maio 20, 2007

Choque tecnológico à portuguesa


Bell, Marconi, Diesel ou Edison, são nomes que nos trazem à ideia produtos de uso comum, inventos que simplificaram e melhoraram a nossa vida. Porém, a individualidade, que distinguiu a invenção até ao início do século XX, deu lugar a outros princípios.

Nos tempos modernos, a criatividade é caracterizada pela multidisciplinaridade, passou a desenvolver-se em empresas, universidades e pólos tecnológicos. Cada invento é essencialmente anónimo, resultante não do trabalho de uma pessoa mas de uma comunidade.
Terá o inventor independente perdido lugar na sociedade? Camilo Rodrigues, presidente da Associação Portuguesa de Criatividade (APC), acredita “continuar a haver espaço para os inventores independentes”. E isto, “como resolução das situações práticas do dia-a-dia, mas também para soluções tecnológicas mais avançadas”. Para o responsável pela APC, a independência do inventor facilita que este explore o caminho menos provável, aquele que vai contra as leis aceites e estabelecidas. E talvez seja aqui que começam os problemas dos criadores independentes em Portugal. É o caso de Jesuvino Moleirinho, reformado da Lisnave, neste momento a braços com a tentativa de encontrar quem ceda em lhe fazer os testes à sua novíssima turbina eólica. As pás desta turbina, colocadas na horizontal, aparentam produzir o quádruplo da energia fornecida pelos geradores tradicionais. Do INETI, organismo onde se dirigiu e por nós contactado, a resposta veio clara, de quem preferiu manter o anonimato: “até podemos dar um parecer positivo, mas dificilmente o senhor Moleirinho conseguirá ir contra as ideias instituídas”.
Dias antes, já Camilo Rodrigues, previra atitude semelhante ao afirmar a propósito: “quando uma coisa destas cai num instituto ou numa universidade, o inventor é olhado como o palerma que põe a hélice na horizontal quando todos os fabricantes estão a fazer doutra maneira.” Contudo, “está ali a pequena centelha que o inventor que o inventor independente ainda pode dar. Pode ser essa pequena mudança a originar que uma coisa daquelas se torne ainda muito mais rentável do que já é”.
A hipótese deste parecer traz-nos uma questão mais abrangente que não se prende apenas com Portugal, antes sendo uma característica comum ao Velho Mundo. “A Europa está velha e gorda”, diz Camilo Rodrigues. Na sua opinião, que parece reunir o consenso dos inventores, “ao nível da inovação, há uma dinâmica muito mais intensa nos chamados novos países”. Partindo do exemplo dos Estados Unidos, onde as próprias entidades oficiais analisam periodicamente o registo de patentes sugerindo parcerias aos inventores independentes, a diferença em relação ao peso da burocracia, nomeadamente em Portugal, é notória. Além disso, do outro lado do oceano aposta-se muito mais em coisas práticas e rentáveis, mesmo que tecnologicamente menos evoluídas. Reportando-nos à indústria aeronáutica, exemplo disso é a criação do Concorde, maravilha tecnológica, por parte da Europa, em relação ao Boieng, menos evoluído, incapaz de ultrapassar duas vezes a velocidade do som, mas que veio incrementar as viagens transatlânticas através da democratização dos preços. Se é facto que o projecto europeu Airbus está agora a singrar, para Camilo Rodrigues, “a Europa acordou passados muitos anos e muitos milhões de dólares”.

Um muro feito de burocracia

Ultrapassar a barreira da burocracia e dos preconceitos à novidade nem sempre parece fácil num país cujo governo assumiu o choque tecnológico como estandarte, mas onde a comunidade científica continua a olhar de esguelha as ideias nascidas fora do seu círculo e os empresários dão preferência ao investimento seguro. O resultado, são invenções apenas patenteadas em Portugal que, decorrido o período de direito de prioridade, podem ser livremente utilizadas por empresas estrangeiras. Nos raros casos de sucesso, ele é obtido à custa de empenhamento solitário e riscos económicos pessoais. Os prémios e as medalhas até são conseguidos; tornar os inventos artigos de uso comum é que parece mais complicado. Não por falta de interesse do público mas pela ausência de investidores.
Jesuvino Moleirinho, também o sabe por experiência própria. Das ideias deste homem nasceu o “sapato ventilado”, que apresentou no Salão de Inventos de Genebra. De lá trouxe uma medalha e uma lista de 35 empresas, de vários pontos do mundo, interessadas em revender o sapato. Porém, nem essa lista motivou qualquer industrial português a ensaiar a produção do artigo, antes deixando às marcas estrangeiras a exploração e rentabilização da ideia que originou os hoje célebres ténis com caixa-de-ar. Desta invenção, Moleirinho lucrou apenas a certeza de que, em países com tradições de investimento, a sua ideia é comercialmente rentável. Além disso, e apesar de tal não produzir euros, pode sempre inscrever a patente no currículo, mesmo que muito poucos tenham conhecimento do facto.
Não é motivo de surpresa, esta usurpação legal de ideias. A Europa está unificada mas as patentes continuam a ser pedidas país a país e, habitualmente, qualquer invento apenas é objecto de registo no estado de residência do seu criador. Por si só, e durante 20 anos, sem autorização do inventor, a existência desse registo é impeditiva do fabrico do produto no território onde está patenteado, restando ao criador o período de um ano para proteger a sua ideia no resto do mundo. Porém, muitas vezes sem dinheiro e sem qualquer tipo de incentivos ou certezas quanto ao eventual interesse de empresas estrangeiras, o inventor independente raramente arrisca a gastar milhares de euros em patentes internacionais. Passado esse período, o invento passa então ao domínio público, podendo ser comercialmente explorado a nível mundial.
Edgar Castelo é inventor a tempo inteiro, “que é a mesma coisa que dizer que estou desempregado”, afirma. “Isto é um apartheid tecnológico. Quem é doutor, tem direito a falar de inovação, quem não é doutor, é mão-de-obra barata. Em Portugal, na Europa toda é assim”, queixa-se. “Eu, nesta Europa, já fui a Genebra, já ganhei uma medalha de ouro, duas medalhas de prata, várias medalhas de bronze. O que é que isso me deu?”
O primeiro invento de Edgar Castelo foi um compasso para desenhar elipses. Tinha dezoito anos. “Naquele tempo estava a estudar design, ainda estava no liceu”. Não terminou o curso e insistiu nas invenções mas, sem dinheiro nem apoios, manter a escolha tem-se mostrado complicado. Desenvolveu a ideia do “Triosk”, um triciclo quiosque destinado a deficientes motores. Em Genebra “ apareceu uma senhora que era esposa de um paraplégico e gostava muito de comprar uma coisa daquelas para ver se o marido fazia qualquer coisa com a vida - porque aquilo trata do emprego para pessoas deficientes motoras. Tive de lhe escrever uma carta a dizer que nós somos portugueses, portanto não fabricamos nada. Aquela invenção recebeu uma medalha de ouro em 2002 e o que é a Europa fez por essa invenção?”
Também o “BusStoper” foi premiado a prata no salão de Genebra. Invento destinado a deficientes visuais, “trata-se de um painel com números que se mostra aos autocarros, para os cegos possam mandar parar o transporte que querem”. Contudo, e apesar da simplicidade da ideia, o invento não mereceu melhor sorte que o “Triosk”. “Houve um senhor que disse: olhe, isto vai dar à pessoa o estigma de ser cego”, conta Edgar com um encolher de ombros de quem já se habituou a bater a portas que se fecham constantemente.

Fazer-se empresário é solução

Há porém quem aposte na produção própria dos seus inventos para conseguir fazê-los chegar ao circuito comercial. Fernando Braamcamp, presidente da Junta de Freguesia do Alto Pina, com a sua “cadeira de banho”, pensada para deficientes, é um deles.
“A ideia surgiu de pensar como é que os deficientes entravam para a banheira. Perguntei a um, que tomava banho assim com uma coisa tipo malabarista”. Ao investigar o que oferecia o mercado a nível mundial, depressa concluiu que relação qualidade/preço era muito desnivelada. Começou então a pensar numa cadeira que proporcionasse às pessoas um modo de fazer a sua higiene pessoal de forma mais autónoma, “porque muitas pessoas precisam de ajuda não para se lavarem mas para transpor a banheira”. Surgiu a “cadeira de banho”. Explica: “as pessoas dizem: mas isso é o ovo de Colombo. E é verdade. Não inventei nada, só juntei duas funções nesta cadeira: o movimento rotativo, que normalmente todas têm, com o movimento de translação, para vir fora da banheira”.
Ajuda, para testes ou comercialização desta ajuda técnica, nunca os conseguiu. “O que nós precisamos é de um apoio, não apenas a nível monetário mas a nível institucional, de testes, um técnico que nos diga, olhe, ponha lá esta rodinha. Demorei muito, até chegar à roda com a resistência e desempenho necessários, porque eu fiz testes, fiz uma análise de risco à cadeira, tudo foi testado à exaustão. Todas estas situações, o estado também não garante, porque depois é uma universidade daqui que investiga dali, não há canais privilegiados para isso. Nem na parte dos tecidos monetários, nem na parte dos apoios técnicos”. Optou então por ser ele mesmo a testar o seu produto com o apoio do Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão, pedir a certificação do Instituto Nacional da Farmácia e do Medicamento (INFARMED). Munido destas duas certificações, passou a fazer a apresentação da cadeira porta-a-porta, tornando-se o vendedor do seu próprio artigo, sobretudo em lares de terceira idade. Porque não vender a patente? “Tive aqui também uma preocupação social de tentar que o produto chegasse a um preço justo a quem dele necessita, o que de outra forma seria difícil”, diz.

Energias alternativas

Também Virgílio Preto, engenheiro civil, pensa conseguir ver tornar-se realidade o seu projecto que pretende rentabilizar a energia das ondas. “A ideia nasceu espontaneamente. Foi a observação, conhecimentos internos, depois, tudo conjugado, formou um conceito”.
Para o conseguir, Virgílio Preto criou uma empresa, a Enerwave, à qual se juntam capitais de outros investidores, e tem vindo a estabelecer protocolos com a Universidade do Minho e a Universidade de Aveiro no sentido de criarem “uma unidade, em pequena escala, mas em condições reais e naturais” capaz de aferir da rentabilidade do invento. Será dos poucos casos em que se verifica uma verdadeira cooperação entre um inventor independente e outros parceiros tecnológicos, contudo, “o processo tem sido bastante complicado porque quer a comunidade científica quer a vocação dos apoios, neste momento, estão canalizados fundamentalmente através das universidades das empresas tecnológicas. As coisas estão perfeitamente definidas e é extremamente difícil um inventor independente ultrapassar todas essas barreiras”. Para Virgílio Preto, “Existem mecanismos e formas de apoio reais, o estado português e a comunidade investiram muito dinheiro a criar os organismos mas o investimento não foi feito em formação e devidamente explicado a essas entidades o que é que o país esperava delas. Porque todas estas entidades só têm razão de ser se o benefício para o país for francamente positivo”. E, na opinião do inventor, não é isso que se passa e “os projectos acabam por entrar e morrer porque os organismos em si, em vez de serem uma entidade incentivadora, cortam muitos do projectos à nascença”.
Persistente, Virgílio Preto tem este projecto já patenteado a nível internacional, acreditando que o seu será um dos que conseguirá vingar entre os 5 existentes a nível mundial.
Ao mesmo tempo tem vindo a progredir num outro invento ligado à energia eólica: “Neste momento os sistemas eólicos são baseados para grandes produções e este sistema deixa de ser uma central para produção geral para passar a produzir para sistemas individuais. Pode adaptar-se aos condomínios, aos prédios, às moradias, digamos que é uma democratização da produção de energia”.
Das suas ideias que não consegui concretizar, o inventor diz nunca ter sentido especiais frustrações sempre que se apercebeu que elas eram posteriormente aproveitadas e até rentabilizadas. “Fiquei satisfeito. No fim de contas, eu não tive as condições ou as capacidades para desenvolver as coisas mas verificou-se que eram boas ideias e que tinham viabilidade comercial e real”.

O melhor ecrã do mundo

Joaquim Candeias é arquitecto de formação e desde sempre se sentiu atraído pela imagem. Ver filmes em sua casa com a qualidade que conseguia no cinema foi o seu objectivo quando começou a trabalhar naquele que hoje é considerado o melhor ecrã a nível mundial, o Lusoscreen. São 26 vezes mais luz que o comum dos ecrãs e o dobro do seu mais directo seguidor, um americano. No que toca ao contraste, mais uma vez o Lusoscreen bate, agora por K.O., o adversário americano. São 359 vezes mais de contraste, do português, contra as 13,2 vezes para o produto dos Estado Unidos. “A maior vantagem deste ecrã é poder estar numa sala sem fechar as luzes, sem fechar as janelas, e conseguir ter uma imagem como se estivesse às escuras”, explica Joaquim Candeias. O próprio vice presidente da Sanyo japonesa deslocou-se a Portugal na tentativa de adquirir os direitos de produção do ecrã, mas as condições propostas não agradaram ao seu criador que decidiu tornar-se empresário investir na produção por conta própria.
Do seu percurso como inventor, o arquitecto diz ter começado “por conseguir umas quantas coisas que depois vi surgirem lá fora. E, à semelhança de muitas outras pessoas em Portugal, apanhei dores de barriga, frustrações, senti-me mal, etc. Num dado momento desisti, de registar patentes, comecei a guardar segredo, até que um dia tivesse eventualmente condições para fazer. O ecrã foi um deles”.
Para Joaquim Candeias, os organismos oficiais em Portugal “não reagem” aos inventos nacionais. Em 1996, quando chegou da Cebit-Home, de Hannover, onde o ecrã foi considerado Grande Inovação, trouxe uma lista com “cerca de 150 empresas interessadas em revender o ecrã”. Sem qualquer tipo de incentivos que não a própria listagem que tinha em mãos, conseguiu entregar o primeiro ecrã que lhe tinha sido encomendado passados dois anos.
Tem aliás uma história com um empresário espanhol, interessado em revender os ecrãs, que havia perdido o prospecto onde figurava o contacto de Candeias. “Já tinha telefonado para o ICEP [Instituto das Empresas para os Mercados Externos], para o Ministério dos Negócios Estrangeiros, para ver se sabia quem é que produzia o ecrã e ninguém sabia”, conta Joaquim Candeias. “Disse-me: porque é que isto não faz ‘boom’? Um ecrã destes tinha a hipótese de criar imensos postos de trabalho, trazer divisas para o país. Em Espanha teria logo todo o tipo de apoios para fazer isto em grande escala e exportar”.
“Em Portugal não é bem assim que se passa”, afirma Joaquim Candeias que chegou a vender a sua própria casa para fazer face às dificuldades entretanto surgidas. De um pequeno armazém de azeitonas, onde iniciou a sua actividade, ocupa hoje um espaço na zona industrial de Palmela. “Tem-se conseguido”, afirma o agora empresário, “já não volta para trás”.


Notícias Magazine #782 20 Maio 2007

abril 26, 2007

Costa de Caparica - "Terra mal amada"



A 7 de Dezembro de 2006 o estado é de alerta permanente. O cordão dunar a norte da Costa de Caparica corre o risco de rompimento. A segurança dos apoios de praia e do parque de campismo do INATEL fica comprometida. Uma intervenção de emergência evita o pior numa área que, por várias vezes, se tem visto fustigada pelo mar. O que provoca a erosão da Costa de Caparica?

“Terra mal amada”, é como António Neves, presidente da Junta de Freguesia, designa a Costa de Caparica. “As pessoas de Trás-os-Montes e da Beira Alta queixam-se da interioridade, eu queixo-me da proximidade. Se estivesse na Costa Alentejana ou a Costa de Caparica fosse no Algarve, se calhar tinha outro tratamento que não tem aqui”.
Apenas a 10 km do centro de Lisboa, as praias da Costa de Caparica contavam outrora com um extenso areal que, entre 1957 e 1963 recuaram 120 metros. A erosão da zona costeira é conhecida mas na Costa de Caparica ela tem sido acelerada. Afinal, o que aconteceu em Dezembro de 2006? “A questão que se coloca aqui já vem de há anos”, afirma o autarca. “Em determinada altura houve muito pouco cuidado na manutenção dos esporões, o que levou a que a sua eficácia fosse praticamente nula”.
Já em 2001 o mar atentou contra a integridade do cordão dunar destruindo vários apoios de praia, o que “coincidiu com o início dos estudos daquele troço de costa. Na altura estava-se a fazer o estudo prévio”, avança António Borges, técnico do Instituto da Água (INAG), desde Dezembro de 2006 a braços com o risco de rompimento do cordão dunar nas praias de S. João da Caparica. O estudo em questão, elaborado pela equipa do Professor Veloso Gomes, da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), tem a ver com a frente costeira urbana da Costa de Caparica, aconselhando a recuperação dos esporões e a reconstrução da defesa aderente, numa obra a executar em duas fases. Porém o projecto, que ficou concluído em Dezembro de 2001, “só apareceu no terreno em Dezembro de 2004”, esclarece António Neves e, mesmo assim, apenas a primeira etapa da intervenção foi efectuada. “Imediatamente a seguir devia ter-se processado a segunda parte da obra, que era o preenchimento artificial de areias dos espaços que foram intervencionados, ou seja, até ao INATEL”. Essa alimentação artificial deveria ter sido feita com 3 milhões de m3 de areias de origem off-shore e dessa operação, de acordo com o estudo prévio e projecto base da FEUP, as dunas da praia de S. João viriam também a beneficiar. António Neves continua: “não foi feito, não sei porquê. Dizem-me que não havia dinheiro. A única certeza absoluta que eu tenho é que era aconselhável que, após o acabamento dos trabalhos da primeira fase, se passasse quase no imediato à segunda fase e não se passou”.
Contudo, para António Neves “é óbvio que não é só disto que resulta a invasão do mar. Resulta também e muito, para não dizer que é o principal responsável, do desaparecimento da restinga de areia que ali existia, entre a Cova do Vapor e o Bugio, que desapareceu na década de 60. No princípio da década de 60 já estava a ser reposta e desapareceu na década de 90. Na parte final da década de 90 voltou a desaparecer”. A restinga a que António Neves se refere é a Golada, um banco de areia sedimentado ao longo de centenas de anos entre a Trafaria e o farol de Bugio. “Hoje ainda existem pessoas que, quando eram crianças, na maré baixa, iam a pé, da Cova do Vapor e da própria Trafaria, até ao Bugio”, afirma o engenheiro António Rodrigues.

A importância da Golada

A ruptura da Golada teve início nos anos 40 do século XX, quando daí começaram a ser retiradas areias cujo destino foi, conforme António Rodrigues, “fundamentalmente fazer os cais de Lisboa, segundo rezam os documentos que temos”. Consequentemente as areias, que outrora limitavam a sua circulação entre as praias da Caparica e a restinga, adquirem um ponto de passagem que lhes permite a migração para norte. A livre circulação das areias leva a que estas se instalem no canal de navegação do Porto de Lisboa, obrigando a drenagens periódicas, ao mesmo tempo que originam a erosão costeira na Costa de Caparica.
Em 1964 o mar invade a então vila e é feita a primeira intervenção com a construção de um dique de protecção marginal e de nove esporões. Essa obra e a reposição natural de areias na Golada terá sustido o impulso do mar durante cerca de 30 anos mas, ainda pelas palavras de António Rodrigues: “mais tarde há notícias das quais eu não tenho confirmação de que, até 1998, também foram retiradas dali [da Golada] areias para fazer os aterros da Expo”. Já em 2001 o cordão dunar fica em risco de rompimento: “há uma coincidência entre 1998 e 2001. Estes fenómenos não são imediatos”. Quando ocorre o perigo de ruptura do cordão dunar, “houve a destruição dos bares, os quais estavam muito mais avançados em relação à linha de costa do que estão neste momento”, continua o engenheiro do INAG. Em 2003, nova ruptura, desta vez na obra de defesa aderente e finalmente, em 2006, de novo o risco de fractura do cordão dunar que originou uma operação de emergência, que continua a ser efectuada na tentativa de travar o ímpeto do mar. De caminho, a esplanada de um dos bares, “O Búzio”, também foi destruída, não sendo de fácil compreensão o motivo pelo qual esse e outro apoio de praia, “O Pé Nu”, se encontravam posicionados em local de perigo eminente. António Borges é peremptório ao afirmar que “o plano de ordenamento da zona costeira define exactamente quais são as zonas em que os bares têm de ficar: os bares têm de ficar atrás das dunas”. Da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo (CCDRLVT), organismo que licencia as concessões de apoios de praia, a Vega não conseguiu obter qualquer resposta, antes tendo sido remetida para o INAG.

Soluções sem fim à vista

Segundo a Lusa, Francisco Andrade, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, ao falar numa conferência sobre erosão costeira e ordenamento do território organizada pelo Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente (GEOTA), defendeu que “deixar o mar galgar as dunas da Costa de Caparica e retirar as populações das zonas de risco poderá ser a solução para o problema da erosão”. Para Carlos Costa, Presidente do GEOTA, a solução adoptada pelo INAG “é um paliativo que se fundamenta na confiança cega na ‘engenharia pesada’ que domina o imaginário técnico nacional, que sossega as consciências de políticos de todos os quadrantes e que dá muito dinheiro às empresas de construção”. Opinião diversa tem o engenheiro do INAG que afirma “é bom é que as pessoas que defendem essa solução façam contas. Quanto é que custa relocalizar uma cidade? Quantos milhões de Euros é que toda aquela zona da Costa de Caparica gera? É uma questão de custo/benefício.” Para António Borges a solução adoptada é a mais viável: repor a duna, numa determinada fase com areias retiradas de cabeços (zonas com de relevo em relação ao resto do fundo marítimo) existentes na própria praia e, posteriormente, numa intervenção que se espera para Março de 2007 e até ao início da época balnear, cerca de 500 a 600 mil m3 de areia provenientes das dragagens do canal de navegação da APL.
Já para o Presidente da Junta de Freguesia, a solução passa por uma obra de engenharia pesada, nomeadamente com o fecho da Golada. Quando inquirido sobre o tipo de intervenção que está a ser feita nas praias de S. João, ele responde “a obra que se está a fazer é uma obra de emergência, seguida de outra obra de emergência, com mais outra obra de emergência e com mais outra obra de emergência”. Acerca de quando se tornará a obra definitiva responde: “não sei. O senhor ministro é que deve saber. Ele é que preconizou pôr-se ali areia e que aquela zona de costa não se deve transformar em costa de pedra mas sim em costa de areia. As palavras são dele, não são minhas.”
É que a colocação de pedra na zona está para já fora de questão uma vez que, segundo afirmações do ministro do ambiente, Nunes Correia, ”a filosofia do Ministério do Ambiente (MA) é só colocar pedra onde ela já exista”, pretendendo assim manter as praias de S. João da Caparica sob a designação de “praias selvagens”, o que é confirmado por António Rodrigues quando afirma que “uma das grandes preocupações do MA é preservar aqueles mil metros de praia sem ser a praia artificializada”.
Porém, esta ideia de manter as “praias selvagens” é contrariada pela existência de um Plano Estratégico do Porto de Lisboa, em cujo relatório de síntese do Diagnóstico Prospectivo e Formulação de Opções de Desenvolvimento se pode entender o intuito de intensificar a actividade do Terminal da Trafaria “onde se movimentam 1,2 milhões de ton/ano [de granéis agro-alimentares] e se podem movimentar 4 ou 5 vezes mais, abrindo perspectivas para uma maior penetração na Estremadura Espanhola, o transhipment e outras utilizações industriais destes produtos”. Chega mesmo a haver uma proposta alternativa “de localização dum novo terminal de contentores da Trafaria, o qual poderá vir a ter uma extensão de 1000 m”, continuando: “Dadas as condições que poderão ser aqui criadas na implantação de um novo terminal de contentores, admite-se que possa vir a desempenhar um papel significativo na atracção de novos tráfegos para o Porto de Lisboa, nomeadamente no segmento de transhipment e no cruzamento de linhas de navegação transoceânica”.
Até ao fecho de edição da Vega, ainda decorrem as marés vivas e é difícil prever onde se irá deter o mar nas praias do norte da Costa de Caparica.

Vega Mar & Aventuras #26 Abril/Maio 2007

fevereiro 12, 2007

"Sorriso Feliz"


Um sorriso sem cáries pode fazer a diferença entre um posto de trabalho e o desemprego. Por isso o Sorriso Feliz vai até às crianças levando-lhes informação sobre higiene oral, até como forma de prevenir uma futura inserção social.

O silêncio só é quebrado pelas palavras do Doutor Dentolas que, na televisão, leva os miúdos numa viagem pela Terra. O inimigo chama-se placa bacteriana, uns monstrinhos verdes que procuram avidamente qualquer sítio para se esconderem dentro da boca de meninos europeus, africanos ou asiáticos. Informar é o primeiro passo dado pela equipa do Sorriso Feliz no sentido da sensibilização aos cuidados de higiene oral. A população alvo são as crianças que têm dificuldade de acesso a esclarecimentos sobre o assunto. O intuito é que cheguem a adultos com uma dentição sã e que esta não seja factor de exclusão social.
“É importante que as crianças sejam sensibilizadas desde muito cedo para os cuidados a terem com a sua boca”, afirma Eloísa Teixeira, psicóloga educacional que com Elsa Silva, higienista oral, constituem a equipa de trabalho da unidade móvel do Sorriso Feliz. Por esse motivo fazem intervenções e palestras desde berçários até ao fim do primeiro ciclo. “Na maior parte dos casos as pessoas não imaginam sequer que a higiene oral deve ser feita desde que a criança ainda não tem dentes”, continua Eloísa. “Passar-lhes com uma compressa nas gengivas após a ingestão da papa é mais do que suficiente para convencer qualquer mãe”.

O Sorriso Feliz é um dos programas da Legião da Boa Vontade (LBV). Fundada há 56 anos no Brasil, a LBV chega a Portugal em 1989 fazendo na altura um trabalho pioneiro no apoio directo de rua aos sem-abrigo através da Ronda da Caridade. Com os anos, outras valências foram sendo implementadas. Surgem programas como Um Passo em Frente, destinado a diagnosticar dificuldades sentidas por indivíduos em risco, apoiando-os no sentido de ultrapassarem os problemas; a Semente da Boa Vontade, que consiste no atendimento em regime de ATL (Actividades de Tempos Livres) a crianças e adolescentes mais desfavorecidas e, desde há cinco anos, o Sorriso Feliz que, em alturas de Natal ou Dia da Criança adquire características do programa Semente da Boa Vontade ao fazer festas e oferecer prendas à miudagem.

Um autocarro doado pela Carris, com a cooperação de empresas e particulares transformado em ludoteca e consultório dentário, serve de apoio a este programa e constitui o rosto mais visível do Sorriso Feliz. Três vezes por semana e até fazerem o rastreio dentário a todos os alunos, o autocarro estaciona junto de cada escola que pede a sua colaboração. Além do ensino de uma forma lúdica, “o que fazemos é observar a boca de cada criança, proteger-lhes os dentes em bom estado com selantes, dar-lhes flúor e informar os pais sobre o estado oral do filho”, explica Elsa. Nos casos em que haja necessidade de intervenção médica, ela é facultada de forma gratuita, conduzindo a criança para clínicas privadas com as quais a LBV tem acordos. Já no Centro Infantil São Gerardo, na Cova da Moura, a equipa da LBV intervém sob a forma de excepção. É Maria José Moreno, coordenadora do São Gerardo quem explica: ”a LBV começou por tratar dos dentes dos nossos meninos no autocarro”. Posteriormente, o acordo entre as duas instituições foi renovado e “concordámos em que fosse um programa contínuo. Ofereceram-nos um escovário, com as gavetinhas, para cumprir todas as normas para que as escovas não se juntassem e, a partir daí, além de nos ensinarem a escovagem aos meninos, começaram a tratar dos dentes a nível de verem as cáries existentes”. A miudagem colabora, leva ensinamentos para casa e até reclamam quando pensam que não vão lavar os dentes após a refeição.
Sol #22 - 09 Fevereiro/2007

fevereiro 04, 2007

Golo a galope


A selecção portuguesa é vice-campeã da Europa na modalidade, mas nem por isso o Horseball é conhecido do grande público. Este é um desporto à conquista de adeptos e de patrocínios: jogar à bola a cavalo. Pura adrenalina, diz quem sabe.

O dia amanhece luminoso, sol a secar a humidade nocturna. Pelas queixas no camião ao lado, a noite anterior foi gelada. Os mais velhos procuraram aquecer-se pelas tasquinhas da Golegã; os mais novos, e únicos acordados àquela hora, enrolaram-se em mantas, após a disputa das meias-finais da Taça de Portugal de Horseball. Quase a culminar onze meses de campeonatos, o Sporting Clube de Portugal/Centro Equestre João Cardiga (SCP/CEJC) ganhou ao Cascais Horseball (CH) num jogo sem história. Por sua vez, o Horseball Club - Colégio Vasco da Gama (HC-CVG) venceu o Clube de Horseball de Alenquer (CHA).
HC-CVG e CHA regressam juntos às boxes, em discussão que raia a cavaqueira. Cláudio Oliveira, do CHA, promete oferecer as rédeas do seu cavalo a um dos adversários: “não as largavas!”. Pedro Santos, também do CHA, comenta ter ficado uns minutos sem visão por conta do braço de Marco Happel, do HC-CVG, duramente esticado para a bola. “Mas não perdi nada de interessante, pois não?”, o humor corrosivo de Pedro a perguntar. Aparentemente, além dos golos, o HC-CVG vencera também em faltas cometidas. “Onde está o van Uden?” é Pedro Serrano, capitão de equipa do CHA, quem se aproxima em demanda. Encontra o adversário, toca-lhe subtilmente no braço, ri-se, ar de puto traquina, apesar dos seus 30 anos: “foi muito bem feita, não foi?”. Só no dia seguinte havíamos de perceber, Serrano cometera uma falta apenas perceptível pelos dois jogadores. João van Uden, sorri: “foi um toque genial, serviu de aprendizagem”. E nem uma ponta de irritação por uma falta que o árbitro não viu? “Não. Talvez até algum orgulho. Significa que constituí perigo para um jogador mais velho e muito mais experiente do que eu”, assunto rematado por van Uden.

Dedicação, aos cavalos e à equitação, é a principal característica dos elementos de todas as equipas. Precisamente por isso, os horários de tratamento dos animais impõem-se sempre aos dos humanos. Com ou sem incursões nocturnas pelas ruas da Golegã, oito da manhã é hora de tratamento dos bichos. Equipas completas, elementos escalados ou tratadores habituais estão lá, para dar cumprimento ao ritual da ração e da água, que os cavalos não se compadecem com os vícios do homem. A equipa do HC-CVG, é a madrugadora. Nota-se que o espírito de grupo lhes é intrínseco: “é natural, foram assim habituados desde miúdos”, justifica a veterinária do clube, Eduarda Paisano. “Se não forem capazes de conviver juntos fora do campo, não conseguem estar unidos em jogo”. Pedro Santos também lá está. É ele quem chama “ganda maluco” a van Uden, e prende a focinheira da égua quando João aparece a montar em pêlo e cabeçada solta, comentando sozinho: “se ela se lembra de arrancar, estou feito”.
Sem equipamentos não parecem adversários. Encostam-se às boxes em troca de opiniões e experiências. Zé João Campeão aparece com uma forquilha cheia de palha. “Onde é que foste buscar isso?”. Veio das boxes do CH. No dia anterior, enquanto esperava pela chegada dos cavalos, João Maria Fernandes, do CH, advertira: “se perdermos, vamos imediatamente embora”. E foram. Da presença da equipa restavam palha e feno nas boxes abandonadas.
Menos de voltar as costas a derrotas, a equipa do CHA mantém-se no terreno. Instalados na zona das boxes, eles são o melhor exemplo do espírito amador da modalidade. Apenas têm o que Serrano designa de “paitrocinador” – Manuel Serrano, o pai, facilita o alojamento dos animais - e só com muito entusiasmo o calendário das competições é cumprido. Com o camião dos cavalos trouxeram carrinhas, sacos-cama, mesa, cadeiras e frigorífico. Durante três dias, é ali que vivem, verdadeiros anfitriões entre os horseballistas. Necessite-se de forquilha, escova ou dois dedos de conversa, é junto ao CHA que se vai buscar. Descontraído, Pedro Serrano acumula as funções de treinador e capitão da equipa. “Não é o melhor, mas ainda não conseguimos encontrar ninguém cujo espírito conjugue com o nosso”, conta. A curiosidade aumenta. Que espírito é esse? “Estamos aqui para nos divertirmos”. Deve ser verdade ou Natália Simões, a única mulher da equipa, não percorreria 120 kms três vezes por semana, para ir treinar a Alenquer tendo um dos clubes concorrentes ao título à porta de casa.
“Isto é um hobby, sem divertimento não valia a pena”, afirma Pedro. Um hobby onde quem não tem apoios, naturalmente, paga. “Mas não é tão caro como muitas pessoas pensam. Praticar karting, por exemplo, não sai mais barato”, diz enquanto se balança na mini-mota de um apoiante da equipa. Em termos médios, a manutenção de um cavalo para prática de horseball poderá custar perto de 200 € mensais.

O horseball continua a ser uma disciplina absolutamente amadora e a sua pouca visibilidade não tem atraído patrocínios de monta. A maior parte dos jogadores e técnicos continua a ter de se articular entre os inevitáveis compromissos profissionais e a prática de uma modalidade que apenas lhes acarreta despesas. Por outro lado, se o número de praticantes é suficiente para manter os vários campeonatos, já a ausência de uma carreira de árbitros de horseball pode levantar alguns problemas. A solução encontrada foi a de cada equipa fornecer o nome de uma dupla de jogadores que passam a constar de uma listagem aprovada pela Comissão Técnica de Arbitragem. Apesar de o sorteio estar previsto, a escolha dos árbitros é feita pelo Responsável de Arbitragem, lugar sujeito a eleição pela Associação de Jogadores de Horseball. Ou seja, a avaliação de cada jogo é feita por elementos de outras equipas, concorrentes no mesmo campeonato do jogo que arbitram. Não é difícil de adivinhar as não raras situações de acusação de favorecimento do árbitro a esta ou àquela equipa, como forma de beneficiar a sua própria.
Afinal, que tem de tão estimulante o horseball? “Adrenalina!”, entusiasmam-se todos quando respondem. Velocidade, capacidade de arranque e de travagem, é o que se pede ao jogador de horseball e à sua montada, tudo conseguido sem o recurso a rédeas, chicote ou bastão. Só o toque das pernas dá instruções. As mãos querem-se livres para o que faz ganhar jogos: alcançar a bola e marcar pontos. “Por isso eles [horseballistas] dizem que o Horseball é mais exigente do que o Pólo”, afirma Eduarda Paisano. A sintonia entre equídeo e cavaleiro tem de ser perfeita. “Em campo, o cavalo é equivalente às pernas do jogador. Um sem o outro não fazem nada”, diz Pedro Serrano. “É um jogo extremamente exigente, em termos musculares, articulares, de respiração. Obriga que os cavaleiros sejam atletas e os cavalos também”, afirma Eduarda Paisano. “Uma partida tem vinte minutos, um intervalo de três. No fim do primeiro tempo, cavalos e jogadores estão estoirados”. Compreensível, considerando que uma montada demora cerca de seis segundos a percorrer um campo regulamentar, cujas medidas ideais são 65 por 25 metros. Para evitar acidentes, os oito jogadores em jogo e o próprio árbitro têm de correr sempre paralelos. Mudanças de direcção só são permitidas nas cabeceiras do terreno, junto às balizas, aros com um metro de diâmetro, a uma altura de 3,5 m do chão. É por ali que tem de passar a bola, envolta em seis correias de couro que permitem aos jogadores arremessá-la, agarrá-la, no ar ou no chão. A ramassage (acto de recolher a bola do solo sem desmontar) é talvez o exercício visualmente mais impressionante desta modalidade. Cavalgar em pé nos estribos até parece fácil, quando comparado com aquele inclinar de corpo, braço esticado em direcção ao chão, cavalo a galope e bola novamente no ar. “Não, eles não ficam de cabeça para baixo”, sorri Eduarda. “Numa ramassage tecnicamente bem feita, quando muito, a cabeça fica ao nível do joelho”. Seja mas, embora não haja conhecimento de acidentes graves no horseball, nem por isso o gesto perde o ar de acrobacia.

Desde sempre o homem gostou de confrontos a cavalo. Nas pampas argentinas, há centenas de anos que o Pato é praticado. Duas quadrilhas de homens a cavalo em disputa por um pato, encarcerado numa saca de serapilheira, com as asas de fora, para facilitar ser agarrado. A desventurada ave terá vindo a ser substituída por uma bola. É essa prática que em 1930 um campeão de saltos de obstáculos a cavalo, o Capitão Clave, faz chegar a França como treino de sela. Com as adaptações necessárias, ao longo dos anos o novo exercício é adoptado para tornar mais lúdico o ensino da equitação. A sua divulgação, já com a designação de Horseball, ultrapassa fronteiras. Em 1988, Portugal assiste à primeira exibição da modalidade. País de cavalos, cavaleiros e bola, a lusa nação não lhe vira costas. A fusão de um jogo de equipa com a equitação, desporto por norma solitário, é aliciante. Em 1989 o número de praticantes já permite a organização de um torneio entre três equipas: Centro Equestre Lezíria Grande, Escola de Equitação Fernando Ralão e Horseball Club (HC), na altura na Quinta da Granja, actualmente HC-CVG, são as pioneiras. Hoje, disputam-se três campeonatos nacionais com 16 equipas participantes e, pela oitava vez em treze anos, a selecção portuguesa é vice campeã da Europa. À sua frente, só a França.
Quando a intenção é falar de divulgação e ensino do horseball em Portugal o nome de Francisco Campeão é incontornável. Instrutor de equitação, habituado a ensinar crianças, para Campeão a modalidade “veio funcionar como uma ferramenta de trabalho” porque, “depois de passar o volteio, a aprendizagem é uma ‘seca’ para os miúdos. Muito longa e monótona.” Fundador do HC, foi da sua prática com classes jovens que nasceram ideias mais adaptadas às necessidades dos miúdos, como a utilização da bola número 2 e a alteração do formato do stick, utilizado para ensinar os póneis a andar. A troca de experiências e o contacto constantes com Jean Paul Depons um dos principais entusiastas da modalidade em França, levaram a que essas alterações fossem inscritas nas regras internacionais do ensino da modalidade.
Fala-se de crianças porque é essencialmente nelas que Francisco Campeão investe. “Embora se possa começar a praticar horseball em qualquer idade, desde que se esteja a montar bem”, há 15 anos o seu lema tem sido: “vamos apostar nos mais novos para daqui a uns anos termos óptimos jogadores adultos”. No SCP/CEJC, é o próprio João Cardiga, responsável do Centro Equestre, quem diz: “o Horseball começou em minha casa em 1993, pela mão do Francisco Campeão”. O método, ao qual não é alheia a ascendência britânica de Campeão, consiste na utilização dos póneis Shetland que, explica Eduarda Paisano, “são peluches vivos, ao tamanho dos miúdos, que conseguem escová-los, aparelhar, dar banho, montar e desmontar sozinhos. Vão desenvolvendo o equilíbrio, o movimento animal, o respeito pelo cavalo e, quando crescem, aumenta o tamanho da montada”. Não será concerteza coincidência que as equipas presentes na final da Taça de Horseball de Portugal sejam as únicas que têm escalões de formação, e ambas nos mesmos moldes.
No SCP/CEJC, a formação é também feita de forma continuada, com um corpo técnico constituído por João Cardiga e dois treinadores, um para os seniores, outro para as categorias mais jovens. É André Ponces de Carvalho, o treinador dos seniores, quem afirma: “há aqui uma mecânica muito grande, que é o diálogo entre estes 3 técnicos. Assisto muitas vezes aos treinos dos escalões jovens, até porque um dia mais tarde vou herdar jogadores desse escalão”. Sobretudo, “falamos todos a uma voz, queremos ter uma imagem de equipa, e essa imagem começa logo a construir-se na formação”.

“Veterinário às oito”. A palavra passara de boca em boca ou pelo telemóvel. “Quer fazer já a fotografia dos vencedores da Taça?” João Tiago Ribas ri-se com toda a equipa do SCP/CEJC, em pose e confiantes no triunfo. Antes da final, nem por um momento o capitão da equipa sportinguista parece duvidar da vitória. Os jogadores do HC-CVG mantêm a sua postura calma e sorridente.
Ponces de Carvalho já puxou toda a equipa para um canto, em conversa vedada a qualquer intruso: “há momentos que são só nossos. É um momento de concentração, um momento místico. É ali que começa a nascer o bichinho para entrarmos em campo”. Equipas e apoiantes ocupam-se com a preparação das montadas, os jogadores exercitam os músculos e fazem o “aquecimento de chão”.
Transpor as poucas centenas de metros que separam as boxes dos equídeos do picadeiro central assume proporções de audácia. As equipas atingem o local perante a indiferença da multidão que se pressente mais inebriada pelo aroma dos grelhados e anúncios dos vendedores ambulantes do que por questões equestres. Nem o facto de se disputar a Taça de Portugal de Horseball confere aos jogadores privilégios particulares. Os animais aquecem na manga, o corredor em torno do picadeiro central, indiferenciados, entre o passeio de póneis, charretes, trajes de equitação à portuguesa. Quando os portões do campo se abrem, a entrada está longe de ser apoteótica. “Quem vir os equipamentos, pensa que é um Benfica/Sporting”, ouve-se. Mas a paixão clubística parece não morar ali e, apesar de considerável, o público tarda em dar mostras de entusiasmo. Nem o esforço do locutor de serviço, que empresta à voz o tom de festa, aparenta surtir qualquer efeito.
O HC-CVG parece ter entrado para ganhar. O SCP/CEJC aparenta nervosismo e dificuldade de organização para um ataque eficaz. Um dos jogadores de verde e branco cai. O cavalo levanta-se, deixa o cavaleiro junto à baliza, sai disparado para a lateral do campo. Treinador e veterinária do HC-CVG, ajudam a agarrar o animal fugitivo. Pelo gesto, a veterinária encoraja o jogador da equipa adversária. O jogo pára. Só assim o atleta pode entrar em campo. Tudo regressa rapidamente à normalidade. Intervalo.
Os cavalos são refrescados, os treinadores ouvidos, muda-se de campo. É um Sporting renovado que entra na segunda parte. O que disse André Ponces de Carvalho à equipa, manter-se-á secreto. “Zanguei-me muito com eles e acho que lhes toquei num ponto fundamental que é o ego. Sou exímio a tocar no ego das pessoas quando é preciso”. Fosse qual fosse o argumento utilizado, o SCP/CEJC dá a volta ao resultado no início da segunda parte. Findos os vinte minutos de jogo a taça, pelo segundo ano consecutivo, passa de mão em mão entre os jogadores do Sporting. Longe do ar que lhe é natural, é um João Cardiga austero que a recebe no fim. A emoção, esconde-a no ombro de cada jogador abraçado.
Após a vitória, Ponces de Carvalho afirmou: “Eu não queria dizer isto, porque se calhar vai ser publicado, mas disse-lhes, antes de iniciarmos as meias-finais da taça: se ganharmos a meia-final, quer dizer que estamos na final e, se ganharmos a final, garanto-vos que durante 2 anos não perdemos um jogo de competições oficiais. Portanto, acho que diz tudo”.
Nos dias 3 e 4 de Fevereiro, as mesmas equipas que disputaram a final da Taça de Portugal, irão lutar pela Super Taça Diogo Santos, no picadeiro coberto da Sociedade Hípica Portuguesa, no Hipódromo do Campo Grande, em Lisboa.
Notícias de Sábado #56 - 03 Fevereiro 2007

janeiro 14, 2007

O que resta dos avieiros


Ribatejo é lezíria, são toiros e cavalos, campinos e touradas. Mas é também morada de outra gente, vinda de longe, à procura de bom porto e de sustento. São os avieiros, a quem Alves Redol chamou “ciganos do Tejo”

No Inverno, quando o mar de Vieira de Leiria se mostrava pouco generoso, famílias inteiras deslocavam-se em campanha até ao Tejo que, na sua riqueza, lhes oferecia sável, enguia, fataça, robalo. Foram ficando por ali à borda-d’água, nos barcos, improvisadas casas de três divisões: à popa, a oficina, destinada ao trabalho da pesca; ao centro, a cozinha; à proa, sob um toldo armado com estacas de salgueiros, o quarto, que abrigava toda a família.
Se o oceano apenas lhes fornecia a sardinha durante o Verão, o Tejo proporcionava-lhes pesca ao longo de todo o ano e, até porque deslocar toda a descendência nem sempre era acessível à economia familiar, aos poucos foram prolongando as campanhas de Inverno. Contam os livros que, há pouco mais de cinquenta anos, começaram a fixar-se ao longo das margens do Tejo. Casa Branca, Palhota, Escaroupim, Caneiras, Conchoso, Patacão, Lezirão, Muge, Valada, Carregado, Vila Franca, eis alguns dos locais onde os avieiros se foram instalando.
A fixação definitiva trouxe-lhes a vontade e a necessidade de uma habitação permanente e segura. Barracas de lona ou coberturas de caniço sobre estacas serviam para as temporadas da faina mas mostravam-se insuficientes quando estas se prolongavam. No início, bem à forma da lezíria, instalaram-se em palhotas, construídas com o material que os valados lhes ofereciam. Quando as condições económicas o começaram a permitir, com características bem diferentes das casas ribatejanas, nascem as aldeias de construção palafítica, típicas da praia de Vieira de Leiria mas também adaptáveis às cheias do Tejo e à necessidade que o pescador sente de estar perto do barco, seu instrumento de trabalho.
Hoje, já não são esses ”ciganos do Tejo” que encontramos na beira-rio mas os seus filhos e netos. Apesar de tudo, ainda é possível encontrar alguns avieiros, embora as suas características se tenham adaptado à realidade actual do Tejo – a construção de barragens impede a circulação do peixe que passou a procurar outros locais para a desova e as descargas das águas residuais no leito do rio, mesmo quando tratadas, matam e deformam o peixe.
Das suas habitações resta a memória, auxiliada pelo espólio documental e o investimento de algumas câmaras na recuperação e manutenção do que sobreviveu ao abandono e à modernidade.
Fomos à sua procura em Escaroupim, uma daquelas aldeias por onde não se passa mas onde se vai. É ali, à beira Tejo, onde termina a estrada vinda de Salvaterra, um lugarejo aparentemente igual a tantos outros. Casas térreas, nas ruas quase ninguém. Ao longe passeiam-se três ou quatro cães, ouve-se o ruído de água que uma mangueira projecta contra o chão de um quintal.
Entre as casas sobressaem quatro ainda em madeira, uma quinta mais à frente, assentes em colunas de cimento, na sua construção palafítica. É o núcleo museológico da aldeia que nos mostra a construção outrora característica da gente do rio – os quartos, sempre em número de dois, fosse a família grande ou pequena, a sala, a divisão maior, separados por tabiques. Do lado oposto ao dos quartos, a cozinha. Portas, apenas as que davam para a rua porque interiormente eram cortinas, de cores alegres e vistosas, que permitiam alguma privacidade. No sótão, divisão criada sobre os quartos, eram guardados os aparelhos de pesca.
Continuando pelo suave declive do terreno, somos conduzidos a um largo cuja recuperação trouxe à população um agradável local de lazer. Sob os chorões, árvore tão característica da borda d’água, bancos e mesas servem os amantes dos piqueniques ou aqueles que apenas gostam de estar sentados a contemplar ou a ler. À esquerda, também recuperadas e em construção palafítica, meia dúzia de casinhas, distribuídas aos pescadores para guardarem as suas artes e o restaurante, para os visitantes do fim de fim-de-semana a quem a paisagem idílica atrai. Os barcos descansam.
As ruas estão desertas. É o fim da manhã de um dia de semana. No cais palafítico, recém recuperado pela câmara, alguns homens, de muito poucas falas. Dispersam rapidamente, talvez pela aproximação de um estranho por tais paragens, talvez justificado pela hora do almoço que se aproxima. É já no café da terra, após a refeição do meio-dia, que encontramos António Simãozinho e Joaquim Letra. A meio do nome, ambos têm o apelido Botas porque “aqui é difícil de encontrar alguém que, mesmo vagamente, não seja de família. Todos os nossos antepassados vieram de Vieira de Leiria”, justifica Joaquim. Assim é. Contam os anais que mencionam a história da terra, ter ela nascido dessa leva migratória de há mais ou menos cinquenta anos. Contudo, os tempos são outros.
Nesta terra de fim de estrada, onde o padeiro ainda se desloca de carrinha com buzina roufenha que anuncia a sua chegada, o sentido da vida mudou. Os outrora pescadores já não o são para alimentar a prole mas quase apenas para ajudar à economia familiar. A agricultura substituiu-se ao rio no sustento dos homens. Empregos como a construção civil ou a hotelaria, por terras próximas, mostram-se mais fiáveis do que continuar a açoitar o Tejo para dele tirar o peixe que não dá para viver. Não porque o rio se tenha tornado avaro mas porque o escoamento do produto se tornou difícil.
Fataça, barbo, enguia e algum camarão, são as espécies que vão vindo à rede ao longo do ano mas, sobretudo a primeira, já perdeu todo o valor comercial: “há uns tempos, todas as semanas vinha aí um intermediário que comprava toda a fataça para fazer farinha de peixe. Agora já não há ninguém a comprar”, conta António, “se houvesse alguém a fazê-lo, toda esta gente andava aí a pescar.” “Hoje ninguém quer isto a não ser para um petisco de fim de tarde” confirma Joaquim.
E nem no mercado público, antiga forma de escoamento do peixe, se encontram hoje as mulheres, outrora com os ranchos de filhos à ilharga, companheiras inseparáveis do homem na arte da pesca, a comercializar o resultado da faina.
É, aliás, como em tudo na vida, o lucro inerente à actividade que se nota ser um travão à sua continuidade. Só no tempo da enguia o rio retoma algum alento, longe, apesar de tudo, dos tempos áureos dos avieiros. O facto de a irós ser uma espécie mais bem cotada e tradicionalmente procurada nos restaurantes do Ribatejo faz com que aos barcos seja dada maior utilidade do que aquela que têm ao longo de quase todo o ano. Além da restauração há ainda os espanhóis, que se deslocam por terras de beira Tejo à procura da enguia portuguesa. Aqui começam a inverter-se os papéis. Cientes da qualidade do produto que capturam, os pescadores portugueses sobem os seus preços até ao ponto que sabem poder vendê-lo para o país vizinho. Por outro lado, os restaurantes nacionais, porque também querem lucrar o máximo possível, passam a comprar a irós espanhola, no dizer de apreciadores e entendidos, muito aquém do sabor e da textura da portuguesa. Contudo, isso não é da preocupação do pescador, que tem nos meses da enguia a melhor altura do ano para complementar o seu ordenado.
É neste imbróglio comercial, que se pode encontrar o motivo daquilo que, por ser proibido, todos se recusam a falar: o rendimento proveniente da apanha do meixão. Sem terem dono aparente, estendidas no chão a secar, podem ver-se redes quase opacas, de tão apertada que é a sua malha. Olhando para o leito do rio, percebe-se uma estrutura, sustentada por estacas grossas. É ali o viveiro das enguias que nunca hão-de crescer nem nadar ao sabor da corrente do Tejo. Todos dizem desconhecer a quem pertence aquela construção, porém, uma coisa é certa: indiferentes ao facto de estarem a comprometer a existência futura da espécie, há pessoas que ali travam o peixe que conseguiu entrar mas não será capaz de sair a não ser para as mãos dos donos de alguns restaurantes ou para intermediários espanhóis, ao valor de 300 euros o quilo.
Mas, apesar de esta ser uma realidade do Tejo, não tem contudo directamente a ver com a faina dos avieiros, a não ser no prejuízo futuro que lhes irá trazer e, desse, apesar da revolta aparente dos dois homens, talvez pelo receio de chamar as atenções para a actividade ilegal, eles preferem não continuar falar, antes predispondo-se a demonstrar a técnica tradicional e a facilidade com que o peixe vem às redes, aproveitando-o para um petisco de fim de dia.
Com a maré-alta fazem-se ao Tejo. No barco, antigamente homem e mulher, hoje dois homens, armados com uma rede atada a varapaus que irão perfurar as águas até encontrarem terra onde se agarrar. Mesmo ali, quase à borda-d’água, remam em círculo, ao enquanto açoitam o rio para espantar o peixe. Em fuga desnorteada, os cardumes ficam presos no muro feito de malha. É altura de recolher varas e rede. Desemalham o peixe e retornam a águas mais fundas para repetir todo o ritual até os peixes aprenderem a desconfiar da acalmia do rio, o que, seja pela abundância da espécie, seja por demasiada tontura dos animais, não acontece facilmente.
Ao atracar no cais de madeira desemalha-se o último peixe. São visíveis alguns dos estragos provocados pela poluição das águas quando um ou outro surgem deformados. Diz António Simãozinho, “com os despejos da ETAR, e apesar de nos dizerem que os graus de poluição são os mínimos e que aquilo vem tratado, nós não acreditamos nisso porque o peixe continua a aparecer morto, a boiar, sem oxigénio.” Esse é um problema aparentemente sem solução. Pelas análises feitas às descargas, os níveis de poluição estão dentro dos limites legais.
O sol quase se põe. Homens e mulheres começam a regressar, não vindos do lado do rio mas de terra. De madrugada ou no fim-de-semana talvez se façam às águas do rio, porque a sua vida agora é outra.


Vega Mar & Aventuras #24 Dezembro 2006/Janeiro 2007

Sapalsado: a casa das ostras


A Sapalsado acreditou ser possível o desenvolvimento da ostra nas próprias águas do rio. Apostou e o desafio parece estar ganho. O Sado volta a ser conhecido em França, pela sua ostraNo horizonte erguem-se as chaminés das fábricas responsáveis pela maior parte da poluição do estuário do Sado.

Para quem olha, do alto de Faralhão, ali às portas de Setúbal, são salinas que parece ver. Estranha-se talvez a largura exagerada dos passadiços ou os engenhos colocados dentro dos tanques, mas apenas isso. A paisagem em nada foi alterada e a passarada vai andando por ali de acordo com os seus hábitos e épocas do ano. Sem qualquer placa sinalizadora ou forma delimitada, é numa zona de antigas salinas que a Sapalsado, uma empresa dedicada à aquicultura, se inscreve. É neste local, onde a paisagem protegida se alia à exploração das potencialidades produtivas do rio, que os sócios da Tambpiscicultura, Reinaldo Mendonça e António Leal, resolveram fazer uma nova aposta: a recuperação da ostra do Sado.
No contexto histórico a apanha da ostra no estuário do Sado sempre se revestiu de alguma importância, reflectindo-se na economia da região. Em França, principal destino do molusco, a ostra sadina era muito conceituada. A procura era grande e os naturais faziam os possíveis por a satisfazer. Famílias inteiras dedicavam-se à actividade, chegando mesmo a vir gente de fora. Os proventos eram consideráveis e a própria aldeia de Faralhão, onde se situa a Sapalsado, cresceu assente nos lucros da apanha do bivalve. Porém, diz António Leal, “as indústrias vieram, destruíram tudo e nunca mais houve ostra”. No estuário do Sado, só passados 30 anos após o seu desaparecimento a ostra regressa de forma tímida, longe da quantidade de outrora e com uma forma de crescimento que denota a capacidade de defesa do ser vivo: “para se proteger da poluição das águas, a ostra cria casca, em vez de desenvolver o músculo”, informa Reinaldo Mendonça.
Experiente e profundamente conhecedor das coisas do mar, Reinaldo Mendonça acreditou que nas águas dos viveiros da Sapalsado, onde já cresciam robalos, douradas, corvinas e linguados de qualidade superior, poderiam também criar-se com sucesso as ostras do Sado. Fundamentava a sua opinião nos resultados das análises às águas, que a empresa sempre teve o cuidado de mandar fazer. “A qualidade da água que sai dos nossos viveiros é superior à que entra no primeiro tanque”, diz. E os papéis estão lá, para o comprovar. A percentagem de metais pesados existentes na água dos tanques é inferior à permitida por lei.
Decidiram-se então por uma primeira experiência, feita com matéria-prima do próprio estuário. As ostras eram apanhadas no Sado e criadas nos tanques da piscicultura. O resultado, atestado por uma equipa da Faculdade de Ciência e Tecnologia (FCT), da Universidade Nova de Lisboa (UNL), foi positivo. Os bivalves desenvolviam-se com muito menos casca nas águas sistematicamente oxigenadas e naturalmente despoluídas da Sapalsado. Obviamente, também a qualidade do músculo, comestível, era superior. Motivados pelo sucesso, os dois sócios apostaram noutra experiência: adquirir ostras a uma maternidade francesa para as deixar crescer nos seus tanques. Em 2003, foram 50.000 as ostras-bebés, com um milímetro de tamanho, que foram mergulhadas nas águas da Sapalsado. O entusiasmo da altura adivinha-se nas palavras de Leal: “passados 30 dias, elas mediam um centímetro, e algumas mais”. Observaram então que em oito meses os moluscos atingiam o tamanho comercial óptimo, com cerca de 7 centímetros e 80 a 110 gramas, acima do qual perdiam valor. Nos viveiros franceses, as mesmas medidas demoram dois anos a serem alcançadas. Se, como diz Reinaldo Mendonça “não se consegue obrigar a ostra a comer”, a quantidade de nutrientes das águas e a sua temperatura influem nesta aceleração do tempo de crescimento. Por outro lado, quando sujeitas a análises, verificou-se que em algumas ostras o peso do músculo ultrapassava o da casca, situação rara num bivalve. A qualidade também estava acima de quaisquer dúvidas, ultrapassando todas as expectativas: os coliformes fecais detectados estavam abaixo do limite mínimo detectado pela análise. “Analisadas antes da depuração, as nossas ostras têm a mesma qualidade que as do estuário depois de depuradas”, declara Reinaldo Mendonça apontando os resultados dos estudos a umas e a outras. Contudo, apenas pela observação da cor do músculo de cada uma delas, permitimo-nos afirmar que a capturada directamente no estuário, mesmo após limpeza, convida muito menos à sua ingestão.
Testes e análises feitos, era altura de efectuar uma última prova, a do consumidor. A quantidade resultante da primeira produção de ostras foi quase totalmente utilizada na divulgação do produto, em Portugal e em França. Se em Portugal o hábito de comer ostra ainda não se instalou e o êxito ficou mais ou menos confinado aos convivas dos eventos em que a Sapalsado participou, em França, um dos países com maior consumo de ostra e mais exigências a nível da sua qualidade, o impacto foi positivo. Em 2003, a empresa exportou para este país 5 toneladas de bivalve, valor que quintuplicou no ano seguinte. Definitivamente, a aposta estava ganha e a outrora famosa “huître du Sado” voltava a ocupar o seu lugar à mesa dos franceses.
Porém, não se pense que tudo são apostas ganhas na Sapalsado. Situada dentro da Reserva Natural do Estuário do Sado (RNES), são grandes os problemas com que se debatem, provocados pelo atrito com o Instituto de Conservação da Natureza (ICN) e com a própria RNES. O acesso à energia eléctrica é um deles. Apesar de, ao longo dos 14 hectares que constituem a propriedade, os olhos tropeçarem sistematicamente nos postes de alta tensão provenientes da central eléctrica de Mitrena, até Maio de 2006 a empresa estava impedida de levar a cabo um projecto subterrâneo de distribuição eléctrica. A energia consumida pela Sapalsado é fornecida por dois geradores alimentados por combustível fóssil o que, como afirma António Leal, “sai mais caro e mais poluente.” Diz o empresário: “Estamos a queimar à volta de 5000 litros de gasóleo por mês e, além disso, no caso de necessitarmos de arejar apenas uma parte do viveiro, temos de ligar tudo.” Contudo, os dois sócios não perderam a esperança de verem aprovado o seu projecto de fornecimento de energia eléctrica à piscicultura. Ainda nas palavras de Leal, “penso que agora há ideia de nos autorizarem”.
Outra situação prende-se com o facto de a empresa estar também impedida de construir uma casa destinada ao armazenamento de rações, à verificação veterinária, ao embalamento do peixe e das ostras e, no caso destas últimas, à sua depuração. Se podemos concordar que a edificação na zona poderá ter um impacto ambiental menos positivo se não cumprir regras, o facto é que a solução entretanto encontrada, e aceite pela RNES, apesar de facilmente movível, traz à zona um aspecto degradado. Ao lado da construção que abriga os dois geradores ficam os contentores onde são guardadas as rações e, no seu seguimento, umas precárias traves sustentam uma rede verde, que pretende abrigar o local de pesagem.
Aliando a falta de energia eléctrica à ausência de instalações capazes, todo o esforço que os dois sócios estão a efectuar para valorizar a ostra do Sado pode ficar comprometido. Impossibilitada de ter os seus meios próprios, a Sapalsado tem de recorrer a uma empresa externa, a Barrosinhos, para depuração e embalamento dos seus bivalves. Apesar de modernamente apetrechada, e de não ser questionado o desempenho desta unidade, a realidade é que o selo de certificação que acompanha as ostras é geral para todos os produtos embalados na empresa. Por si só, o facto não constituiria problema de maior se do mesmo local, e com o mesmo selo, não saíssem também ostras criadas no Sado, de qualidade inferior às produzidas pela Sapalsado, mas facilmente confundíveis pela etiqueta que apresentam. Entretanto, apesar de todos os problemas, e sempre apostada na qualidade, a empresa tem como objectivo aumentar o valor das exportações, que pretendem que ascenda às 50 toneladas, além da vontade de pôr Portugal a comer ostras. No imediato, em território nacional, já há clientes a receberem, por mês, uma média de 350 quilos do bivalve.
Acreditando nas potencialidades da aquicultura e da zona onde se inserem, os dois sócios gostariam de ver autorizados para exploração mais alguns hectares das marinhas abandonadas do estuário do Sado. Como diz António Leal, “se estão abandonadas, elas já foram construídas, já foram mexidas pelo homem e o impacto paisagístico, a existir, será mínimo”. Se pensarmos em termos da melhoria da qualidade da água, e tendo como ponto de partida os resultados das análises feitas em relação à Sapalsado, o estuário só teria a ganhar. Contas feitas pelos dois sócios, a exploração de 5% dos 23.500 hectares da zona protegida, seriam suficientes para criar cerca de 600 postos de trabalho directos, que seriam importantes numa região depauperada como é a de Setúbal.

Ciclo de produção da ostra

Importada de maternidades francesas, a ostra é colocada ainda bebé em sacos de rede de acordo com os seus tamanhos. É dentro destes sacos espalmados, assentes sobre estrados metálicos que pousam no fundo dos tanques, que os bivalves se desenvolvem. Ciclicamente, todos os sacos têm de ser retirados, os moluscos, que entretanto se uniram, cuidadosamente separadas por forma a que a sua casca não fique ferida e a quantidade que anteriormente ocupara um único saco passa a dividir-se por três, de perfuração maior, com capacidade para permitir o crescimento da ostra. Esta operação é executada várias vezes ao longo dos oito meses que o bivalve demora a atingir a medida comercial. Nessa altura, e de acordo com as encomendas existentes, duas vezes por semana a ostra é recolhida do viveiro, levada para a depuração durante 24 horas e embalada. Caixas com 5 quilos da iguaria ficam então prontas para a distribuição. Na região de Setúbal, o próprio Reinaldo Mendonça faz a entrega em mão. Fora dessa área, as ostras são confiadas a uma empresa de distribuição que assegura o transporte em boas condições e prazos compatíveis com o grau de exigência do produto e dos seus clientes, entre os quais se contam o Tavares Rico e a Travessa, em Lisboa ou a Champanheria e a Pousada de São Filipe, em Setúbal.


Vega Mar & Aventuras #23 Outubro/Novembro 2006

setembro 01, 2006

era uma vez


Sobejamente conhecido, o Museu do Brinquedo, em Sintra, é local de deleite para crianças e adultos. Porém, antes da sua própria história tem uma outra, constituída por pequenos fragmentos da vida de um homem: Arbués Moreira. Apoiado pela mulher, Ana Moreira, ele deu um novo valor à arte da brincadeira.

Era uma vez um avô… Este podia ser o começo da narrativa sobre o Museu do Brinquedo, há muitos, muitos anos.
João Arbués Moreira era um miúdo que, como todos os miúdos, gostava de brincar. E tinha um avô, esse sim, diferente. Era um senhor deveras rico que, além de gostar que os netos brincassem, tinha um hábito bastante peculiar: de cada vez que um deles tinha más notas, ele oferecia-lhe um brinquedo.
Arbués Moreira crescia, como crescem todas as crianças e um dia, já ele tinha alguns anos e muitos brinquedos, um professor perguntou aos alunos o que coleccionavam. João, que não se lembrava de coleccionar mais nada, disse: “brinquedos”. Os colegas riram-se, mas o pedagogo explicou: “uma colecção de brinquedos é tão importante como outra qualquer porque eles representam a época em que são feitos”. E aquilo, conta o actualmente engenheiro Arbués Moreira, “deu-me uma volta tão grande à cabeça, que eu comecei a comprar brinquedos já com o intuito de representar o mais possível a época”.
Terá sido mais ou menos este, há mais de cinquenta anos, o início do Museu do Brinquedo que hoje se situa em Sintra, no antigo quartel dos bombeiros.

Um passado feito de histórias

O museu abre ao público após vários anos de coleccionismo e muitas histórias, algumas delas onde é notória a forte presença de João Capucho, o avô. Foi com ele que Arbués Moreira e o irmão aprenderam os riscos de alguns brinquedos: ”por exemplo as máquinas a vapor são brinquedos perigosos. Ele deixava-nos brincar mas explicava-nos os perigos e qual a pressão a que devia estar a máquina”, diz.
Também as primeiras experiências com electricidade foram partilhadas com Capucho, que submetia os miúdos a um estranho ritual: “tínhamos um reóstato e todos os dias, quando chegávamos da escola, íamos pôr os dedos na ficha. O choque era sempre um bocadinho mais forte que o anterior. Um treino para, se um dia apanhássemos uma descarga eléctrica grande, não nos acontecer nada”, conta o neto, com um sorriso entre o divertido e o saudoso.
Na tentativa que Arbués Moreira escapasse à influência do avô, que achava os estudos absolutamente desnecessários e tentava desviar a atenção dos netos para coisas menos maçadoras, o pai enviou-o, juntamente com o irmão, estudar para Inglaterra. Persistente na ideia da inutilidade do estudo, João Capucho descobre o número da conta bancária dos netos. Perante o achado, e com o intuito que os rapazes se divertissem em território bretão, aí faz avultados depósitos que acabaram por levar os dois jovens a terem de justificar, perante a polícia inglesa, tal quantidade de dinheiro. Ninguém acreditava na versão dos dois adolescentes e muito menos na excentricidade do ancião.
Se a distância imposta pelo pai permite que os dois irmãos terminem os seus cursos, os incrementos dados pelo avô à conta bancária dos jovens possibilitam o acréscimo da colecção de brinquedos de Arbués Moreira. Desses tempos ficou-lhe o hábito de percorrer as igrejas e os antiquários de Londres. Ainda hoje Ana Moreira, mulher do coleccionador e directora do Museu do Brinquedo, reclama sempre que se proporciona uma viagem à capital britânica: “não vou a Londres contigo, és um chato, só queres visitar as igrejas!”. Arbués Moreira confirma, não que seja “um chato”, mas que dos anos de Inglaterra lhe ficou o hábito de explorar os cestos cheios de brinquedos oferecidos pelos paroquianos e que os pastores têm o costume de colocar à venda nas igrejas.
Anos mais tarde, em viagens a Paris com a avó, durante um mês negociava a sua companhia em desfiles de costureiros da época ou museus que o cansavam, em troca de incursões a locais que lhe despertavam bastante mais interesse. Ia então “às lojas, aos antiquários, ver se encontrava peças que mais ninguém tinha cá em Portugal”.
De casa para o Museu

Durante anos juntou peças em casa: “tinha um cão que ficava triste cada vez que eu trazia mais um brinquedo. Ficava a olhar para mim como se pensasse: este tipo é louco, um dia já não cabe mais. Tinha a casa de banho com barcos… parecia uma casa de doidos”, conta o engenheiro que, sendo sócio de clubes internacionais, tinha pedidos constantes de pessoas que pretendiam ver a colecção.
“O museu, as visitas guiadas, começaram em casa”, diz. “Uma das minhas filhas, professora de liceu, trazia os alunos. Depois eram as amigas que diziam: eu também queria. Até que um dia, perdi a cabeça e achei que tinha de fazer qualquer coisa.” O que fez o coleccionador “perder a cabeça” foi o facto de uma senhora francesa lhe pedir para levar um grupo de amigas para ver a colecção. Com a solicitude habitual, Arbués Moreira combinou um dia para a visita. Perante o atraso na hora, pediu ao filho que verificasse se havia alguém na rua, à espera: “ «Oh pai, está um autocarro cheio de gente lá em baixo!» Eram quarenta e tal senhoras. Impraticável, tantas pessoas para verem a casa, porque tinham mesmo de ver a casa. Estavam por todo o lado!” Nessa altura decidiu agir.
Se antes do casamento Ana Moreira não se interessava excepcionalmente por brinquedos, o marido “era tão interessado que ela não teve outra hipótese”. E foi já a dois que começaram a procurar um espaço que conseguisse albergar toda a colecção. A câmara Municipal de Évora fizera-lhes um convite mas a distância levou-os a declinar e a pensar num local mais próximo de Lisboa, onde pudessem estar sempre presentes. João sempre gostara muito de Sintra e resolveu escrever à câmara propondo-lhe a abertura de um museu. A proposta foi aceite e um espaço cedido mas, diz Ana Moreira, “era uma área muito pequena”.
Durante uma visita, Edite Estrela, ainda candidata à vereação, considerou que a colecção era demasiado importante para a vila, merecendo ser exibida num espaço maior. Pouco tempo após a sua eleição, a então presidente da câmara propôs fazer obras no antigo quartel dos bombeiros da vila e passar para aí todo o espólio. Aceite o novo espaço, é altura de mudanças. Por essa altura Arbués Moreira sofre um acidente vascular cerebral (AVC) e a sua memória ressente-se mas, estranhamente, sobre os seus brinquedos ele continua a saber tudo. Conta Ana Moreira que “a montagem do novo espaço foi toda assistida por ele. Na cadeira de rodas, até às 3 da manhã, com amigos e família a ajudar, dizia: este é aqui, aquele é com aqueloutro. Era ele quem sabia tudo.”
Com a simplicidade que o caracteriza, o coleccionador afirma: “sei o porquê de cada brinquedo que tenho”. E disso podemos nós atestar. Uma visita ao Museu, guiada e comentada por Arbués Moreira, é um acréscimo para a cultura geral de cada um. Tal como dizia o professor do miúdo, os brinquedos “representam a época em que são feitos”, e João usa de tal paixão na narrativa dos seus conhecimentos que o visitante é transportado na história e naturalmente convidado a entender a sociedade da altura.
Diz este homem que “os brinquedos não nascem por acaso, e os motivos do seu aparecimento interessam-me imenso”. Foi precisamente esta sua curiosidade sobre as peças que possui que o levou a procurar o motivo porque os brinquedos de folha ou madeira fabricados em Portugal eram habitualmente tão coloridos. Afinal, o que poderia pensar-se ser uma preocupação com o desenvolvimento perceptivo da criança, não passa de uma questão económica: “o fabricante deslocava-se junto dos fornecedores de tintas e comprava, a um preço mais baixo, as sobras da fábrica” que eram habitualmente as cores fortes.
Todos estes conhecimentos acabam por ser partilhados entre coleccionadores que mantm entre si uma rivalidade que Arbués Moreira classifica como saudável. “Ajudamo-nos todos uns aos outros”, diz, enquanto sorri perante a recordação das primeiras mostras de brinquedos em Lisboa, efectuadas num restaurante. “Depois do jantar, todos nós, alguns já velhotes, começávamos a abrir as malas, a tirar carrinhos, brinquedinhos, a discutir, e as pessoas admiradas, sem fazerem a mínima ideia do que se passava”. O coleccionador delicia-se com as situações provocadas por esta paixão. “A última vez que fui a Londres a uma dessas feiras era num hotel grande, com uns corredores enormes”, conta. “Ia no elevador com mais algumas pessoas que estavam hospedadas no hotel e entrou um americano com uma galinha de brincar que cacarejava e punha um ovo. As pessoas olhavam admiradas, mas o interessante foi quando chegámos ao 11º andar: os corredores estavam cheios de pessoas, algumas já com alguma idade, entretidas com brinquedinhos, no chão. Uma das senhoras olhou para mim e perguntou: «I’m in a hotel?»” Ri-se: “adoro estas coisas”.

Como se faz uma colecção

Com um público constituído por 52% de crianças e 48% de adultos, o Museu do Brinquedo tem patentes ao público cerca de 40.000 peças. Por falta de espaço, longe dos olhos dos visitantes, nas reservas estão mais 20.000. O critério escolhido para a exibição foi “o de expor aqueles que melhor mostram a história através do brinquedo”, explica Ana Moreira.
Incansável na procura de novas peças, sempre que se desloca ao estrangeiro Arbués Moreira tenta trazer mais um bocadinho de história para o seu Museu. Foi assim que, na Síria, lhe foram oferecidos, por um antiquário árabe, brinquedos romanos com dois mil anos. Também os amigos ajudam na demanda e a encontrar as mais almejadas peças para aumento do espólio. Sim, porque há brinquedos que, e Arbués Moreira não sabe explicar, “parece que todo o meu horizonte fica ali...eu preciso daquela peça”. Talvez o melhor exemplo deste estado de espírito seja um Ferrari, brinquedo muito raro, que a fábrica mandava fazer para oferecer aos seus melhores clientes. Conhecedor da vontade do coleccionador de possuir um destes exemplares, um amigo telefonou avisando-o de estar uma dessas peças à venda num antiquário em Milão. Arbués Moreira não perdeu tempo e no dia seguinte aterrou em Itália. Sobre o custo da peça fala como um menino envergonhado: “não posso dizer, foi uma fortuna. De tal maneira que a minha mulher, quando lhe disse o preço ao telefone, me perguntou: «compraste um Ferrari verdadeiro ou uma miniatura?» Os coleccionadores perdem a cabeça. Eu às vezes perco a cabeça”, diz, com um sorriso consciente mas garoto nos olhos.
Porém, não é apenas destas pequenas loucuras se tem vindo a constituir o espólio do Museu do Brinquedo. Muitas ofertas aqui chegam, sobretudo de bonecas, cujo conjunto faz as delícias essencialmente das meninas. Perante a estranheza de tão completa colecção levada a cabo por um homem, Arbués Moreira conta que, além das ofertas, grande parte dela provém das incursões às casas das suas próprias tias: ”Ia lá almoçar e, a seguir, ia ao sótão. A minha mulher costuma dizer que eu sou como os cães de caça. Olho para as malas e digo: «aquela tem brinquedos»“. E tinham, normalmente bonecas que, juntamente com outros brinquedos tradicionalmente femininos, hoje preenchem o terceiro piso do edifício.
Não é fácil enumerar todos os tipos de brinquedos que povoam o espaço. São três andares capazes de pôr a miudagem a sonhar. Desde os já mencionados brinquedos com dois mil anos ao recente astronauta, filhos, pais e netos encontram, seguramente, um brinquedo capaz de lhe prender a atenção.
Desta diversidade nascem pequenas histórias, como a de um judeu que se mostrou incapaz de conter as lágrimas ao reconhecer os soldadinhos iguais aos que ele próprio teria pintado durante a sua prisão nos campos de concentração nazis. Mais divertida, a conversa entre um casal, frente aos fogões de lata, e que Arbués Moreira recorda, divertido: “Oh António, lembras-te do que fazíamos com estes fogões? Lembro, tu tinhas a mania dos perus e, como não cabiam no forno, obrigavas-me a matar pardais e a depená-los para os assar no forno, a fingir que eram perus.” Depois também há aquelas pessoas que só tiveram um brinquedo na vida, feito por eles próprios, e que se emocionam ao vê-lo hoje colocado na parede de um museu.
A tudo isto assiste Arbués Moreira, o homem que considera os computadores e as consolas de jogos como o brinquedo mais representativo da época actual mas que fica horrorizado quando ouve os netos, à frente de um videojogo: “oh pá, tu és estúpido! Então estás a chocar com outro carro! Se atropelasses a velhinha com o bebé tinhas ganho mais pontos! isto põe-me louco”, diz. “Tento desviar-lhes a atenção para outras coisas”. E assuntos de interesse não lhe faltam.
É ternamente divertido este homem de 69 anos que, na sua cadeira de rodas, quando as crianças de visita ao Museu lhe perguntam porque não anda, responde com ar simpático: “Não ando porque não me dão corda.” E os miúdos, acabados de ver os brinquedos que se movimentam a corda, interrogam as professoras: “porque é que não dão corda àquele senhor?”. “Passo o dia divertido. Isso é que é importante”, remata.
Notícias Magazine #744 / 27.08.2006

amiga anorexia


Não é uma doença de modas ou de manias nem é exclusiva do género feminino. Enredados nas malhas da doença, os rapazes também são suas vítimas, sem diferenças, na deterioração sentida.


Enquanto a família se dispersava pelos seus afazeres, Sérgio ia para a escola. Sem comer. Quando voltava bastava-lhe mentir para justificar a aparente falta de apetite. Tinha comido na escola, dizia. Pegava então num iogurte e fechava-se no quarto, longe de olhares que pudessem descobrir a magreza que lhe tomava conta do corpo. Mantinha-se cheio de energia e o domínio que conservava sobre o seu físico mostrava-lhe que afinal era capaz de alguma coisa. Se alguém ousava dizer que algo ia mal, Sérgio reagia: “o que querem é que eu coma e perca o controle sobre mim, sobre a minha vida, sobre o meu corpo”.
Tudo começara uns tempos atrás. Sérgio nunca foi um miúdo magro. Na escola, o simples facto de o chamarem resvalava facilmente para a humilhação: era “o gordo”. Sentia-se o bobo da corte, o coitadinho, de quem ninguém gostava. Defendia-se tentando parecer extrovertido, imitando os outros. Nas aulas, lutava por boas notas, queria marcar a diferença e mostrar as suas capacidades. Porém, o esforço parecia não ser suficiente. Pelo menos para o pai, a quem as avaliações escolares nunca chegavam, ocupando-se a prever-lhe um futuro de insucesso. Sérgio não contestava. Nunca foi rapaz de reacção fácil diante dos outros e, em casa, interiorizar parecia-lhe a melhor defesa. Só anos mais tarde, a conselho médico, se permitiu pôr a contenção de lado.
O retrato familiar também não era pacífico. O alcoolismo e a prepotência do pai ajudavam a que os afectos da mãe fossem desde sempre canalizados essencialmente para o filho, enquanto os avós apoiavam a irmã. Sérgio sentia-se isolado, dono de uma responsabilidade que não queria para si, quando a mãe lhe dizia “estou com o teu pai por tua causa”. Acabou por ganhar uma certa prática em desconfiança: “nunca houve união e, se não havia confiança em casa, eu não podia funcionar bem com os outros”, afirma. Os médicos não escapavam a esta suspeita e o acompanhamento pelo endocrinologista deixou de fazer sentido para o jovem de 16 anos que se sentia mal sempre que o clínico o acusava de não se esforçar por perder peso entre duas consultas. Tratou ele mesmo de emagrecer, de mostrar que era capaz, começando a fazer uma dieta alucinada, sem qualquer tipo de acompanhamento, onde apenas os valores calóricos de cada alimento lhe interessavam. Sem se dar conta, estava refém de uma doença extremamente viciante e manipuladora, a anorexia nervosa. Passados 4 anos, mantém consultas regulares de psicoterapia e consegue manter um distanciamento da doença que lhe permite considerar-se curado.
“Quem não passa pela doença não a consegue perceber”, diz Sérgio. “Passei fome, muita fome.” Até no nome a anorexia nervosa é ambígua, porque nunca há uma perda de apetite mas antes uma vontade férrea de a controlar.
Considerada frequentemente como própria de raparigas a quem a vontade de obterem um corpo perfeito as levam ao emagrecimento excessivo, a anorexia nervosa é muito mais do que isso: “é uma doença psíquica, afectiva, emocional, com alterações cognitivas da avaliação da realidade, sempre presentes.” É assim que Dulce Bouça, psiquiatra, coordenadora das consultas de Doenças de Comportamento Alimentar (DCA) do Hospital de Santa Maria (HSM), em Lisboa, define a anorexia nervosa. Com uma incidência, a nível mundial, que oscila entre 0,5 e 1%, a relação de pessoas afectadas pertencentes ao sexo masculino é de um em cada dez, enquadrando-se Portugal nestes parâmetros. O motivo da disparidade dos números prende-se com factores diferenciados entre o homem e a mulher, como o são a constituição biológica, a relação com a alimentação, o metabolismo, o funcionamento hormonal e também com o facto de a pressão social e cultural para perder peso ser maior no género feminino do que no masculino.
Quando procuramos motivos para o surgimento da anorexia nervosa, verificamos que apenas se sabe tratar-se de uma doença multifactorial: “há factores genéticos, familiares, culturais, sociais, pessoais, da personalidade, e todos confluem para que a doença possa vir a surgir”, afirma Dulce Bouça. Acima de tudo é uma doença caracterizada pelo medo. Um medo intenso de ultrapassar os desafios da vida. O mesmo medo que pode levar algumas pessoas ao consumo de estupefacientes, pode também conduzir aqueles que têm padrões pessoais de auto-análise mais rígidos, pessoas muito rigorosas e muito adaptadas a cumprir os padrões sociais e familiares que lhes são propostos, a entrar num processo de anorexia nervosa. Com uma clara distorção cognitiva acerca de si mesmo, das suas capacidades e do seu desempenho ao longo da vida, o potencial anoréctico dá mais um passo em direcção à doença quando se ilude acerca do que uma restrição alimentar lhe pode oferecer. Sempre à procura de viver bem consigo e com os outros, ele crê que o controle exercido sobre o seu apetite e o seu próprio corpo lhe dará a sensação de bem-estar que busca. Entra então num processo de deterioração biológica que, habitualmente, se nega a ver e a aceitar.
Por mais baixo que seja o seu índice de massa corporal (IMC), de uma forma geral ou selectiva, o anoréctico continua a sentir-se gordo: “não me importava de engordar 10 quilos, desde que fosse nas pernas e nos braços”, diz Ricardo, “acho-me barrigudo.” A anorexia nervosa foi-lhe diagnosticada aos 16 anos. Aos 18, do seu historial clínico fazem parte um internamento de 4 meses no bloco de psiquiatria do HSM, muitas consultas de acompanhamento psicológico e de terapia familiar, porque é essencial ajudar as famílias a ultrapassar a doença.
Extrovertido e bem disposto, Ricardo ignorava quando alguém lhe dizia que devia fazer uma dieta. “Eu queria era comer!”, diz. Sentia-se bem consigo e o excesso de peso não o impedia de se dedicar ao seu desporto favorito, o futebol. Com a entrada na adolescência emagreceu um pouco mas o seu IMC mantinha-se elevado. Em campo, sentia que a sua velocidade e resistência podiam melhorar com a perda de alguns quilos, contudo, não era nada que o preocupasse em demasia. A entrada de um novo treinador na equipa de que fazia parte veio alterar o rumo dos acontecimentos. Habituado a fazer parte da equipa principal, Ricardo viu-se fora das 4 linhas, a correr, durante todo o tempo de jogo. O treinador “dizia-me que só voltava a jogar depois de perder uns quilitos”, recorda. Não lhe foi sugerida uma meta ou dada qualquer indicação nutricional. Emagrecer, só, era o imposto. O rapaz tomou a coisa à letra e perder peso tornou-se o único objectivo de vida. Não importava como o fazia mas apenas consegui-lo. Também ele não precisava de esconder ou deitar fora a comida. Uma mentira era-lhe suficiente para iludir a vigilância familiar: “comi na escola”. A verdade é que comera uma sopa ao almoço e repetira o repasto ao jantar, junto da família e, por maior magreza que apresentasse, recusava-se a aceitar o seu excesso.
Para Maria São José Tavares, médica de família e coordenadora do projecto Aparece, desportistas com projectos para a alta competição e bailarinos, “por serem áreas em que tem de haver um grande controle sobre o peso e sobre o corpo”, são dois dos grupos em relação aos quais é necessária uma atenção suplementar aos indícios de anorexia. Pelas características do Aparece, dando apoio técnico a todos os problemas da adolescência, Maria São José tem acesso a casos que podem ser tratados sem que se chegue à fase de doença declarada. Contudo, para que tal aconteça, é essencial que o clínico esteja muito atento. O corpo é habitualmente a principal preocupação de um adolescente e “é no corpo que tudo está projectado. Na forma como ele é alimentado podemos avaliar sinais de desequilíbrio, da relação com o alimento, ou podemos suspeitar de relações de conflito com a alimentação, que não são ainda doença.” Mas esta detecção pode ser morosa e é necessário que o médico disponha de tempo que o nosso Serviço Nacional de Saúde não concede, além do facto de muitos dos jovens, essencialmente os rapazes, serem pouco dados a procurar ajuda. É aqui que o papel da família se torna mais importante. Para a técnica de saúde, “refeições que não são tomadas em família permitem que os adolescentes possam ter comportamentos alimentares que fujam à observação dos pais”. Muitas vezes esses comportamentos duram meses ou anos sem que os familiares os notem.
Sérgio e Ricardo passaram a isolar-se, a diminuir as hipóteses de que alguém reparasse na magreza dos seus corpos. Muitos escondem-nos sob roupas largas e chega a haver quem utilize pedras nos bolsos, quando obrigado a pesar-se periodicamente. Os jovens adoptam comportamentos em que se protegem de que alguém os veja, o que faz com que a situação progrida muitas vezes em silêncio. Sendo características destas pessoas a inteligência, e a obsessão em relação ao que pretendem atingir, não parece difícil que consigam iludir a vigilância familiar. Contudo esta não é uma doença cujo único tratamento consista em fazer a pessoa comer. É necessário que os sentimentos sejam trabalhados: “quando estão em situação de anorexia nervosa, os jovens são tão contidos com os afectos como com a alimentação”, diz Maria São José. A desconfiança em relação ao mundo instala-se. Sérgio e Ricardo ainda hoje têm dificuldade em confiar. Testam as famílias na hora de pôr a comida no prato. O pensamento diz-lhes que “eles querem que eu coma, coma e não pare” e é necessário averiguar “se o que querem é mesmo cumprir com o que deve ser feito, a quantidade ideal”, recomendada pelos médicos, para que seja obtida a reposição gradual dos valores calóricos ingeridos ao longo do dia. Ricardo só confia na mãe: “ela preocupou-se em tentar saber um pouco mais sobre a doença. Sérgio mantém a distância familiar, esqueceu as amizades antigas para abrir uma página nova da sua vida, onde as comparações com o que era anteriormente não sejam possíveis. Deixou de lutar por notas altas, enfrenta os problemas conforme eles lhe surgem. Ricardo esqueceu a carreira de futebolista mas mantém a esperança no seu sucesso pessoal em qualquer área ligada ao desporto.
Promover uma sociedade mais tolerante em relação às diferenças individuais, criar hábitos de convívio familiar salientando a importância do equilíbrio entre o aspecto emocional e físico das nossas crianças parece ser uma forma de gerarmos adolescentes saudáveis.

Contactos úteis:

AFAAB - Associação dos Familiares e Amigos dos Anorécticos e Bulímicos
Telefones – 21 432 19 67 (Lisboa) e 22 200 00 42 (Porto)
E-mail - afaab@ip.pt

APARECE - Centro de Atendimento a Adolescentes
R. Buenos Aires, nº 27, rc/dtº
1220-622 Lisboa
Telefones: Geral - 21 393 24 70
Atendimento a adolescentes - 213932477
E-mail: aparece_caa@yahoo.com ou aparece@oninet.pt

Centro SOS Voz Amiga - 800 202 669
Dias úteis, das 12h às 24h

Linha SOS Adolescente - 800 202 484
Dias úteis, das 10h às 13h e das 14h às 18h

Núcleo de Doenças do Comportamento Alimentar
Rua Sousa Lopes, 63-C
1600-207 Lisboa
Telefone - 217 972 110
E-mail - ndca@comportamentoalimentar.pt

Consultas hospitalares:

Hospital de Santa Maria
Núcleo de Doenças do Comportamento Alimentar
Av. Prof. Egas Moniz
1699-035 Lisboa
Telefone Geral - 217 805 000

Hospital da Universidade de Coimbra - Serviço de Psiquiatria
Consulta de Distúrbios Alimentares
Av. Bissaya Barreto
3000-075 Coimbra
Telefone Geral - 239400400/ 239400500
Linha Azul - 239827446

Hospital de S. João - Serviço de Psiquiatria
Núcleo de Doenças do Comportamento Alimentar
Av. Prof Hernâni Monteiro
4200-319 Porto
Telefone Geral - 225 512 100
Linha Azul - 225 096 093
Sábado #121 - 24.08.2006

serras de sal


Já lhe chamaram “ouro branco”. Constituía na altura a principal riqueza do concelho e participar na sua extracção era das poucas profissões possíveis para os homens de Alcochete. No verão, quando os campos pediam menos cuidados, eles encaminhavam-se para alguma das muitas marinhas que a região, encostada ao Tejo, oferecia. Hoje só as salinas do Brito se mantêm em laboração, fruto da persistente vontade de manter viva a tradição.

A estrada é silenciosa, àquela hora. Alcochete ainda dorme, envolta pelo brilho típico das povoações ribeirinhas. Seguindo um pouco para oeste, perde-se de vista o rio e o cheiro a maresia. Às portas do Samouco, uma quase imperceptível placa de madeira indica a direcção do Museu do Sal.
A via, sinuosa, tem a largura para que passe apenas uma camioneta, não mais. Ervas altas e sombras de construções abandonadas marcam a paisagem deserta. Repentinamente a estrada alarga em bermas de terra batida. É ali o Museu do Sal vivo e dinâmico, situado nas salinas pertença da Fundação João Gonçalves Júnior (FJGJ).
O portão já está aberto. Do interior do armazém saem vozes masculinas. Fala-se das notícias do dia anterior enquanto se espera um laivo de luz. Quando o céu se torna menos escuro e já é possível distinguir as silhuetas dos homens, alguém dá voz de partida: “bem, vamos lá?". Chegaram a ultrapassar as cinco dezenas, hoje contam-se num olhar: oito homens. “Muito deste sal não vou sequer rapá-lo, não tenho pessoal que chegue”, diz Manuel Nicolau, o marnoteiro das salinas do Brito.
Passo firme, encaminham-se cada um para a sua ocupação. As pás ficaram na talharia, desde o dia anterior. É necessário ver a graduação da água, transpô-la do viveiro para a caldeira de moirar. Pequenos montes de sal reflectem o tom róseo do amanhecer, os pés deslocam-se cuidadosa e lentamente para não estragar o cozimento do terreno. Enquanto a máquina de fresar percorre o talho, partindo o sal, preparando-o para a rapadura, retiram-se as impurezas para as barachas e rapa-se.

O princípio do sal


A extracção do sal já foi a actividade com maior peso na economia da região. Como começou não se sabe ao certo. De seguro, apenas as narrativas de cronistas dos últimos reinados da dinastia de Borgonha que mencionam, já nessa época, a exportação de sal, levando mesmo alguns a pensar que foram as condições excepcionais para a safra do mineral que originaram o nascimento da vila de Alcochete. Em meados do séc. XX, a instalação de fábricas de secagem de bacalhau da Terra Nova deram o maior incremento à actividade, chegando Alcochete a ser o maior centro nacional de secagem e preparação de bacalhau.
Estima-se que nessa altura a safra do sal empregasse cerca de 1200 alcochetanos que se dividiam entre a agricultura, no Inverno, e o trabalho nas salinas, no Verão. Aliado ao trabalho nas marinhas, estavam os carregos de bacalhau e sal de e para as fragatas que faziam o transporte entre a vila e os barcos atracados em Lisboa. Não é difícil encontrar em Alcochete quem, com idade superior a 50 anos, não recorde esses tempos que, afirmam, “eram complicados”. É que, apesar de depender dos salineiros o bom resultado da safra, durante quase uma década os seus ordenados mantiveram-se nos trinta escudos de jorna diária, embora o preço do moio de sal tivesse subido, no mesmo período, dos cinquenta para os oitocentos escudos, motivo pelo qual os salineiros de Aveiro e de Setúbal ganhavam quase o dobro do que auferiam os homens da beira-Tejo. Esta situação e o facto de os proprietários das salinas, com o pretexto das quebras havidas entre as correrias dos trabalhadores em direcção às barachas, pretenderem gradualmente aumentar o número de canastras por moio de quinze para dezoito, acabou por se tornar insustentável para o salineiro que, conta feita, no fim da semana tinha dado um dia de trabalho ao patrão. Em 1957, o descontentamento estava instalado, degenerando numa paralisação geral que a maior parte dos patrões se recusaram a resolver com negociações, antes apelando à intervenção da polícia. Como relembra João, filho de um salineiro, “alguns andaram fugidos dias e noites pela charneca e não foram apanhados. Outros foram presos, levados para o Aljube, e lá estiveram uma série de dias.” Esses homens, com o estigma de grevistas, não voltaram a ser aceites em qualquer salina. “Foram tempos difíceis”, continua João, “As famílias sobreviveram, com a ajuda da igreja, do padre Francisco Ferreira, que lhes dava alguns bens essenciais”.
Quando as coisas acalmaram, dar algumas indústrias ao concelho tornou-se quase ponto de honra para uns tantos homens influentes. Alcochete viu então nascer a Firestone, a Fábrica do Alumínio, e a Ormis, hoje Crown Cork & Seal Portugal que, conta José Navarro, o presidente da FJGJ, vieram “oferecer às pessoas uma vida mais estabilizada. Trabalhar numa fábrica durante doze meses é diferente de ter um emprego sazonal numa salina”.
Desses tempos fala-nos também a memória octogenária de Manuel Nicolau: “antigamente isto era uma terra de miséria. Após a greve, ao pé da ponte do cais, havia um mastro de um barco para onde os homens iam logo de manhãzinha, à espera que os chamassem para algum trabalho. Passavam dias sem ganhar um tostão.” Quando surgiram as fábricas, a escolha não foi difícil: “pagavam bons ordenados e deram emprego a todo o pessoal de Alcochete”.

Com falta de mão-de-obra, o declínio da exploração do sal anunciava-se lentamente. A este factor vieram juntar-se a concorrência estrangeira do mineral colocado no mercado a preços mais baixos, o encerramento das salgas de bacalhau na região e a decadência da indústria conserveira nacional.
Neste contexto, não parece pois estranho que as salinas a sul do Tejo tenham atingido o estado de abandono hoje observável. Contudo, e como diz José Navarro, presidente da FJGJ de 2002 a 2005, “a safra do sal, pela grande importância económica e cultural que teve para Alcochete, deve ser entendida como uma tradição”. E é aqui que surge o protocolo assinado entre a FJGJ e a câmara municipal de Alcochete no sentido de criar o Museu do Sal que constitui não apenas um depósito de memórias mas antes uma comemoração viva e dinâmica ao que foi a actividade na região. De inconveniente, apenas o facto de estar mais vocacionado para visitas de grupo
Porém, no que toca à precariedade do trabalho dos salineiros, pouco mudou através dos tempos. Os seus empregos continuam a ser sazonais e sem qualquer tipo de contrato que os obrigue ou que os proteja. Ainda nas palavras de José Navarro, “Podíamos fazer um contrato de três meses mas as pessoas não estão disponíveis para trabalhar três meses”. Se é um facto que, das várias visitas às salinas, quase sempre havia desaparecido uma cara para dar lugar a outra, parece também importante dizer que, embora a faina esteja parcialmente mecanizada e o salineiro já não transporte às costas as canastras de sal, os horários e o trabalho necessário demonstram-se duros para a remuneração de quinze euros diários, uma vez que continuam a receber à jorna.
Das 6:00 às 13:00, estes homens andam no cimo das serras de sal ou dentro de água salgada, sob o sol do verão reflectido pela brancura dos cristais. Segundo os escritos, a temperatura no interior dos talhos chega a atingir os 50º. Fernando, de pele tisnada, brinca com a situação “nem na praia, eu conseguia um bronze destes”. A nudez dos pés foi, na maior parte dos casos, substituída por calçado carcomido pela salinidade da talharia porque, como diz Jorge, “qualquer ferida feita pelo sal dói e demora a sarar, por isso evitamo-las”. A partir de Setembro o horário amansa e a entrada faz-se às 7:00, sendo já possível trabalhar sob o sol mais fraco, até às 16:00. Mas com as chuvas, lá para meados ou fins de Outubro, dependendo da graça dos céus, a sombra da desocupação volta à vida destes homens, cujas jornas não deram para amealhar sobrevivência sequer para os primeiros meses de desemprego. Em Maio regressam, talvez os mesmos, entre os mais velhos, e para complemento de reformas, outros, quando mais novos e à procura de uma vida mais estável.
Mas, apesar de todas as dificuldades, a FJGJ e a câmara Municipal de Alcochete não baixam os braços e prosseguem. No sentido de fomentar a continuidade das salinas, e apesar de a sua existência se limitar ainda ao papel, ponderam-se dois projectos. Um com vista à estão neste momento a ser efectuadas análises com vista a permitir a criação de uma marca certificada de sal biológico e, o segundo, que se prende com a . Ainda na sequência de manutenção dos costumes, está a ser estudado o desenvolvimento de um projecto de agricultura, também ela biológica, retomando a fava dos muros, tradicional na região pelo seu sabor característico.
De passo em passo, a tradição mantém-se. De inconveniente, o facto de as visitas ao Museu do Sal estarem absolutamente dependentes dos Serviços Educativos da Câmara e apenas vocacionadas para grupos, em horário laboral. Mas, se lhe apetecer arriscar, durante os meses de Verão, de segunda a sexta, das 6:00 às 13:00, as portas estão abertas.

Pãezinhos de sal

Os pãezinhos de sal podem ser vistos no Museu do Sal e no Museu Municipal de Alcochete mas sobre a origem ninguém sabe esclarecer. Manuel Nicolau, o último marnoteiro no activo da região, apenas se recorda de sempre os ter visto fazer. Tal como os mestres de marinha de antigamente, tem um jogo de formas que também ele utiliza. As formas, que podem ter um aspecto triangular ou quadrangular, eram feitas de bocados de madeira com desenhos invertidos feitos a lápis, esculpidos a canivete e, posteriormente, alisados com cacos de vidro.
Escorrido o sal de embate, ele é calcado dentro das formas que, depois de abertas, permitem observar nos pãezinhos a meticulosidade com que foram elaboradas.


Glossário:
Baracha – muros de defesa, construídos com o desaterro;
Caldeira de moirar – reservatório que pode servir de reserva para os talhos ou produzir sal. Se a água não tiver graduação (salsugem) bastante, serve como reserva;
Cozimento – tapete de algas. Cobre apenas as caldeiras de moirar e a talharia;
Marnoteiro – operário encarregue da marinha;
Moio – cerca de 840 litros de sal, 15 canastras a 56 litros cada;
Rapar – puxar e juntar o sal em pequenos montes para escorrer antes de ser colocado na serra;
Rasa – primeira colheita que se efectua debaixo de uma camada de água, com rodos;
Sal de embate – cristaliza nas águas remexidas pelo vento (móveis), sendo sempre sal fino, macio e com mais goma o que, quando utilizado no fabrico dos pãezinhos de sal, permite que estes não se desfaçam;
Serra – é formada pelo sal das diversas rasas, antigamente transportado à cabeça em canastras. Em Alcochete é coberta com junco e palha-carga, também chamada palha de paul;
Talharia – conjunto dos vários talhos;
Talho – rectângulo de terreno escavado onde o sal cristaliza;
Viveiro – encontra-se na parte mais elevada da marinha de forma a poder encher-se na preia-mar e despejar na baixa-mar. Comunica com o Tejo por uma porta de água aberta na baracha, que se abre e fecha através de um postigo de madeira. Tem capacidade para alimentar a marinha por quinze dias ou um mês.


Notícias Magazine # 740 - 30 .07.2006