agosto 31, 2006

originalmente ostra


Cria e recria em concha de ostra, coral, madrepérola, búzios. Das suas mãos podem sair reproduções fiéis do quotidiano como peças abstractas que foram tomando forma na sua mente irrequieta. Tanto quanto julga saber, o seu trabalho é único no mundo. Em Portugal não tem dúvidas, não há mais ninguém que o faça. Está disponível para ensinar, só não tem quem queira aprender.

António Cruz nasceu há setenta anos, por terras do Norte. De lá transporta o sotaque vincado, que o tempo não apagou. Foi aí, ainda miúdo, que começou a trabalhar os arames e as madeiras para fazer os brinquedos que os pais não lhe podiam dar. Para este homem vindo “do tempo em que, com sete anos, já ia apanhar lenha”, “a bola era uma meia e uns trapos. Se apanhasse uma bola de borracha pequenina, já me considerava muito rico.”
Contudo, a falta de meios económicos nunca retirou a criatividade ao miúdo: “uma coisa que eu gostava de fazer era barcos”. O gosto ficou-lhe pela vida fora, mesmo que aos quinze anos, se tenha feito ao mar para ganhar a vida. Teve várias profissões, “mas fui essencialmente pescador. Andei na pesca do bacalhau, depois andei nos barcos, em Lisboa, mais tarde vim para Alcochete”.
O atelier de António Cruz fica num anexo da sua casa. No espaço que medeia os dois edifícios podem ver-se ostras a secar. É aí que António ou a mulher esmagam as cascas dos bivalves para os acabamentos das peças. Já no interior da oficina, junto à janela, uma bancada de trabalho serve-lhe de poiso. Empurrado contra a parede, um monte de conchas que esperam por vez para verem aproveitadas as suas formas em objectos que crescem ao ritmo de quem as cria. O artífice gosta de trabalhar ao sabor da sua inspiração e encomendas, torna-se difícil aceitá-las. Embora já o tenha feito, diz que esta forma de laboração se torna “um compromisso e não é a mesma liberdade de estar a criar”, afirmando peremptório: ”eu gosto sempre de fazer coisas diferentes, é isso que me entusiasma”.
Comprovam-no as peças expostas numa segunda divisão do atelier. Num espaço com pouco mais de 20 m2 espraiam-se por vitrinas alguns dos seus trabalhos. Entre reproduções e figuras simbólicas, pode apreciar-se de tudo. A um canto, uma cópia da Alcatejo, a fragata pertença da Câmara Municipal de Alcochete, de um dos lados, algumas barcaças, representações das artes piscatórias, com as redes miúdas, elaboradas com minúsculos búzios. Há ainda toda uma série de presépios e figuras abstractas que o artesão gosta de elaborar, pequenas obras-primas da habilidade de um homem que começou nisto de ser artesão há 37 anos.
Por volta de 1969, António Cruz decidiu deixar as lides marítimas: “ vim para Alcochete, porque andava sempre fora de casa. Escolhi fixar-me na Câmara, em fiscal de mercados.” Passou a ganhar cerca de metade do que auferia anteriormente mas contava com o jeito que sempre o tinha acompanhado para fazer pequenos trabalhos. No início dedicou-se à marcenaria. Já aí gostava de produzir peças diferentes e é com orgulho que fala nos guarda-jóias com segredo que saíram das suas mãos. Contudo, a insistência da filha para que visse umas peças feitas por um pescador veio mudar-lhe o rumo da inspiração: “era uma pessoa que tinha um barquito e fazia uns trabalhos com ossos de galinha e concha de berbigão e amêijoa.” Quando viu aquilo, ocorreu ao artífice começar a trabalhar em casca de ostra. A matéria-prima estava ali bem à mão: “comecei à base de concha daqui de Alcochete. Era eu quem a ia apanhar, nas marés baixas.” Para as escolher, olhava as suas formas. Se, ainda no chão, lhe sugerissem o início de uma peça, então trazia-as consigo.
Segundo conta, a inspiração vem-lhe essencialmente do feitio dos materiais que utiliza “todas as formas que vejo, posso servir-me delas. É uma questão da pessoa ter a capacidade de as aproveitar.” Quanto às suas peças maiores, “qualquer delas são a história da vida”. E por história da vida entende-se aquilo que António vivenciou ao longo da sua, como é o caso de duas das mais imponentes peças que podem ser vistas no seu atelier: uma, a reprodução de uma das mais ancestrais tradições da terra que o acolheu, o quotidiano da vida numa salina; a outra, o dia-a-dia num bacalhoeiro, peça baseada na sua experiência pessoal pelos mares da Terra Nova.
A representação da água é executada em madrepérola, os barcos em cascas de ostra cuidadosamente ligadas. Apenas alguns pedaços de arame são utilizados em peças que necessitam de um esqueleto que as suporte e, mesmo esses, são escrupulosamente cobertos com o mesmo material moído, utilizado nos acabamentos, de cores previamente escolhidas. Isto porque nem tintas entram no trabalho deste artesão, sendo todas as tonalidades dos pormenores das peças escolhidas entre os pós de cascas de bivalves esmagadas e posteriormente peneirados de acordo com a espessura pretendida. Também as velas que enfeitam os barcos são feitas utilizando o mesmo sistema. Depois de escolhido o matiz pretendido, o pó é deitado sobre uma placa metálica, na qual é colocada também cola e é dessa pasta, devidamente misturada, que irão sair as imitações dos panos enfunados.
Para todos estes apuramentos técnicos obtidos através de longos anos de experiência é que António Cruz não tem seguidores. Se em tempos a Câmara Municipal de Alcochete promoveu um curso para formação de artesãos nesta área , findo este, os potenciais artífices dispersaram-se e não há notícia de que mais alguém se dedique a este tipo de trabalho. Como diz António Cruz, “se houvesse mais gente a trabalhar nisto, ganhava o país e ganhava a terra, até porque o estrangeiro ia ver um trabalho que mais ninguém faz”. Mas, para o conseguir, seria necessário o apoio de alguma instituição, uma vez que a forma de trabalhar deste artesão, com a inspiração em roda livre, não se presta à contratação de um aprendiz.
Quanto à divulgação, ela é pouca. Excepção feita a uma ou outra entrevista, à presença num dos livros editados pela câmara, apenas a comparência em exposições e em feiras de artesanato têm difundido o seu trabalho. Contudo, António Cruz não é grande adepto desta modalidade e os seus motivos são vários. “Sou uma pessoa que gosto muito é de estar a trabalhar no meu cantinho”, diz, adiantando “é diferente. Estar numa exposição é ficar ali à espera.” Se este não fosse motivo suficiente, outros há que se prendem com a própria organização destes eventos. É que, nas exposições de artesanato, o artífice é convidado mas tem de pagar o espaço que ocupa e, apoios, o artista apenas tem o da Câmara Municipal de Alcochete que se limita a fazer o transporte das obras, o que o leva a comentar: “se alguém vai a uma televisão cantar um fado, recebe um cachet porque dá espectáculo. Um artesão vai a uma feira, dá espectáculo e ainda tem de pagar. Em Vila do Conde, ultimamente, além de pagar o stand, ainda tive de pagar 3% sobre as vendas.”
Com obras, que podem custar entre os módicos 7,50 € e os 7.500,00 €, este homem tem trabalhos espalhados por colecções particulares desde a Europa até à Ásia. A ele recorre a Câmara Municipal de Alcochete quando quer fazer uma oferta institucional e, embora já tenha tido alguns convites para trabalhar para o estrangeiro, declina as ofertas, antes convidando os potenciais compradores a visitar o seu atelier para aí escolherem entre as peças já produzidas.
António Cruz é o típico o artesão movido essencialmente pelo bafo da inspiração.
Vega Mar & Aventura #20 Abril/Maio 2006

3 comentários:

Anónimo disse...

Olá!
Eu sou neta do senhor António Cruz aqui mencionado e infelizmente apesar da sua publicação praticamente ninguém liga muito a este trabalho, o que é uma pena!
Até porque eu acho que este é um trabalho digno de valor não só por ser único, pelo menos é o que pensamos, mas também porque dá muito trabalho e é necessário muita paciência, coisa que eu não tenho, confesso!
Agradeço a sua atenção.
Ana Maria Cruz Figueiredo

JMarafuga disse...

Conheço o António Cruz e sei que este homem é um artesão de grande mérito.

NMCS disse...

MTO BOA TARDE...EU FUI UM ALUNO DO SR.CRUZ,NESSE MESMO CURSO QUE É MENCIONADO..FUI O MELHOR ALUNO NO CURSO TANTO NA OSTRA COMO NA MADEIRA,POIS TANBEM ESTAVA-MOS A REALIZAR BARCOS DE MADEIRA,MAS COMO FICOU O GOSTO DE FAZER TRABALHOS EM OSTRA,FAÇO EM CASA ALGUNS TRABALHOS,E GOSTO MESMO DE O FAZER POR ISSO ENTENDO BEM O MEU PROFESSOR ANTONIO CRUZ,SEMPRE FIZ PEÇAS DESDE QUE ACABOU O CURSO NUNCA O DEIXEI DE FAZER...AFINAL JÁ SOMOS DOIS A FAZE-LO,UM GRANDE ABRAÇO DESTE ALUNO QUE NUNCA O VAI ESQUECER