval de Sesimbra e da Câmara Municipal, decidiu homenagear o homem que levou Portugal até à Finlândia e trouxe a Europa até Sesimbra. Para o fazer nada mais apropriado do que a organização de um torneio com as mesmas características dos organizados por José Braz.
Hoje as aiolas são em menor número, os remadores mais difíceis de encontrar mas, em maior ou menor quantidade, elas continuam a acompanhar as equipas, cujos elementos se revezam na aiola, à qual se prendem, a si e à cana, através de um arnês. Depois é esperar o toque do espadarte, a quem são oferecidos os iscos favoritos: chaputa, lula, sardinha.
Porém, este ano, nem todo o engodo deitado ao mar chamou a pescaria. Falou-se em “toques” à linha e em duas das embarcações pescaram-se peixes de sete e catorze quilos, que foram devolvidos ao mar. Esta é outras características deste torneio: exemplares com menos de vinte quilos continuam livres para percorrer o oceano, até porque aquilo que se pretende, além de recordar um nome, é recuperar a velha tradição em que os mares de Sesimbra davam ao homem a oportunidade de se debater com exemplares com mais de 100 quilos de peso, como aconteceu em 1958 quando Sesimbra alcançou dois recordes - da Europa e do Atlântico Norte, o maior espadarte e a captura de dois espadartes no mesmo dia, respectivamente com 259,5 Kg e 144,5 Kg, pescados pelo mesmo homem, Augusto Vilas Boas. Talvez no sexto torneio José Pinto Braz.
Magazine Domingo - 10.10.2004

marionetas de Lisboa



O quarteirão tem ar de abandono com o corpo da Feira Popular em decomposição de um dos lados e o defunto teatro-estúdio Vasco Santana do outro. Lá para o meio, despercebida, uma porta alta, em ferro. É no número 103-B da Avenida da República, que ficam as instalações das Marionetas de Lisboa.

Trata-se de uma instituição cultural criada por actores, dramaturgos e artistas plásticos que se juntaram com a intenção de estudar a Arte da marioneta, contribuindo para a sua renovação estética. Em simultâneo, assumem-se como uma companhia de reportório, preparada para ser itinerante e com vontade de divulgar a cultura portuguesa.
Como nos explica José Ramalho, director artístico do grupo, ao tentarem alcançar o chamado ”público escolar”, acreditam estar a contribuir para uma sensibilização às actividades artísticas, levando a que os jovens desenvolvam o hábito de consumir e valorizar a Arte como algo que é executado por profissionais.
No espaço cedido pela Câmara Municipal de Lisboa, e do qual, perante a decrépita vizinhança, desconhecem o futuro, espalham-se alguns dos artefactos para uma nova produção, “ A menina que queria ser bobo da Corte”.
Trata-se de um sonho antigo de Cristina Pereira, um espectáculo apenas seu. Só agora se sentiu preparada para o fazer. Descreve o método utilizado no fabrico das marionetas que manuseia delicadamente. “Idealizei o espectáculo e compreendi que o sistema “bunraku” era aquele que mais se lhe apropriava. Estou a construi-las com os materiais mais naturais que me é possível. Mexem-se como se tivessem mecanismos e parafusos mas apenas têm linhas e pano”. Cristina quer que este espectáculo demonstre a sensibilidade feminina e, sobretudo, que de coisas muito despretensiosas também é possível criar o Belo.
Num espectáculo direccionado para todos as idades, no palco vão estar duas actrizes-marionetistas: a própria Cristina Pereira e Magda Moreira. É a elas que, durante quarenta minutos, cabe dar vida às várias marionetas, utilizando a já mencionada técnica “bunraku”, além de bonecos de luva e sombras.
Sozinho ou com crianças, que são sempre uma boa justificação para estas circunstâncias, vale a pena descobrir ou reencontrar a magia das marionetas, das vozes, das luzes e sombras, deste misto entre a realidade humana e a fantasia dos bonecos.
Estreia a 17 de Setembro, no mistério daquela sala com cheiro próprio, protegida das correrias da cidade pela porta alta, o número 103-B da Avenida da República.
Magazine Domingo - 26.09.2004

sacudindo a memória

Estamos habituados a comentar as glórias, ou a sua ausência, no desporto. Vestimos as janelas e os carros com bandeiras nacionais durante o Euro 2004, aplaudimos as medalhas dos olímpicos, esquecemo-nos geralmente dos Paraolímpicos, também eles atletas de alta competição e verdadeiros campeões.

Eles são aqueles que ganham prémios habitualmente mas a quem as câmaras raramente focam. Foram quinze, entre ouro e bronze, as medalhas trazidas de Sydney em 2000. Temos bi-campeões europeus, mundiais e paraolímpicos, nomes e feitos quase desconhecidos pela maioria das pessoas.
É gente que colecciona medalhas no estrangeiro e promessas quando regressam a casa. O incumprimento dos compromissos para com eles assumidos, ou a sua tardia concretização, consciencializam-nos de que lutam quase sozinhos para glorificar um país que esquece a sua existência.
Seja a nível de apoios estatais ou de prémios obtidos em competição, os praticantes de desportos adaptados continuam a ser alvo de distinção comparativamente aos seus colegas não portadores de deficiências físicas. A título de exemplo, só a 19 de Agosto deste ano foi assinado entre os organismos estatais competentes e a Federação Portuguesa de Desporto para Deficientes (FPDD) o protocolo que permitiria aos atletas e respectivos técnicos usufruir de uma bolsa de preparação para os Jogos Paraolímpicos de Atenas.
Se é certo que esta bolsa tem efeitos retroactivos a 2003 e 2004, é também verdade que toda a preparação dos atletas foi feita à custa de si mesmos, do apoio das instituições a que estão ligados, que lhes disponibilizaram técnicos inteiramente dedicados e os espaços adequados à sua preparação, e da bolsa proveniente do “Projecto Super Atleta” cuja responsável, a FDPP, pretendeu mobilizar o país para as causas do movimento paraolímpico. No âmbito deste projecto, com a finalidade de captar a atenção do público em geral e, particularmente, do segmento onde estas pessoas estão inseridas, foram nomeados seus embaixadores algumas figuras da vida pública portuguesa como o actor Ruy de Carvalho, ou os desportistas Eusébio e Rosa Mota, sendo Luís Figo o patrono. Em simultâneo foi criado um programa de patrocinadores regulares da Federação, o que permitiu a atribuição de uma bolsa em numerário aos atletas participantes e assegurou os meios financeiros necessários para despesas inerentes à presença da comissão portuguesa em Atenas.
De salientar a atitude de técnicos e de atletas que, embora gostassem de ser tratados de forma igual, está muito longe de ser uma postura de queixa. Como afirma Carlos Mota, um dos treinadores destacados para acompanhar os participantes na modalidade de natação: “Não somos tão apoiados como os atletas olímpicos, mas temos o apoio que é possível.”
De 17 a 29 de Setembro decorrerão os Jogos Paraolímpicos de Atenas e Portugal estará representado em seis modalidades: atletismo, basquetebol, boccia, ciclismo, equitação e natação. As deficiências de que são portadores os atletas participantes são várias: motora, visual, intelectual e paralisia cerebral. Congénitas ou adquiridas, elas são algo que os tem acompanhado ao longo dos últimos anos ou durante toda a vida, problemas com os quais se habituaram a viver, barreiras que tentam constantemente transpor. Nas diversas modalidades que praticam eles são agrupados de acordo com o seu grau de deficiência, competindo assim em igualdade de circunstâncias com atletas cujas insuficiências são similares às suas.
Em Portugal talvez soprem ventos de mudança: as objectivas da comunicação social começaram a mostrar os nossos desportistas ao país e uma ou outra janela mantém-se enfeitada pelas cores nacionais, em sinal de apoio aos participantes nos Paraolímpicos.
Quanto aos atletas, estes mantêm-se fiéis ao que sempre pretenderam: com ou sem visibilidade, honrar as cores nacionais como vêm fazendo desde 1988, ano da primeira participação de uma missão portuguesa nos Jogos.

Atletas da Gesloures, trabalho e companheirismo

Carlos Mota é treinador na Gesloures e um dos técnicos destacados para acompanhar os atletas da modalidade de natação a Atenas. É ele quem explica: “Na Gesloures temos uma estrutura de trabalho montada. Quando as pessoas precisam de fazer reabilitação, muitos dos médicos aconselham a natação ou a ginástica aquática. A Gesloures está preparada para os receber e fazer a sua reabilitação, mas temos também outras saídas – depois de aprenderem a nadar, quem quiser pode continuar a frequentar a instituição por lazer, da mesma forma que há quem continue por desporto de rendimento, com o objectivo de ir a provas e participar em competições. Aqueles que mais se destacam acabam por fazer marcas de qualidade internacional e participar neste tipo de eventos.”
Aos atletas, se há alguma coisa de comum que os caracterize, é a boa disposição. Aceitam-se como são, tentam tornear os problemas que a sociedade lhes coloca como o fez Leila Marques quando quis entrar para o curso de medicina. Aparentemente a lei barrava-lhe o acesso pela notória ausência de um dos braços. Após muita insistência da candidata, finalmente alguém teve o bom senso de entender que a rapariga “dificilmente poderia fazer cirurgias mas nada a impossibilitava de ser médica”. Frequenta hoje o quinto ano de medicina, conciliando o curso com os treinos, num horário que a obriga a levantar-se às 5h30 para fazer duas horas de treino às 6h, seguir para a faculdade e voltar para a musculação às 17h.
Em circunstâncias semelhantes Susana Barroso, Nuno Vitorino e Maria João Morgado.
Susana Barroso é portadora de uma disfunção muscular progressiva. Embora sempre com esperança que a evolução da genética lhe venha a impedir a progressão da sua doença, tal não a impede de ocupar um cargo de responsabilidade no campo profissional e ser bi-campeã europeia de natação e vice-campeã paraolímpica nos 50 metros costas. Por seu turno, o nadador e informático na Câmara Municipal de Lisboa, Nuno Vitorino, afirma que “há muito sacrifício por parte dos atletas para chegar aos Paraolímpicos. Apenas 5% deles, ou talvez menos, conseguem cumprir esse percurso”, ao mesmo tempo, e sem falsas modéstias, declara: ”Sinto-me orgulhoso por fazer parte desta equipa de elite.” Quanto a Maria João Morgado, vítima de uma paralisia cerebral provocada à nascença, encara a vida com um ar sorridente. Fala cinco línguas e trabalha em traduções como free-lancer, ao mesmo tempo que faz um curso profissionalizante que lhe permitirá vir a ser monitora de pessoas portadoras de deficiência.
Observá-los entre eles é uma lição de camaradagem e boa disposição. O que um tem dificuldade em fazer há outro que pode ajudar, para o que nenhum consegue, existe Carlos Mota. Fora dos treinos ele é o companheiro capaz de auxiliar no que for necessário. Porém, dentro de água, as pressões mudam. Os atletas têm de lutar contra o relógio e o treinador não tenciona ver a modalidade como forma de fisioterapia. Tal como afirma: “As medalhas são importantes, sim. Eles são atletas como quaisquer outros e tenho a obrigação de exigir deles“.
É neste equilíbrio entre o ambiente descontraído e o de trabalho intenso que vive a capacidade de ultrapassar barreiras e verem concretizado o sonho que foi o de serem convocados para os Jogos Paraolímpicos de Atenas e agora, o de trazerem medalhas na bagagem.


O boccia, uma outra realidade

Modalidade para muitos desconhecida, o boccia foi criado a pensar especificamente nas pessoas com deficiência mental. Contudo, é praticado por atletas com esta característica como por para e tetraplégicos, alguns deles também vítimas de distrofia muscular degenerativa.
Se entre eles existem os que são relativamente autónomos, outros há que por dificuldades ou impossibilidade de sincronização motora, muitas vezes aliadas à dificuldade de fala, dependem em quase tudo de alguém. É nestes casos que a relação entre atletas e acompanhantes técnicos é mais surpreendente.
A professora Helena Bastos, treinadora e seleccionadora nacional da modalidade, explica, referindo-se aos acompanhantes técnicos, “eles são uma extensão do jogador que lhes diz o que eles têm de fazer através de inclinações do rosto. Estes acompanhantes, que em competição passam o tempo de costas para o jogo sem poderem sequer falar, entendem-nos muito bem, têm uma grande empatia com eles, são os braços que o atleta não pode usar”.
Para esta mulher, cuja voz e gestos estão envoltos numa calma impressionante, começar a trabalhar com os atletas do boccia foi um percurso absolutamente natural. Nas suas próprias palavras: “Estas coisas acontecem. A pessoa vê, gosta e tem uma compensação pessoal muito grande que é a de ver os atletas satisfeitos e a evoluir.” Professora de educação física no ensino secundário e superior considera que o seu trabalhos com os atletas é o seu hobby: “Posso cansar-me mas é também um recarregar de baterias, porque eles têm problemas muito grandes mas vivem, tentam ser felizes e levar a vida para a frente.”
Quanto ao grupo que irá estar presente em Atenas, Helena Bastos afirma que “em termos de campeonatos nacionais lutam ponto por ponto mas competem de uma forma muito saudável. Em competições internacionais funcionam muito unidos - o fracasso ou o sucesso de qualquer jogador reflecte-se em todos os outros.” E o facto de os meios de comunicação social lhes estarem a dar alguma evidência “é muito bom. Estes atletas eram indivíduos que há uns anos atrás estavam fechados em casa, sem que ninguém lhes prestasse atenção. Esta visibilidade faz com que os familiares e os amigos apareçam. Deixaram de ser os coitadinhos e sentem que são capazes de fazer coisas”.
Magazine Domingo - 19.09.2004

dentro da tenda

Na arena, à noite, circo é magia. Durante o dia, para lá das lantejoulas e das maquilhagens, é o quotidiano de gente vulgar, provavelmente mais feliz do que o comum – fazem o que gostam, amam a liberdade da sua forma de vida e afirmam que no circo é como em todas as profissões, há gente bem sucedida, outra nem por isso. Falamos do “Circo Ruben”, poderia ser de outro qualquer.

Ângelo Dias fala pouco sobre si mesmo. Foram outros que nos contaram como aos seis anos já ensaiava acrobacias e como ainda hoje é recordado nos meios circenses de Itália. Um acidente na pista fez com que Ângelo desse entrada no hospital com um dos pés ao seu lado, conservado em gelo. Julgaram que não voltasse a andar, contudo a vontade do homem foi mais forte do que as suposições dos médicos. Regressou à pista mas as dificuldades dos exercícios eram agora excessivas para o seu corpo lesionado. Ângelo optou por tornar-se domador de tigres, e criar a sua própria companhia.
Sempre a seu lado tem estado Isabel, nascida e criada em Mértola. O casamento com Ângelo trouxe-a para o circo já lá vão nove anos. À pronúncia, se alguma a vez teve, deve tê-la trocado ao longo do tempo pelo dia-a-dia atribulado da vida circense. Sorrindo, diz que hoje teria dificuldade em se readaptar à vivência calma que tinha anteriormente.
Se a Ângelo cabe tratar dos ensaios das luzes, música, artistas e pessoal de apoio, além das burocracias essenciais às deslocações da companhia, Isabel trata dos animais que, como diz, são “sempre a prioridade no circo”. É fácil encontrá-la junto dos bichos, de manhã cedo, de forquilha na mão, limpando o local e orientando o empregado que a apoia.
Também os filhos são essencialmente da responsabilidade de Isabel. Quando regressa à caravana após o tratamento dos animais, encontra Eveline, nos seus cinco meses, sorridentemente untada em chocolate que um dos irmãos lhe deu. Ângela, a mais velha dos quatro, passeia-se num vestido da mãe, enquanto Ivan e Ruben ostentam felizes a liberdade da sua nudez.
Isabel tenta repor a ordem na trupe loira que se dispersa em gargalhadas por entre caravanas. Eveline, porque ainda não anda, acaba por ser a mais fácil de tratar. A ideia do banho arranca-lhe sonoras reclamações mas regressa menos pegajosa e com o mesmo sorriso.
Ângela, muito feminina e ciente do seu estatuto de irmã mais velha, já trata de si mesma vestindo-se e escovando a longa e rebelde cabeleira.
Enquanto a mãe consegue vestir e calçar Ivan, Ruben aparece com uns calções vestidos, dos quais não tardou a desenvencilhar-se, e os seus sapatos serão os únicos a manter-se no degrau da caravana. Minutos mais tarde, torneando a intimidação de Isabel para que não voltasse a aparecer nu junto de si, o reguila de cabelo cor de palha surge com uma luva que lhe “veste” a mão: «olha mãe, estou “assim”». Isabel finge ignorar, prefere fazê-lo. Sabe que os filhos são felizes desta forma e que, a seu tempo, terão oportunidade de cumprir este tipo de regras sociais. Defende que vivam intensamente a sua infância mesmo que a sociedade os olhe de lado – as crianças nem dão por isso e ela aparenta não reparar.
No entanto, recorda uma manhã em que encontrou à porta da caravana um saco com roupas e sapatos. Alguém tinha visto Ruben no dia anterior a brincar todo nu e pensou: “coitadinhos, não têm roupas”. Num acesso de solidariedade, a pessoa revolveu o roupeiro dos netos conseguindo reunir coisas que já não lhes faziam falta. Só não deve ter entendido que aos miúdos do circo também não - eles apenas viviam a liberdade que aos seus netos era negada.
É por situações destas que o casal afirma que artista de circo não é gente sem eira nem beira. Quase todos têm a sua casa, igual a qualquer outra, onde regressam após as digressões. Lamentam que as pessoas os olhem de forma desconfiada ou com pena. Afinal o circo não é mais do que uma empresa, sem relógio de ponto, que circula por aí em camiões e atrelados.
Que lhes dêem melhores condições para exercerem a sua profissão é tudo o que pedem, o que se pode resumir à disponibilidade para aluguer, a preço justo, de terrenos públicos onde possam actuar no Inverno sem que a assistência tenha de se sujeitar a enterrar os pés na lama ou sem que os animais se assustem perante um ressalto do piso.

Se no estrangeiro os circos têm um professor pago pelo estado para acompanhar os filhos dos artistas, em Portugal as crianças andam de escola em escola, ao ritmo das caravanas.
Se falarmos nos compêndios escolares, só no ano lectivo 2003/2004, para que Ângela conseguisse acompanhar minimamente os colegas do primeiro ano, Isabel comprou cinco manuais diferentes - um por cada escola por onde a criança passou, o quinto para que ela mesma pudesse exercitar um pouco mais a filha. Para minimizar esta situação, apesar das deslocações do circo, Isabel prefere muitas vezes manter a criança por mais umas semanas na mesma escola, chegando a fazer 120 quilómetros por dia para a transportar.
Domingo Magazine 05.09.2004

arte-xávega na margem sul


A escassos quilómetros da capital ficam as praias que muitos dos lisboetas frequentam: o areal que se estende entre a Costa de Caparica e a Fonte da Telha. Outrora terra de pescadores, hoje ainda há por lá gente que faz da faina a sua profissão. No Verão, ao longo do dia, pode ver-se um ou outro junto dos barcos, a preparar as redes. Quando as praias começam a ficar vazias de gente, eles invadem os areais. É a arte-xávega, que ainda se pratica na zona.

Do molhe, olhando para Sul, avista-se um aglomerado diferente de pessoas. São cerca das 18h30 e o sol começa lentamente a baixar. Com a proximidade percebe-se que aquela é gente da terra, melhor dizendo, que é gente do mar. Todos usam oleados, alguns trazem gorros de lã, preparados para o frio ao largo. Movimentam tractores, mexem nas redes, entram e saem das “chatas”, que é como quem diz barcos, naquela região. Não falam muito, o que dificulta o contacto. Recuando no tempo, vêm à lembrança muitas horas a andar nos areais, muitos rostos fechados. Quis o acaso que um dia o Buissa salvasse a máquina fotográfica de sucumbir entre as ondas enquanto eu me ocupava a engolir borbotões de água salgada. Na chata e em terra haviam risos, mas o gelo estava quebrado e ficou uma ténue ligação: “Apareça quando quiser. Pergunte pelo Paulo Graça. Aqui toda a gente o conhece, é ele o arrais.”

O mestre mais novo da zona

Ser arrais de uma chata é um estatuto, é ser conhecido não apenas entre a comunidade dos pescadores mas também por toda a vila, pelo menos entre os residentes mais antigos, mesmo que sem ligações ao mar. E Paulo Graça é-o, apesar de ser o mestre mais novo da zona. Com os seus trinta e nove anos nota-se-lhe no porte e no olhar alguma rebeldia, talvez ainda resto de uma juventude cheia de afirmação própria. O seu rosto fechado é capaz de se abrir num sorriso quando fala de coisas que lhe dão prazer ou ganhar um ar longínquo enquanto passa as mãos nos cabelos de alguma das filhas “é por elas que eu trabalho tanto”, afirma, com o olhar num local inalcançável. “Não as quero no mar, é uma vida muito instável. Até podem ir por brincadeira, mas a sério só quando tiverem uma ocupação estável.” Para elas sonha com a medicina, mas esta escolha já não lhe pertence. Suas foram as opções que foi tomando ao longo da vida. Filho, neto e sobrinho de pescadores, com doze anos já andava ao mar. Aos catorze, assim que a lei lho permitiu, tirou a cédula marítima. Primeiro de pescador, até chegar ao mestre de costa, que é hoje. Aos dezoito anos, ”porque queria ser mais independente e ter as minhas coisas”, deixou de acompanhar o pai na faina, passando a andar às ordens de outros arrais. Até que, por “brincadeira aí com outros companheiros que diziam que era bom”, fez-se imigrante pela Europa. “Fui experimentar, mas não gostei. Voltei para a pesca.” Sentado no muro, com as mãos apoiadas, balançando os pés pendentes, olha para baixo quando queremos saber o que o atrai tanto na pesca: “tudo. É a adrenalina que isto tem. Gosto de andar no mar.” Vendo-o a comandar o Neptuno, o barco de que é arrais, pleno daquela segurança que só possuem os que gostam do que fazem, sente-se que não mente.

A instabilidade da Natureza

Paulo Graça dedica-se à arte-xávega de Maio até Novembro, “a partir daí o peixe migra e nós deixamos de pescar porque não é rentável”. É sobretudo desta instabilidade motivada pelo factor Natureza que se queixa,” há anos em que há muito peixe, outros em que há pouco. O peixe passa por aqui mas segue, não fica. Nos outros anos tem havido muito camarão, que é a comeria do peixe e aguenta por cá o carapau, a lula. Principalmente o carapau, quando tem muito alimento fica junto à costa, se não tem, amara” diz, rematando ”e este ano tem sido dos piores dos últimos 10.” Ocorrem-nos então todas as vezes que, após a abertura do saco da rede sobre o oleado, vimos sobressair as sardas e os caranguejos, espécies que ninguém compra, ao mesmo tempo que se ouvia: “Isto hoje nem para o gasóleo dá”. Como fazem, nessas alturas? “Acumulamos a despesa até que venha um dia que dê para as pagar. Chegam por vezes a ser muitos dias à espera disso.” Quanto aos próprios pescadores, alguns estão prevenidos com algum dinheiro amealhado nos dias melhores, outros apoiam-se nas pequenas reformas. No caso de Paulo Graça, pode contar também com o ordenado fixo da mulher, mas nem sempre é fácil fazer face às despesas diárias. Casos há em que apenas o peixe distribuído entre todos impede que as, já de si precárias, condições de vida piorem. É o motivo por que Paulo Graça diz que a arte-xávega “ajuda muita gente a sobreviver”. Observando os pescadores ao longo da praia, constatamos que muitos deles já estão bem longe da juventude, o que nos faz inquirir sobre o futuro desta arte. A realidade é que já só os mais velhos sabem montar as redes para este tipo de pesca, que têm uma forma própria. Se Paulo Graça começa agora a preocupar-se em aprender a montá-las, diz-nos também que não tem conhecimento de muitos mais companheiros que o façam. Contudo, a resposta vem rápida: “a arte-xávega não acaba. É a arte mais antiga que há no país e talvez do mundo. Não acaba, nem que seja para manter a tradição, como já fazem em alguns sítios”.

Depois do Verão

Chegado o Inverno, Paulo Graça dedica-se à pesca do polvo e “da rede de emalhar. É uma pesca mais perigosa, feita em alto mar, ali na barra. Por vezes o mar vira de um momento para o outro e apanha-nos lá no meio”. Por isso, considera a pesca mais fácil no Verão, mesmo que possa ganhar menos. Do Inverno recorda dois naufrágios, o último deles há um ano, na barra, no qual perdeu quase tudo: um amigo, o barco, as redes, e ia perdendo também a vida, não fosse outra embarcação tê-lo resgatado ao fim de três horas de andar à deriva sem que nenhuma patrulha marítima desse por isso. Na sua opinião, “a polícia anda mais à procura da multa – se pescamos no canal, somos multados, se pescamos a menos de duzentos metros de terra, somos multados…” Sem grande parte do rio para trabalhar, os pescadores “afastam-se para o largo, para zonas bastante mais perigosas onde ocorrem por vezes grandes acidentes e, porque não há qualquer proibição, não existe patrulhamento.” Foi o que aconteceu no seu último naufrágio. Se o assustou? Claro que sim, mas ficou sem nada e não pode parar. O barco, por se tornar muito caro, não estava no seguro e ajudas não as teve, embora obtivesse algumas promessas, nomeadamente da junta, ainda por cumprir. O que tem a fazer é tentar recuperar o que perdeu e sabe que, se arriscar um pouco, a pesca de Inverno será bem mais compensadora do que a do Verão. Até lá, para sua sobrevivência e para prazer de todos que queiram assistir, vai seguindo o ritual da arte-xávega: o tractor que leva a chata ao mar, as primeiras remadas dadas pelos pescadores até que o motor possa ser posto a trabalhar, o lançamento da rede e o regresso a terra, enquanto os outros dois tractores tratam de alar os braços da rede até à chegada do saco que será aberto sobre o oleado. Tudo isto uma, duas, três, as vezes que o mar lhe oferecer peixe.
Notícias Magazine #639 - 22.08.2004