agosto 31, 2006

espadartes ao largo



Para o visitante comum, Sesimbra são os acessos íngremes, a marginal, as traineiras e pequenos barquitos a remos, as gaivotas que indiciam o barco que regressa carregado com peixe, o cheiro do pescado misturado com o da maresia. Para os seus naturais e para os amantes da pesca desportiva a vila é bem mais do que isso.

Nessa noite ainda só cheirava a mar. O peixe chegaria mais tarde, pelas mãos daqueles homens que caminhavam ao longo da marginal em direcção às embarcações ancoradas no porto de abrigo. No escuro sobressaíam as luzes onde alguns pescadores se dirigiam para tomar o café antes de se fazerem ao mar.
Era o último dia do quinto Torneio José Pinto Braz, onde apenas é aceite a chamada “pesca grossa”, efectuada com cana e carreto, bem à maneira das tradições sesimbrenses.
Para o “Andalucia”, uma das embarcações concorrentes, foram transportados os bidões e as caixas com o isco fresco. A bordo, além dos quatro elementos da equipa, seguiam o Mestre Marcelino, para conduzir a aiola, e a organizadora do torneio, Geny Braz. A intenção era assistir ao nascer do sol no ponto anteriormente escolhido para lançar as linhas. No moderno sistema GPS visionava-se a rota, pelo rádio eram trocadas coordenadas com os outros barcos participantes.
Sacudido pelo cortar das pequenas vagas, o tema da conversa prendia-se necessariamente com a história do homem que dá o nome a este torneio e que está intimamente ligada ao historial turístico e piscatório de Sesimbra - José Pinto Braz.
Recordado como um homem dinâmico e de espírito empreendedor, José Braz foi durante muitos anos organizador de encontros de pesca desportiva em alto mar.
À altura, várias aiolas, pequenas embarcações que tinham como tripulantes apenas um remador e um pescador, faziam-se ao mar. A partir de uma traineira, o organizador comunicava com os participantes através de intercomunicadores, prestando-lhes a assistência necessária. No regresso aguardava-os o conforto, pouco comum à data, do Hotel Espadarte e restaurante com o mesmo nome, unidades hoteleiras também geridas por José Braz.
A eficiência deste homem nas organizações a que se propunha valeu-lhe o reconhecimento, traduzido na adesão de pescadores amadores portugueses e estrangeiros.
Em simultâneo, e na época baixa, “o vistas largas”, como era conhecido na vila, transportava Sesimbra à Europa, divulgando a sua terra natal e as organizações dele dependentes. De tal forma que, em 1975, a Direcção Regional de Turismo da Madeira convidou-o a desenvolver um projecto similar na região.
Desiludido pelo facto de não ver aprovado o seu propósito de ampliação do Hotel Espadarte, José Braz decide aceitar o desafio levando consigo a sua filha, Geny Braz, cujas potencialidades aproveitou ao inseri-la no mundo empresarial.
Contudo, a sua alma manteve-se sesimbrense e muitos, na sua terra e fora dela, também não o esqueceram. Por isso, talvez herdando a tenacidade de seu pai, Eugénia Maria Braz, com algum apoio do Clube Naval de Sesimbra e da Câmara Municipal, decidiu homenagear o homem que levou Portugal até à Finlândia e trouxe a Europa até Sesimbra. Para o fazer nada mais apropriado do que a organização de um torneio com as mesmas características dos organizados por José Braz.
Hoje as aiolas são em menor número, os remadores mais difíceis de encontrar mas, em maior ou menor quantidade, elas continuam a acompanhar as equipas, cujos elementos se revezam na aiola, à qual se prendem, a si e à cana, através de um arnês. Depois é esperar o toque do espadarte, a quem são oferecidos os iscos favoritos: chaputa, lula, sardinha.
Porém, este ano, nem todo o engodo deitado ao mar chamou a pescaria. Falou-se em “toques” à linha e em duas das embarcações pescaram-se peixes de sete e catorze quilos, que foram devolvidos ao mar. Esta é outras características deste torneio: exemplares com menos de vinte quilos continuam livres para percorrer o oceano, até porque aquilo que se pretende, além de recordar um nome, é recuperar a velha tradição em que os mares de Sesimbra davam ao homem a oportunidade de se debater com exemplares com mais de 100 quilos de peso, como aconteceu em 1958 quando Sesimbra alcançou dois recordes - da Europa e do Atlântico Norte, o maior espadarte e a captura de dois espadartes no mesmo dia, respectivamente com 259,5 Kg e 144,5 Kg, pescados pelo mesmo homem, Augusto Vilas Boas. Talvez no sexto torneio José Pinto Braz.
Magazine Domingo - 10.10.2004

marionetas de Lisboa



O quarteirão tem ar de abandono com o corpo da Feira Popular em decomposição de um dos lados e o defunto teatro-estúdio Vasco Santana do outro. Lá para o meio, despercebida, uma porta alta, em ferro. É no número 103-B da Avenida da República, que ficam as instalações das Marionetas de Lisboa.

Trata-se de uma instituição cultural criada por actores, dramaturgos e artistas plásticos que se juntaram com a intenção de estudar a Arte da marioneta, contribuindo para a sua renovação estética. Em simultâneo, assumem-se como uma companhia de reportório, preparada para ser itinerante e com vontade de divulgar a cultura portuguesa.
Como nos explica José Ramalho, director artístico do grupo, ao tentarem alcançar o chamado ”público escolar”, acreditam estar a contribuir para uma sensibilização às actividades artísticas, levando a que os jovens desenvolvam o hábito de consumir e valorizar a Arte como algo que é executado por profissionais.
No espaço cedido pela Câmara Municipal de Lisboa, e do qual, perante a decrépita vizinhança, desconhecem o futuro, espalham-se alguns dos artefactos para uma nova produção, “ A menina que queria ser bobo da Corte”.
Trata-se de um sonho antigo de Cristina Pereira, um espectáculo apenas seu. Só agora se sentiu preparada para o fazer. Descreve o método utilizado no fabrico das marionetas que manuseia delicadamente. “Idealizei o espectáculo e compreendi que o sistema “bunraku” era aquele que mais se lhe apropriava. Estou a construi-las com os materiais mais naturais que me é possível. Mexem-se como se tivessem mecanismos e parafusos mas apenas têm linhas e pano”. Cristina quer que este espectáculo demonstre a sensibilidade feminina e, sobretudo, que de coisas muito despretensiosas também é possível criar o Belo.
Num espectáculo direccionado para todos as idades, no palco vão estar duas actrizes-marionetistas: a própria Cristina Pereira e Magda Moreira. É a elas que, durante quarenta minutos, cabe dar vida às várias marionetas, utilizando a já mencionada técnica “bunraku”, além de bonecos de luva e sombras.
Sozinho ou com crianças, que são sempre uma boa justificação para estas circunstâncias, vale a pena descobrir ou reencontrar a magia das marionetas, das vozes, das luzes e sombras, deste misto entre a realidade humana e a fantasia dos bonecos.
Estreia a 17 de Setembro, no mistério daquela sala com cheiro próprio, protegida das correrias da cidade pela porta alta, o número 103-B da Avenida da República.
Magazine Domingo - 26.09.2004

sacudindo a memória

Estamos habituados a comentar as glórias, ou a sua ausência, no desporto. Vestimos as janelas e os carros com bandeiras nacionais durante o Euro 2004, aplaudimos as medalhas dos olímpicos, esquecemo-nos geralmente dos Paraolímpicos, também eles atletas de alta competição e verdadeiros campeões.

Eles são aqueles que ganham prémios habitualmente mas a quem as câmaras raramente focam. Foram quinze, entre ouro e bronze, as medalhas trazidas de Sydney em 2000. Temos bi-campeões europeus, mundiais e paraolímpicos, nomes e feitos quase desconhecidos pela maioria das pessoas.
É gente que colecciona medalhas no estrangeiro e promessas quando regressam a casa. O incumprimento dos compromissos para com eles assumidos, ou a sua tardia concretização, consciencializam-nos de que lutam quase sozinhos para glorificar um país que esquece a sua existência.
Seja a nível de apoios estatais ou de prémios obtidos em competição, os praticantes de desportos adaptados continuam a ser alvo de distinção comparativamente aos seus colegas não portadores de deficiências físicas. A título de exemplo, só a 19 de Agosto deste ano foi assinado entre os organismos estatais competentes e a Federação Portuguesa de Desporto para Deficientes (FPDD) o protocolo que permitiria aos atletas e respectivos técnicos usufruir de uma bolsa de preparação para os Jogos Paraolímpicos de Atenas.
Se é certo que esta bolsa tem efeitos retroactivos a 2003 e 2004, é também verdade que toda a preparação dos atletas foi feita à custa de si mesmos, do apoio das instituições a que estão ligados, que lhes disponibilizaram técnicos inteiramente dedicados e os espaços adequados à sua preparação, e da bolsa proveniente do “Projecto Super Atleta” cuja responsável, a FDPP, pretendeu mobilizar o país para as causas do movimento paraolímpico. No âmbito deste projecto, com a finalidade de captar a atenção do público em geral e, particularmente, do segmento onde estas pessoas estão inseridas, foram nomeados seus embaixadores algumas figuras da vida pública portuguesa como o actor Ruy de Carvalho, ou os desportistas Eusébio e Rosa Mota, sendo Luís Figo o patrono. Em simultâneo foi criado um programa de patrocinadores regulares da Federação, o que permitiu a atribuição de uma bolsa em numerário aos atletas participantes e assegurou os meios financeiros necessários para despesas inerentes à presença da comissão portuguesa em Atenas.
De salientar a atitude de técnicos e de atletas que, embora gostassem de ser tratados de forma igual, está muito longe de ser uma postura de queixa. Como afirma Carlos Mota, um dos treinadores destacados para acompanhar os participantes na modalidade de natação: “Não somos tão apoiados como os atletas olímpicos, mas temos o apoio que é possível.”
De 17 a 29 de Setembro decorrerão os Jogos Paraolímpicos de Atenas e Portugal estará representado em seis modalidades: atletismo, basquetebol, boccia, ciclismo, equitação e natação. As deficiências de que são portadores os atletas participantes são várias: motora, visual, intelectual e paralisia cerebral. Congénitas ou adquiridas, elas são algo que os tem acompanhado ao longo dos últimos anos ou durante toda a vida, problemas com os quais se habituaram a viver, barreiras que tentam constantemente transpor. Nas diversas modalidades que praticam eles são agrupados de acordo com o seu grau de deficiência, competindo assim em igualdade de circunstâncias com atletas cujas insuficiências são similares às suas.
Em Portugal talvez soprem ventos de mudança: as objectivas da comunicação social começaram a mostrar os nossos desportistas ao país e uma ou outra janela mantém-se enfeitada pelas cores nacionais, em sinal de apoio aos participantes nos Paraolímpicos.
Quanto aos atletas, estes mantêm-se fiéis ao que sempre pretenderam: com ou sem visibilidade, honrar as cores nacionais como vêm fazendo desde 1988, ano da primeira participação de uma missão portuguesa nos Jogos.

Atletas da Gesloures, trabalho e companheirismo

Carlos Mota é treinador na Gesloures e um dos técnicos destacados para acompanhar os atletas da modalidade de natação a Atenas. É ele quem explica: “Na Gesloures temos uma estrutura de trabalho montada. Quando as pessoas precisam de fazer reabilitação, muitos dos médicos aconselham a natação ou a ginástica aquática. A Gesloures está preparada para os receber e fazer a sua reabilitação, mas temos também outras saídas – depois de aprenderem a nadar, quem quiser pode continuar a frequentar a instituição por lazer, da mesma forma que há quem continue por desporto de rendimento, com o objectivo de ir a provas e participar em competições. Aqueles que mais se destacam acabam por fazer marcas de qualidade internacional e participar neste tipo de eventos.”
Aos atletas, se há alguma coisa de comum que os caracterize, é a boa disposição. Aceitam-se como são, tentam tornear os problemas que a sociedade lhes coloca como o fez Leila Marques quando quis entrar para o curso de medicina. Aparentemente a lei barrava-lhe o acesso pela notória ausência de um dos braços. Após muita insistência da candidata, finalmente alguém teve o bom senso de entender que a rapariga “dificilmente poderia fazer cirurgias mas nada a impossibilitava de ser médica”. Frequenta hoje o quinto ano de medicina, conciliando o curso com os treinos, num horário que a obriga a levantar-se às 5h30 para fazer duas horas de treino às 6h, seguir para a faculdade e voltar para a musculação às 17h.
Em circunstâncias semelhantes Susana Barroso, Nuno Vitorino e Maria João Morgado.
Susana Barroso é portadora de uma disfunção muscular progressiva. Embora sempre com esperança que a evolução da genética lhe venha a impedir a progressão da sua doença, tal não a impede de ocupar um cargo de responsabilidade no campo profissional e ser bi-campeã europeia de natação e vice-campeã paraolímpica nos 50 metros costas. Por seu turno, o nadador e informático na Câmara Municipal de Lisboa, Nuno Vitorino, afirma que “há muito sacrifício por parte dos atletas para chegar aos Paraolímpicos. Apenas 5% deles, ou talvez menos, conseguem cumprir esse percurso”, ao mesmo tempo, e sem falsas modéstias, declara: ”Sinto-me orgulhoso por fazer parte desta equipa de elite.” Quanto a Maria João Morgado, vítima de uma paralisia cerebral provocada à nascença, encara a vida com um ar sorridente. Fala cinco línguas e trabalha em traduções como free-lancer, ao mesmo tempo que faz um curso profissionalizante que lhe permitirá vir a ser monitora de pessoas portadoras de deficiência.
Observá-los entre eles é uma lição de camaradagem e boa disposição. O que um tem dificuldade em fazer há outro que pode ajudar, para o que nenhum consegue, existe Carlos Mota. Fora dos treinos ele é o companheiro capaz de auxiliar no que for necessário. Porém, dentro de água, as pressões mudam. Os atletas têm de lutar contra o relógio e o treinador não tenciona ver a modalidade como forma de fisioterapia. Tal como afirma: “As medalhas são importantes, sim. Eles são atletas como quaisquer outros e tenho a obrigação de exigir deles“.
É neste equilíbrio entre o ambiente descontraído e o de trabalho intenso que vive a capacidade de ultrapassar barreiras e verem concretizado o sonho que foi o de serem convocados para os Jogos Paraolímpicos de Atenas e agora, o de trazerem medalhas na bagagem.


O boccia, uma outra realidade

Modalidade para muitos desconhecida, o boccia foi criado a pensar especificamente nas pessoas com deficiência mental. Contudo, é praticado por atletas com esta característica como por para e tetraplégicos, alguns deles também vítimas de distrofia muscular degenerativa.
Se entre eles existem os que são relativamente autónomos, outros há que por dificuldades ou impossibilidade de sincronização motora, muitas vezes aliadas à dificuldade de fala, dependem em quase tudo de alguém. É nestes casos que a relação entre atletas e acompanhantes técnicos é mais surpreendente.
A professora Helena Bastos, treinadora e seleccionadora nacional da modalidade, explica, referindo-se aos acompanhantes técnicos, “eles são uma extensão do jogador que lhes diz o que eles têm de fazer através de inclinações do rosto. Estes acompanhantes, que em competição passam o tempo de costas para o jogo sem poderem sequer falar, entendem-nos muito bem, têm uma grande empatia com eles, são os braços que o atleta não pode usar”.
Para esta mulher, cuja voz e gestos estão envoltos numa calma impressionante, começar a trabalhar com os atletas do boccia foi um percurso absolutamente natural. Nas suas próprias palavras: “Estas coisas acontecem. A pessoa vê, gosta e tem uma compensação pessoal muito grande que é a de ver os atletas satisfeitos e a evoluir.” Professora de educação física no ensino secundário e superior considera que o seu trabalhos com os atletas é o seu hobby: “Posso cansar-me mas é também um recarregar de baterias, porque eles têm problemas muito grandes mas vivem, tentam ser felizes e levar a vida para a frente.”
Quanto ao grupo que irá estar presente em Atenas, Helena Bastos afirma que “em termos de campeonatos nacionais lutam ponto por ponto mas competem de uma forma muito saudável. Em competições internacionais funcionam muito unidos - o fracasso ou o sucesso de qualquer jogador reflecte-se em todos os outros.” E o facto de os meios de comunicação social lhes estarem a dar alguma evidência “é muito bom. Estes atletas eram indivíduos que há uns anos atrás estavam fechados em casa, sem que ninguém lhes prestasse atenção. Esta visibilidade faz com que os familiares e os amigos apareçam. Deixaram de ser os coitadinhos e sentem que são capazes de fazer coisas”.
Magazine Domingo - 19.09.2004

dentro da tenda

Na arena, à noite, circo é magia. Durante o dia, para lá das lantejoulas e das maquilhagens, é o quotidiano de gente vulgar, provavelmente mais feliz do que o comum – fazem o que gostam, amam a liberdade da sua forma de vida e afirmam que no circo é como em todas as profissões, há gente bem sucedida, outra nem por isso. Falamos do “Circo Ruben”, poderia ser de outro qualquer.

Ângelo Dias fala pouco sobre si mesmo. Foram outros que nos contaram como aos seis anos já ensaiava acrobacias e como ainda hoje é recordado nos meios circenses de Itália. Um acidente na pista fez com que Ângelo desse entrada no hospital com um dos pés ao seu lado, conservado em gelo. Julgaram que não voltasse a andar, contudo a vontade do homem foi mais forte do que as suposições dos médicos. Regressou à pista mas as dificuldades dos exercícios eram agora excessivas para o seu corpo lesionado. Ângelo optou por tornar-se domador de tigres, e criar a sua própria companhia.
Sempre a seu lado tem estado Isabel, nascida e criada em Mértola. O casamento com Ângelo trouxe-a para o circo já lá vão nove anos. À pronúncia, se alguma a vez teve, deve tê-la trocado ao longo do tempo pelo dia-a-dia atribulado da vida circense. Sorrindo, diz que hoje teria dificuldade em se readaptar à vivência calma que tinha anteriormente.
Se a Ângelo cabe tratar dos ensaios das luzes, música, artistas e pessoal de apoio, além das burocracias essenciais às deslocações da companhia, Isabel trata dos animais que, como diz, são “sempre a prioridade no circo”. É fácil encontrá-la junto dos bichos, de manhã cedo, de forquilha na mão, limpando o local e orientando o empregado que a apoia.
Também os filhos são essencialmente da responsabilidade de Isabel. Quando regressa à caravana após o tratamento dos animais, encontra Eveline, nos seus cinco meses, sorridentemente untada em chocolate que um dos irmãos lhe deu. Ângela, a mais velha dos quatro, passeia-se num vestido da mãe, enquanto Ivan e Ruben ostentam felizes a liberdade da sua nudez.
Isabel tenta repor a ordem na trupe loira que se dispersa em gargalhadas por entre caravanas. Eveline, porque ainda não anda, acaba por ser a mais fácil de tratar. A ideia do banho arranca-lhe sonoras reclamações mas regressa menos pegajosa e com o mesmo sorriso.
Ângela, muito feminina e ciente do seu estatuto de irmã mais velha, já trata de si mesma vestindo-se e escovando a longa e rebelde cabeleira.
Enquanto a mãe consegue vestir e calçar Ivan, Ruben aparece com uns calções vestidos, dos quais não tardou a desenvencilhar-se, e os seus sapatos serão os únicos a manter-se no degrau da caravana. Minutos mais tarde, torneando a intimidação de Isabel para que não voltasse a aparecer nu junto de si, o reguila de cabelo cor de palha surge com uma luva que lhe “veste” a mão: «olha mãe, estou “assim”». Isabel finge ignorar, prefere fazê-lo. Sabe que os filhos são felizes desta forma e que, a seu tempo, terão oportunidade de cumprir este tipo de regras sociais. Defende que vivam intensamente a sua infância mesmo que a sociedade os olhe de lado – as crianças nem dão por isso e ela aparenta não reparar.
No entanto, recorda uma manhã em que encontrou à porta da caravana um saco com roupas e sapatos. Alguém tinha visto Ruben no dia anterior a brincar todo nu e pensou: “coitadinhos, não têm roupas”. Num acesso de solidariedade, a pessoa revolveu o roupeiro dos netos conseguindo reunir coisas que já não lhes faziam falta. Só não deve ter entendido que aos miúdos do circo também não - eles apenas viviam a liberdade que aos seus netos era negada.
É por situações destas que o casal afirma que artista de circo não é gente sem eira nem beira. Quase todos têm a sua casa, igual a qualquer outra, onde regressam após as digressões. Lamentam que as pessoas os olhem de forma desconfiada ou com pena. Afinal o circo não é mais do que uma empresa, sem relógio de ponto, que circula por aí em camiões e atrelados.
Que lhes dêem melhores condições para exercerem a sua profissão é tudo o que pedem, o que se pode resumir à disponibilidade para aluguer, a preço justo, de terrenos públicos onde possam actuar no Inverno sem que a assistência tenha de se sujeitar a enterrar os pés na lama ou sem que os animais se assustem perante um ressalto do piso.

Se no estrangeiro os circos têm um professor pago pelo estado para acompanhar os filhos dos artistas, em Portugal as crianças andam de escola em escola, ao ritmo das caravanas.
Se falarmos nos compêndios escolares, só no ano lectivo 2003/2004, para que Ângela conseguisse acompanhar minimamente os colegas do primeiro ano, Isabel comprou cinco manuais diferentes - um por cada escola por onde a criança passou, o quinto para que ela mesma pudesse exercitar um pouco mais a filha. Para minimizar esta situação, apesar das deslocações do circo, Isabel prefere muitas vezes manter a criança por mais umas semanas na mesma escola, chegando a fazer 120 quilómetros por dia para a transportar.
Domingo Magazine 05.09.2004

arte-xávega na margem sul


A escassos quilómetros da capital ficam as praias que muitos dos lisboetas frequentam: o areal que se estende entre a Costa de Caparica e a Fonte da Telha. Outrora terra de pescadores, hoje ainda há por lá gente que faz da faina a sua profissão. No Verão, ao longo do dia, pode ver-se um ou outro junto dos barcos, a preparar as redes. Quando as praias começam a ficar vazias de gente, eles invadem os areais. É a arte-xávega, que ainda se pratica na zona.

Do molhe, olhando para Sul, avista-se um aglomerado diferente de pessoas. São cerca das 18h30 e o sol começa lentamente a baixar. Com a proximidade percebe-se que aquela é gente da terra, melhor dizendo, que é gente do mar. Todos usam oleados, alguns trazem gorros de lã, preparados para o frio ao largo. Movimentam tractores, mexem nas redes, entram e saem das “chatas”, que é como quem diz barcos, naquela região. Não falam muito, o que dificulta o contacto. Recuando no tempo, vêm à lembrança muitas horas a andar nos areais, muitos rostos fechados. Quis o acaso que um dia o Buissa salvasse a máquina fotográfica de sucumbir entre as ondas enquanto eu me ocupava a engolir borbotões de água salgada. Na chata e em terra haviam risos, mas o gelo estava quebrado e ficou uma ténue ligação: “Apareça quando quiser. Pergunte pelo Paulo Graça. Aqui toda a gente o conhece, é ele o arrais.”

O mestre mais novo da zona

Ser arrais de uma chata é um estatuto, é ser conhecido não apenas entre a comunidade dos pescadores mas também por toda a vila, pelo menos entre os residentes mais antigos, mesmo que sem ligações ao mar. E Paulo Graça é-o, apesar de ser o mestre mais novo da zona. Com os seus trinta e nove anos nota-se-lhe no porte e no olhar alguma rebeldia, talvez ainda resto de uma juventude cheia de afirmação própria. O seu rosto fechado é capaz de se abrir num sorriso quando fala de coisas que lhe dão prazer ou ganhar um ar longínquo enquanto passa as mãos nos cabelos de alguma das filhas “é por elas que eu trabalho tanto”, afirma, com o olhar num local inalcançável. “Não as quero no mar, é uma vida muito instável. Até podem ir por brincadeira, mas a sério só quando tiverem uma ocupação estável.” Para elas sonha com a medicina, mas esta escolha já não lhe pertence. Suas foram as opções que foi tomando ao longo da vida. Filho, neto e sobrinho de pescadores, com doze anos já andava ao mar. Aos catorze, assim que a lei lho permitiu, tirou a cédula marítima. Primeiro de pescador, até chegar ao mestre de costa, que é hoje. Aos dezoito anos, ”porque queria ser mais independente e ter as minhas coisas”, deixou de acompanhar o pai na faina, passando a andar às ordens de outros arrais. Até que, por “brincadeira aí com outros companheiros que diziam que era bom”, fez-se imigrante pela Europa. “Fui experimentar, mas não gostei. Voltei para a pesca.” Sentado no muro, com as mãos apoiadas, balançando os pés pendentes, olha para baixo quando queremos saber o que o atrai tanto na pesca: “tudo. É a adrenalina que isto tem. Gosto de andar no mar.” Vendo-o a comandar o Neptuno, o barco de que é arrais, pleno daquela segurança que só possuem os que gostam do que fazem, sente-se que não mente.

A instabilidade da Natureza

Paulo Graça dedica-se à arte-xávega de Maio até Novembro, “a partir daí o peixe migra e nós deixamos de pescar porque não é rentável”. É sobretudo desta instabilidade motivada pelo factor Natureza que se queixa,” há anos em que há muito peixe, outros em que há pouco. O peixe passa por aqui mas segue, não fica. Nos outros anos tem havido muito camarão, que é a comeria do peixe e aguenta por cá o carapau, a lula. Principalmente o carapau, quando tem muito alimento fica junto à costa, se não tem, amara” diz, rematando ”e este ano tem sido dos piores dos últimos 10.” Ocorrem-nos então todas as vezes que, após a abertura do saco da rede sobre o oleado, vimos sobressair as sardas e os caranguejos, espécies que ninguém compra, ao mesmo tempo que se ouvia: “Isto hoje nem para o gasóleo dá”. Como fazem, nessas alturas? “Acumulamos a despesa até que venha um dia que dê para as pagar. Chegam por vezes a ser muitos dias à espera disso.” Quanto aos próprios pescadores, alguns estão prevenidos com algum dinheiro amealhado nos dias melhores, outros apoiam-se nas pequenas reformas. No caso de Paulo Graça, pode contar também com o ordenado fixo da mulher, mas nem sempre é fácil fazer face às despesas diárias. Casos há em que apenas o peixe distribuído entre todos impede que as, já de si precárias, condições de vida piorem. É o motivo por que Paulo Graça diz que a arte-xávega “ajuda muita gente a sobreviver”. Observando os pescadores ao longo da praia, constatamos que muitos deles já estão bem longe da juventude, o que nos faz inquirir sobre o futuro desta arte. A realidade é que já só os mais velhos sabem montar as redes para este tipo de pesca, que têm uma forma própria. Se Paulo Graça começa agora a preocupar-se em aprender a montá-las, diz-nos também que não tem conhecimento de muitos mais companheiros que o façam. Contudo, a resposta vem rápida: “a arte-xávega não acaba. É a arte mais antiga que há no país e talvez do mundo. Não acaba, nem que seja para manter a tradição, como já fazem em alguns sítios”.

Depois do Verão

Chegado o Inverno, Paulo Graça dedica-se à pesca do polvo e “da rede de emalhar. É uma pesca mais perigosa, feita em alto mar, ali na barra. Por vezes o mar vira de um momento para o outro e apanha-nos lá no meio”. Por isso, considera a pesca mais fácil no Verão, mesmo que possa ganhar menos. Do Inverno recorda dois naufrágios, o último deles há um ano, na barra, no qual perdeu quase tudo: um amigo, o barco, as redes, e ia perdendo também a vida, não fosse outra embarcação tê-lo resgatado ao fim de três horas de andar à deriva sem que nenhuma patrulha marítima desse por isso. Na sua opinião, “a polícia anda mais à procura da multa – se pescamos no canal, somos multados, se pescamos a menos de duzentos metros de terra, somos multados…” Sem grande parte do rio para trabalhar, os pescadores “afastam-se para o largo, para zonas bastante mais perigosas onde ocorrem por vezes grandes acidentes e, porque não há qualquer proibição, não existe patrulhamento.” Foi o que aconteceu no seu último naufrágio. Se o assustou? Claro que sim, mas ficou sem nada e não pode parar. O barco, por se tornar muito caro, não estava no seguro e ajudas não as teve, embora obtivesse algumas promessas, nomeadamente da junta, ainda por cumprir. O que tem a fazer é tentar recuperar o que perdeu e sabe que, se arriscar um pouco, a pesca de Inverno será bem mais compensadora do que a do Verão. Até lá, para sua sobrevivência e para prazer de todos que queiram assistir, vai seguindo o ritual da arte-xávega: o tractor que leva a chata ao mar, as primeiras remadas dadas pelos pescadores até que o motor possa ser posto a trabalhar, o lançamento da rede e o regresso a terra, enquanto os outros dois tractores tratam de alar os braços da rede até à chegada do saco que será aberto sobre o oleado. Tudo isto uma, duas, três, as vezes que o mar lhe oferecer peixe.
Notícias Magazine #639 - 22.08.2004